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terça-feira, 16 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 16 | Cruz de Tomar

Diogo 
Mariana 
Tomar 
Mesmo dia, manhã 

Tinham três alternativas: continuar a marrar na porta até chamarem a polícia; voltar para Lisboa ou ficar por Tomar. Foram com a terceira, dois quartos separados, e voltaram bem cedo. 
O prédio estava mergulhado no silêncio da manhã, apenas com interlúdios de vida quando duas crianças desceram de mochila e uma senhora subiu com um pinscher. O velho surgiu à porta com dois sacos de compras e suspirou ao vê-los sentados nos degraus. As gentes de Tomar começavam a vida cedo ou eram eles que nunca estiveram de pé àquelas horas. 
Passou por eles, meteu as chaves na fechadura e desapareceu na escuridão da sua casa. A porta ficou aberta num convite subtil sem confirmação. Ouviram os sacos a pousar no chão e as passadas ágeis do velho até eles. 
“Quero fechar a porta” apressou-os para dentro. 

A casa era bastante acolhedora e não parecia casa de velho, com móveis de linhas duras do Ikea; não se viam berliques e as paredes estavam decoradas com posters de jogos de várias épocas; passaram pela sala e um ecrã ocupava a parede oposta à porta. O Diogo reparou em várias consolas, recentes e antigas. Uma old man cave
Queria entrar e explorar; por momentos perdeu-se da missão e das boas maneiras, mas o empurrão da Mariana carregou-o até à cozinha. Um gato laranja roçava-se ao saco das compras que o velho estava a descarregar. 
“Querem café?” Ofereceu sem se virar. O Diogo aceitou, a Mariana ficou indiferente. Foi a primeira a sentar-se à mesa. O gato seguiu-a e enrolou-se às suas pernas. 
Tirou dois cafés de cápsula e meteu duas fatias de pão a torrar. 
"Céus, achava que só te ia ver no meu funeral, rapariga.” Sorveu um pouco do café amargo sem recuperar os olhos da neta. Fazia anos que não via o avô António ou 'vô Tó. 
“A Francisca ligou-me quando saíram.” O Diogo deixou cair uma pedra de stevia no café. O gato saltou para o colo da Mariana e aninhou-se. “Ficam para jantar?” 
“Acho que sabe porque estamos aqui” puxou o Diogo. 
“Massa? Comprei uma pinga para acompanhar.” 
A Mariana deixou o braço cair como um machado, mas a mesa continuou muda. O gato levantou a cabeça, e voltou a ferrar. Os dois homens registaram o gesto mentalmente; o avô mais espantado. 
“Diabos me levem, é mesmo verdade...” Posou a garrafa de vinho. “Não estou maluco!” Aproximou-se da neta a medo. 
“O quê?” O Diogo seguiu o velho. O gato voltou a levantar a cabeça e esticou as patinhas para ajeitar a perna da rapariga. 
“Oh, oh. Aquele homem.” Ajoelhou-se e procurou-lhe as mãos. “A Francisca contou o importante, não foi?” A neta puxou-as do avô. 
“Bem, só contou que afinal o pai está vivo” atirou com aquela tentativa de sarcasmo. 
“O meu filho recusou todas as condicionais.” Levantou-se. 
O gato desistiu da estabilidade e saiu da cozinha com um miado longo e grosso. 
“Quer cumprir a pena até ao fim para conseguir olhar na cara da filha.” 
Os olhos do avô tremiam naquela indecisão de chorar ou manter a postura. Achou os olhos da neta mais sólidos que os seus. De súbito, o ambiente na cozinha arrefeceu. O gato continuava a miar no fundo da casa e a porta do prédio bateu, fazendo tremer a de casa. 
“A mãe dele desapareceu. Nunca aprovou o casamento por causa da Francisca e nunca o visitou na prisão. É uma beata agora. Mas eu fui fiquei e lembro-me do que ele disse na primeira semana: «pai, tenho tantas saudades das vozes delas.»” 

Duas flores húmidas brotaram e escorreram pela face da neta. O gato voltou a tentar o colo, roçando a cabeça na barriga da rapariga. Os seus dedos enfiaram-se no pêlo do felino, em busca de algum conforto. 
“Tive a ideia de pedir à Francisca uma gravação tua e meti-a numa caixa de madeira. Era para ser uma surpresa, mas não deixaram dar. Hum. Mostrei-a na visita e ele ouviu-a tantas vezes que nem falámos nesse dia.” Deitou a cabeça de lado, perdido no seu próprio flashback. “Foi das poucas vezes que o vi feliz depois do acidente. Então levei-a sempre que ma pedia!” 
Começou a tirar panelas do armário e a pousá-las no fogão eléctrico. Ainda de costas, retomou: 
“Um dia estava ali a jogar e comecei a ouvir vozes. O caraças do gato correu pela casa e ficou a olhar para a caixa. Eras tu! A falar, mas não o que estava na cassete. A falar normalmente!” E agora encarou os dois, enquanto o gato confirmava a história, “nem pensar! Vi demasiados filmes de terror. Mostrei a caixa ao teu pai e muda que nem um rato, mas aqui falava que se desunhava e deixava esse gato histérico.” 
“Peguei na caixa e enterrei-a no parque.” Sacudiu a cabeça e os espíritos. Abriu a torneira da água e meteu-a a ferver na chaleira. Quando reparou na torradeira, as fatias de pão já estavam frias. 

O Diogo estava estupidamente confuso, mas achava ter percebido o essencial. A Mariana escrevia no telemóvel. 

ONDE? 

“A cruz marca o lugar” respondeu com um fôlego de alívio. “Agora, o que me dizem do almoço?”

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 15 | Boa Boca

Leandro
Lisboa
Almoço
Dia seguinte

“Porra, esta massa está brutal!” Comentou o Guilherme.
“É, a cozinheira é boa.” Respondeu o Jordão.
“Acho que não fui a tempo de provar os cozinhados da dona Celeste...” lamentou.
“Mas alguém sabe que estás aqui?” Comentou a meio garfada.
Os dois rapazes ocupavam uma mesa no fundo do estúdio, algures no Bairro. O Guilherme apareceu antes do almoço e fez questão de esperar pelo outro. Sem outras alternativas, o Jordão convidou-o a entrar e acabou por perguntar se ele era servido. Quando deu por si, estavam a partilhar a marmita. 

“Sim, sem stress.” Despreocupou-o. “Vim em trabalho. Eh. Mais ou menos.”
Uma cena que ainda ruminava: almoçar com os irmãos.
“Diz-me.” Mastigou uma garfada e esperou que o outro engolisse.
Sculpa.” Engoliu. “Sem tretas: o pai deixou-nos o restaurante.”
Tanta coisa má naquela frase: «o pai» e não «o meu pai» e DEIXOU-NOS O RESTAURANTE! Parte do que arrancou do garfo foi ao goto e engasgou-se. Cuspiu-se entre tosses e limpou a baba do canto da boca. O irmão comia sem ligar como se já esperasse a reacção.
“Han?!”
“O restaurante do pai, o Tropa.”
“Sei, mas porquê?!” Estava incrédulo e o outro encolheu os ombros. Se havia razões, não estava muito preocupado.
“O pai” o pai... “contou-me que existias há uns meses e, bem, não foi fácil...” enfiou a ponta do garfo na boca. A cara do Jordão perdeu o foco e os olhos percorreram as paredes e os quadros e as fotos à procura de algo ou alguém que conseguisse fazer sentido daquele circo.
Ele nem gostava do homem. Ele nem conhecera o homem...
“Ah, não, não!” Sacudiu os braços no ar. "Não fiques assim. Na boa, mas imagina que vives a pensar uma coisa e depois, pimba!, tens um irmão. Outro irmão! É brutal!”
“E o que o teu pai fez não te chateia?” A ele sim.
“Foi uma merda para a minha mãe, mas cenas...”
“O teu irmão sabe?”
“Nah.” Mirou os atacadores dos ténis. “Ele nunca se deu bem com o pai e isto ia comer-lhe a cabeça.”
“Fodido...”
A Celeste fez questão de contar tudo ao filho tipo penso rápido. Até pode nem ter sido a melhor decisão, mas fê-lo e ficou feito. Ainda puto, fez imensas perguntas e se podia conhecer o irmão isto e aquilo. Mais velho, a curiosidade tornou-se em indiferença e acabou por desprezar o homem, mas ele sabia quem eram todos. E a mãe apontou-os assim que chegaram ao velório. Se essa mulher não gostasse das suas novelas, então não sei…
"Nem veio a casa quando ele adoeceu. Só via a merda da tuna à frente e as festas.”
“Vi-o a bazar ontem com o pessoal dele.”
“Oh, tinha assuntos importantes a tratar, vê só.”
“E o senhor Augusto também foi com ele.”
“Conhecem-se?” Acenou.
No meio daquela novela mexicana, o senhor Augusto era das únicas pessoas que a mãe não tinha nada de mal a dizer. Foi a casa algumas vezes, comeu da comida da Celeste e elogiou-a daqui até à Lua. Não fossem as curvas da vida, e ele podia ser o pai dele.
No fim, esvaziaram a marmita numa questão de garfadas, empurraram com água e limparam-se satisfeitos.
“Nunca pedi nada ao teu pai. Nunca quis nada. Não quero o restaurante dele para nada.”
“Nem eu. Para que quero um restaurante se nem sei cozinhar? Falta-me falar com o Leandro e se ele não quiser, vende-se, dividimos o guito.”
“Não mesmo, meu.”
“Depois vemos.” Levantou-se. “Posso só lavar as mãos?”
Quando o Guilherme saiu do cubículo, o colega do Jordão já tinha regressado e preparavam-se para abrir o estúdio para a tarde.
“Vou indo. Deixa as cenas acalmarem e começo a mexer-me.” Esticou o braço e apanhou-lhe a mão num aperto fraternal, mas com pinta.
“E trato do outro também.”

Saltou o degrau e desceu a rua velha, desaparecendo nos turistas que subiam. Ao fim ao cabo, no meio daquela revolta, alguma dor e confusão, o facto de ter irmãos nem era mau de todo e aquele, apesar de ser um branco a tentar demasiado ser fixe, conseguia-o ser um bocadinho. Tinha uma boca do caraças; a mãe iria adorá-lo.

domingo, 14 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 14 | Tomar

Mariana
Diogo
Tomar
Fim da tarde

Aqueles dias pareciam uma fetch quest
Emprestar o telemóvel, passar a noite no Cais, ir a casa, ir à avó Quicas e correr para Tomar. 
A revelação da avó Quicas atirou com a neta porta fora e se não fosse a Bonna, teria pegado no carro e ir para Tomar à papo-seco. A voz sensata, mas firme amansou-a à razão e a aparição do Diogo colocou-a no lugar. Onde em Tomar? Porquê em Tomar? Como em Tomar? A avó ficou na cozinha – meio escondida, mas também a acabar o almoço para as miúdas e miúdos com clientes a chegar. 
A Bonna ofereceu-se como pombo-correio e voltou com mudas de roupa para os dois, lanche e um envelope com a morada e uns duzentos euros. Despediu-se com um abraço dado por duas e um beijo na bochecha. Ao Diogo deixou conselhos e o pedido para olhar por ela. Foram rapidamente à casa de banho e arrancaram minutos depois. 

E pronto, havia a personagem principal e a secundária, aquele que testemunhasse o desenrolar da trama.
O papel do Diogo era esse: observar e, às vezes, comentar, enquanto as personagens principais desbravavam terreno na sua narrativa pessoal. E a sua? Ou alguém que parasse para perguntar como estava. 
Para o melhor ou pior, não falava. E até acalmar, até o Diogo emudeceu. Tudo o que lhe tinham dito do acidente era mentira: o pai afinal vivia e tinha sido ele o culpado; tinha sido preso; eventualmente solto e agora vivia em Tomar. Isso não explicava a voz, mas eram passos que dava para longe do abismo. 
Quando a Mariana acabou a partida de Tetris mental e organizou as ideias, parou o carro num parque de merendas e escreveu ao companheiro toda a verborreia que se lhe acumulara nos cantos da boca. Oh, ela estava fodida da vida e com razão, não? O rapaz só podia imaginar. 

O GPS mandou-os para a zona residencial, longe do centro histórico. Pararam em frente a um prédio sóbrio, com canteiros arranjados pela administração do prédio e banquinhos para os velhotes. As únicas pessoas que se viam estavam a passear os cãezinhos e era bem possível que uma delas fosse o pai, mas o facto de ela ter continuado a andar disse-lhe que não. 
Empurraram a porta aberta do prédio e tocaram ao rés-do-chão direito. A música que escapava por baixo da porta fazia-a vibrar de tão alto que estava; de dentro ouvia-se a cacofonia do metal contra metal e guinchos lancinantes; e alguém a berrar ordens de comando. O Diogo deixou o dedo em cima da campainha até repararem. Demorou um bocadito até baixarem o som e ouvirem os passos a caminhar para a porta. Quase... 

Apesar de ser o pai da companheira, acho que o Diogo estava bem mais ansioso do que ela. Havia coisas que conseguia disfarçar como a respiração acelerada, mas a sensação de peso no peito e as correntes que se enrolavam às mãos eram mais difíceis de sacudir. Olhou para ela e o único tique que denunciava era o morder do lábio inferior. Os passos aproximaram-se, ouviram a dança das chaves e a fechadura a virar. A porta afastou-se e dois olhos gigantes surgiram do escuro; depois uma cara com um bigode e cabelo brancos de neve. O velho com óculos fundo de garrafa olhou a Mariana de cima a baixo, boca aberta de espanto ou de susto. 
Antes de o velho bater com a porta, o Diogo reparou na sua indumentária: uma t-shirt do Super Mario e uns calções que nem tentavam esconder as canetas que serviam de pernas. 
Estavam estúpidos a olhar para a madeira fechada. O Diogo bateu de punho fechado, ecoando no prédio. 
“Vão-se embora!” A música e os sons de batalha reapareceram e abafou-os.

sábado, 13 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 13 | Cruzamento

Augusto
Jordão
Leandro
Cátia

Lisboa
Tarde


O maço enrugado estava no fim.
Tirou de um para fora e prendeu-o nos lábios; arrancou um pauzito da carteira e raspou-o até a cabeça rúbea explodir; aproximou-os para incendiar a ponta e chupou a base.
Que raio se passa com o teu filho, Jorge? Expulsou a nuvem para longe. O estado miserável quando cheguei...

Deu outra passa e mandou o fumo para o ar.
Apanhou o Guilherme e a mãe quando iam almoçar e ficou a saber do outro filho que tinha ficado para trás. Continuou com a Cátia, mas abençoada bexiga cheia que a fez ir a um café. Quando entrou na capela e reparou no morto tombado sobre o filho, quase que lhe partiu o coração. Aproximou-se a medo e parecia que estava a encurralar um animal abusado. Houve lágrimas, raiva e confusão, mas quando arrumar o cenário, houve alívio. Depois o Leandro saiu disparado.
Deixou a ponta do cigarro cair e esmagou-a contra a calçada. Tirou outro de seguida. No outro lado da estrada estava o rapaz que ele conhecia como Jordão, concentrado no prazer do cigarro; também não o via há anos. Estava mais alto que o Leandro e com um cabelão. Os braços tatuados contrastavam com a rigidez do fato passado, como se dois mundos chocassem naquela pessoa: o da ordem e o da rebeldia, sem haver necessidade que um deles ganhasse. Que fará ele da vida?
Uma pessoa vem aos velórios encontrar pessoas e conhecer família nova – e se o rapaz estava ali, a Celeste também.
De facto, estava a conversar com a mãe do Leandro. Elas conheciam-se; sabiam da situação e sobreviviam. Os filhos? Nah, nem sonhavam – ou assim alguns julgavam.

Olhou para o café e para a Cátia com a atenção colada ao telemóvel. Os rabiscos na cara diziam que não estava a ser uma boa conversa. Talvez devesse falar com ela depois... mas não se queria meter na vida da moça, mas deveria? Tinham passado quase vinte e quatro horas juntos, apenas separados pela necessidade de dormir e dois quartos de uma residencial que o Augusto oferecera. Ele já sabia da história dela, das indecisões e da família que lhe bichanava o futuro, pousados nos seus ombros.
E ela sabia da dele, bem, nem tudo. Ele era velho e sabia que certas coisas estavam melhor guardadas. O quê? A razão pela qual ele deixara o restaurante. Contou-lhe que tinham discutido - só. O porquê iria morrer com eles e um já tinha ido.

Com o cigarro preso entre o indicador e o polegar, ia fumando com pausa a adivinhar os filmes das pessoas.
Que mundo pequeno.

Espiou o Leandro à porta com os camaradas de Évora. Eles trajados e o rapaz com o saco na mão. A expressão do filho do amigo estava dura e focada. Não parecia a criança perdida que achara há umas horas com o cadáver do pai em cima. O pessoal fardado e a organização lembraram-lhe dos dias de tropa, onde conheceu o pai do Leandro. Esses é que foram dias; dias de revelações quando o coração saltou uma batida. Mas estavam tão longe que pareciam filmes rebobinados.
Seguimos para Tomar quando estiveres pronto, ouviu um dos trajados. 
"Por mim, vamos agora", devolveu o Leandro que se virou para encontrar o velho.
“Onde vais, rapaz?” Perguntou-lhe.
“Embora.”
“Já viste onde estás? A tua mãe e o teu irmão?”
“Passam bem sem mim.”
“Onde vais?”
“Tomar.”
“O que há em Tomar?”
“Tenho uns assuntos por resolver.” E disparou pelo velho, com os outros a seguirem. Desfez-se do cigarro e acelerou atrás dos jovens. A Cátia, ao telefone, olhou para o Augusto e o rapaz no outro lado da estrada pôs-se a ver a cena.
“Vai depois...” Não quis levantar a voz para atrair ainda mais as atenções, mas os rapazes ignoraram e seguiram na direcção da carrinha que os tinha trazido. Ao todo eram quatro e com o Leandro, cinco. Um deles enfiou-se no lugar do condutor e os outros atrás.
“Augusto, não posso ficar aqui mais tempo.” Aproximou-se ao nível de segredar. “Obrigado pelo que fez por mim, mas deixe-me ir. Agora.” Enrolou as mãos em dois punhos e cravou as unhas nas palmas. Abriu-as, relaxou-as e focou-se.
O velho agarrou-o pelos ombros.
“Duas coisas, rapaz: despede-te da tua mãe e eu vou contigo.”
“Han?”
“Fazemos assim e não arranjamos problemas. Falamos na estrada.”
O Leandro hesitou, esfregou a nuca e ainda tentou contrariar os pés, mas girou no passeio e apressou-se para a mãe que estava sentada com o irmão. A mãe acenou e recebeu um beijo do filho, mas o Guilherme foi mais vocal com a retirada do irmão e dos amigos. E estava a fugir de novo.


“Hum...” Pensou a Cátia a olhar para os rapazes na carrinha. “Acho que fico por aqui, Augusto.”
“’Tá bem” respondeu à rapariga.
“Não sei o que se passa e acho que não me atrai por aí além.”
“Rapariga, nem eu sei” admitiu o velho em seco. “O pai dele matava-me se o deixasse fazer asneiras.”
“Achas que vai?”
Encolheu os ombros.
“Ficamos por aqui então.” A pequena Cátia de vestido e casaco de cabedal por cima, com cabelo a precisar de um bom pente e com uma cara a irradiar dança esticou a mão ao velho fumador de sobretudo, cuja missão era comer o melhor bife com ovo a cavalo e que escrevia poesia gastronómica.
O Augusto encontrou a mão dela e apertou-a gentilmente. Sacudiram a ponte entre si e separaram-nas com um sorriso.
“Sinto-te preocupado e assustado.” Abraçou-o num passo. “Não mintas, mas é o que sinto.” Apertou-o e ele envolveu-a no seu abraço de velho, a fraquejar. Suspirou uma resposta que era melhor do que mentir.
Separaram-se novamente e ele foi ao bolso onde estava o bloco.
“Toma.”
Os olhos saltaram da capa para o Augusto.
“Certeza?”
“Aceita, vá.” Ela recolheu-o nos braços.
“Dividimos: eu continuo a comer e tu a escrever. Quero-o de volta, ouviste?”
“Missão aceite! Cuidado com o sal, Augusto.”

O Leandro entrou para o lado do condutor e velho para a segunda fila. Pouco depois, o carro desapareceu da rua e ela, pela parte que lhe tocava, também sumiu.
Uns minutos mais tarde, a Celeste emergiu da capela e esperou pelo braço do filho que a levou dali para fora, daquele lugar de despedidas – algumas para sempre...

Paga depois de beber / Não saias daqui a correr / E se vives do alimento / Não me tires o sustento

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 12 | Eco

Leandro
Lisboa
Tarde

Estar num velório é como tirar uma fotografia e não saber o que fazer aos braços. É estranho. Estamos lá, mas não sabemos bem o que fazer: se choramos, se rimos, se consolamos ou sei lá.... É tudo tão alienígena e falso, então o choro.... Disseram-me há tempos que as carpideiras eram mulheres contratadas para chorarem em velórios e funerais e para ajudar, não, para guiar as pessoas pelos seus sentimentos. Ninguém faz o luto da mesma maneira nem há um manual universal de como sentir... 
Agora que penso nisto, são prostitutas da tristeza que, por uma quantia combinada, fazem-nos sentir alguma coisa... 

“Vamos almoçar agora, vens?” Perguntou o Guilherme ao irmão, quase a sussurrar. Duas criaturas tão diferentes que podiam ser de famílias separadas. O mais velho, alto e careca com A barba ignorada. O mais novo, gordinho, mas bem arranjado para a ocasião. 
“Vão andando. Quero ficar uma beca sozinho” respondeu o Leandro a abrir as cadeiras de plástico. O irmão passou-lhe a mão pelas costas e afastou-se. Fechou a porta da capela atrás de si. 
O Guilherme era mais novo quatro anos e estava no primeiro ano da faculdade. Como ficou por Lisboa viveu o declínio do pai de uma maneira mais presente; viu-o a ficar doente; as pessoas que o vinham visitar, a morrer. Foi ele a ligar ao irmão. Era ele a apoiar a mãe. O Leandro estava em Évora e, embora quisesse estar com eles, sentia-se aliviado por não ter assistido àquele espectáculo. 

Estava sozinho, mas sentia uma espécie de presença na sala, alguém sentado no fundo. Aquela sensação de entrarmos em algum lado e sentirmos a televisão ligada, mas a mãe e o irmão tinham ido almoçar e o resto só chegava de tarde. 
Ele e o pai enfiado numa caixa de madeira aberta pela metade. Apenas alguns passos até surgir a cara do homem. Parecia que só estava a dormir com o sorriso dele desenhado na cara. Enrolou a mão numa bola. Não era difícil fazer aquele homem sorrir, principalmente se não forem da família. 
Mas estava bem arranjado no seu fato. A genética agraciou ambos aqueles homens com falta de cabelo, mas deu-lhes barbas fortes. Se não fossem as rugas da idade ou o nome na porta, podiam trocar de lugar. 
Recuou e sentou-se. Os passos a ecoar na sala vazia. 

A mala e o saco do traje estavam na cadeira ao lado. Mais tarde, o pessoal dele iria chegar para ajudar. Tirou do telemóvel e fez a mesma chamada pela enésima vez, com o ecrã ao nível da cara. Tocou e tocou e nada. Ligou para o segundo número, de onde falou uma senhora. 
“Olá, Francisca. Como está?” Encostou o telemóvel à boca e quase a sussurrar. 
Oh, filho, bem e tu? 
“Nada a apontar. Por acaso sabe da Mariana? Não consigo falar com ela.” 
Olha, saiu daqui há umas horas. 
“Sabe para onde?” 
Para Tomar. Foi com um amigo. 
“Muito obrigado, depois tento falar com ela.” 

Desligou a chamada e ficou a marinar naquilo. Tomar. Amigo. Bateu com o telemóvel no assento da cadeira, mas o som que produziu não foi o de um objecto a bater. Alguém que o chamou. Talvez não tivesse desligado a chamada e a dona Francisca o tivesse chamado. Ou um efeito estranho do eco. 

Leandro. 

Saltou cadeira. Percorreu as cadeiras, e ninguém tinha entrado. A única janela estava fechada... Talvez a sua cadeira que arrastou? Ele não estava maluco. Caminhou para o caixão. 
“Ohh, sim” zombou. “Só faltava ao morto falar-lar-lar.” As últimas sílabas flutuaram da boca pela sala vazia. “Não falavas vivo e ias agora começar-ar-ar?”  
O pai continuava com a mesma expressão, com aquele sorriso que agora parecia-lhe de gozo. 
“Eras um egoísta de merda-da-da. Davas tudo ao mundo, mas cagavas em casa-sa-sa. Esperámos sempre por ti-ti-ti. Para jantar, para o fim-de-semana, para as férias, para termos uma vida-da-da. E agora bazas-zas-zas!” 
Pôs-se a andar de trás e para a frente, a esfregar a careca durante o solilóquio. A cavar um buraco na sala. 
“Também eras assim para a outra família-ia-ia?” 
“Oh, desculpa... Não era para saber-er-er?” E travou em frente ao caixão. “Deviam falar mais baixo em casa-sa-sa!” O pai continuava a sorrir. O filho corria por várias emoções sem conseguir agarrar uma. 
“O Leandro está perturbado-do-do. O Leandro tem dificuldades em controlar as suas emoções-ões-ões. O Leandro precisa de acompanhamento psicológico-co-co!” Agarra nas costas de uma cadeira. 
“O Leandro precisa é que o pai não ande a foder por aí-í-í!” Berrou. E puxou da cadeira contra a do lado, atirando mais duas ao chão. 

O peito do rapaz descia e subia cada vez mais rápido; a respiração custava-lhe, parecia um peixe a morrer em terra; a adrenalina corria-lhe pelas veias e controlava-o como uma marioneta; e os olhos do rapaz bem abertos tentavam focar coisas para além daquele plano material. O morto ria-se dele. 
“Sabes o que seria engraçado-do-do? Se viessem hoje-je-je. Adorava conhecer o meu irmão-mão-mão...” Gotas de granizo escorriam-lhe pela testa como se o coração se estivesse a preparar para parar. Plantou-se firme no chão de tijoleira.  

Voltou-se para a porta. Continuava fechada. 
“Vai-te lá embora-ra-ra. Eu tomo conta da MINHA família-ia-ia. Xau-au-au.” 
E quando se aproximou para se despedir, o pai tinha as mãos sobre a barriga, com os olhos fechados e perdidos numa gargalhada. 
“Filho da puta-ta-ta!” E a perna saltou do chão contra a lateral do caixão que sacudiu no suporte – e tombou, com metade do corpo do pai a escorrer pela abertura. 
O eco da pancada varreu a sala e uma onda de pânico afogou-o. Correu para o morto e tentou levantar o caixão. O pai virou-se para a frente e escorregou contra o peito do filho. Frio! E a cara estava húmida, a escorrer involuntariamente. E o rapaz soluçava compulsivamente e os urros de qualquer coisa dentro dele não o deixaram ouvir os passos lá fora ou a maçaneta a girar. 

Era demasiado tarde. Demasiado tarde para conversarem. Demasiado tarde para um pai ajudar o filho, mas de uma maneira retorcida e irónica, finalmente teve aquele abraço que sempre procurou e nunca teve. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 11 | Exaustor

Diogo 
Mariana 
Seixal 
Dia seguinte - Início da tarde 


Uma pessoa mora na Margem Sul e pensa que até é fácil visitar as outras cidades. Ir do Montijo ao Seixal? Ou a Almada? Nah. Ter um autocarro para o Barreiro já é uma sorte! Então, para ir ter com a Mariana ao Seixal, o Diogo apanhou um autocarro até ao barco, o barco até Lisboa e outro barco para trás. 
Depois era apanhar boleia. O carro já o esperava, com uma Mariana de cabelo húmido, óculos escuros a esconderem a cara, jeans e a t-shirt certa dos The National. Assim que o descobriu na multidão, acenou uma vez e sentou-se. Ele entrou e largaram dali. 
O rádio estava ligado ao telemóvel dela, agora com bateria, e tocava a banda da t-shirt. Tocava a Abel, ouviram em silêncio e ela sacudia a cabeça ao sabor da letra. Acabou, ele tentou enfiar alguma conversa pelo meio, mas sem sucesso. Ouviram o resto das músicas, com ele a olhar lá para fora, até chegarem durante a quarta. Pararam junto a uma vivenda de três andares, à beira da estrada. Havia prédios no outro lado da estrada e toda uma civilização, mas aqui – neste lado, havia só a vivenda branca. Nada na porta ou nas janelas, um Citroen Berlingo parado e uma caixa de correio grande. A Mariana deixou o carro junto ao Berlingo e atirou a porta com força, sem produzir qualquer ruido. Já a porta do Diogo fechou normalmente. 
Deve ser a casa da avó, pensou. Ou um lar. Tirou das chaves que não tilintaram e enfiou-as na pequena ranhura, mas em vez de as rodar, a porta foi puxada para dentro para revelar uma negra alta, cabelo penteado numa poumpadour, bela, com um olhar fulminante na direcção do rapaz. Vestia uma daquelas batas que as senhoras usam nas limpezas ou para espreitarem à janela. Sugou a Mariana num abraço mimoso, mas sem tirar os olhos do Diogo. 
“Mari! E tu deves ser o Leandro?” Perguntou a mulher que se apresentou como Bonna. Bonna Fide. Nome artístico, nome real: Laurinda. 
“Diogo.” Corrigiu. 
“Entrem, entrem.” 
A Mariana deu corda aos sapatos e deixou-os para trás. 
“Alto.” A Bonna barrou a entrada ao Diogo. “Controla as mãos e esses olhinhos." Chamou a Mariana: “Contaste-lhe alguma coisa?” Esta sacudiu a cabeça e desapareceu para a cozinha. 
“Óptimo. Bem-vindo ao centro de estudos da avó Quicas. Estudamos e trabalhamos durante o dia e... Estudamos e trabalhamos durante a noite.” Piscou-lhe um olho. De facto, quando desviou a atenção daquele mulherão de voz forte, reparou noutras quatro pessoas na sala. Três mulheres e um homem: uma loirinha que não parecia ser portuguesa escrevia num caderno e os restantes estavam espalhados nos sofás com as caras enfiadas em livros. Até agora, a história batia certo. Seguiu a Bonna até à cozinha, cruzando-se com os residentes e se havia algo em comum é que eram espécimes lindos! Tanto eles como elas. 

Na cozinha, a Mariana discutia com uma senhora bonacheirona, encostada à bancada. Deduziu que discutiam pela violência das mãos, pela velocidade com que alternavam os símbolos da linguagem gestual e pela dureza do olhar. 
Quando o rapaz entrou com a Bonna, a senhora disparou com os olhos. 
“Tu! Nem sei quem és, mas andas a meter-lhe macacos na cabeça e depois dá nisto!” E ele estava tão parvo que nem sabia onde se havia de esconder, senão atrás da Bonna. A Mariana veio rapidamente ao resgate dele, dizendo coisas que ele não conseguia ler. Era possível que a Bonna entendesse, mas não parecia preocupada, só em matar a sede. 
A senhora suspirou, abrandou e, mais calma, apresentou-se: era a Dona Francisca, mais conhecida por Quicas. A voz continuava zangada, mas recolheu as armas e voltou à bancada, e à panela ao lume. Em cima estava uma placa de madeira, cenouras cortadas e outros legumes à espera. Continuou a cortar e a despejar na panela. Repetia quando enchia a tábua. O cheiro a refugado estava a dar-lhe uma fome... 
A Mariana sentou-se e fez sinal ao Diogo para se juntar. 
“O que disseram?” Perguntou. 
“Perguntou quem conduzia o outro carro.” Quem respondeu foi a Bonna. 
“OK?” 
“Vai resolver alguma coisa? Trazer os pais dela de volta? A minha filha de volta?” Desta vez foi a Dona Francisca que raspava os restos da tábua para dentro da panela. Baixou o lume e tapou-a. 
“Pode ajudá-la a recuperar a voz” alvitrou. “Ou a ter paz.” 
“Ela não perdeu a voz. Perdeu todo o som” corrigiu a avó. A Bonna levou o copo de água para junto da Mariana, 
“Nem um pio.” Comentou e passou-lhe o copo que pousou na mesa sem se ouvir na madeira. 
“Então? E quem foi?” O Diogo olhava de uma mulher para a outra. 
“Mas o que te interessa a ti?” A senhora levantou a voz. 
“Porque eu fui arrastado pela sua neta muda!” Oh, como as pernas lhe tremiam e como o tentava esconder. “E porque sei o que é ter a cabeça tão desfeita. Hoje não fala, e amanhã?” A Mariana fitou-o. 
"E ela não precisava de mim para isto.” Refugiou-se no copo de água. “Só que a ideia já estava na cabeça há muito tempo. Não entendo, que mal tem? Se não ajudar, amanhã é outro dia. Se ajudar, óptimo!” Puxou-se da água para a senhora. 

As mãos da Mariana disseram qualquer coisa que a avó respondeu. Foram gestos lentos e suaves, a avó encerrou os olhos como se estivesse a pensar. 
“Então? Quem era o outro condutor?” A Quicas suspirou, regressou à panela, mexeu com a colher de pau e deitou água lá para dentro com um caldo. Voltou a tapar e estudou a parede. Também ela usava a típica bata que parecia grande de mais para ela. 
“Não houve outro condutor” confessou. “Desculpa, filha.” A neta olhou-a com holofotes em vez de olhos. “Estavam a vir de um jantar e tinham bebido. O teu pai adormeceu a conduzir e bateram contra um poste.” 

E aquela informação - aquele plot twist, ou reviravolta, apenas era novidade para os que estavam sentados à mesa. A avó, com as mãos no bolso da bata, tinha aberto a sua caixa de Pandora. A Bonna resgatou o copo da mesa e acabou com ele, num canto da cozinha. Mesmo com o lume aceso, o ambiente tinha congelado. 
“Não o culpo, filha. Tinham bebido os dois e podia ser a minha Maria a conduzir. Irresponsáveis!, sim, mas não podia viver com – com este rancor dentro de mim. Já basta o que te fiz...” 
A Bonna ainda lá estava. De certa maneira cúmplice da avó e a coluna para a senhora se aguentar. 
“Ai, nossa Senhora. Perdoa-me, mas ele implorou-me segredo, Mariana.” 
Ele... A senhora que agora parecia mais velha engoliu um balde de ar e a Bonna aproximou-se dela, dando-lhe o braço para uma força extra. 
“Ele não morreu. Foi preso. Saiu... A última vez que falámos, estava a viver em Tomar.” 

Rapariga e rapaz. Ambos mudos à mesa. Sabem aquele tinido que temos depois dos concertos? Era tudo o que ouviam, mas em vez de um tiiii irritante, ouviam o exaustor. Esteve sempre ligado sequer?, mas lá estava ele a trabalhar, a sugar os fantasmas da panela – e da sala.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 10 | Empata

Cátia 
Augusto 
Entroncamento 
Noite 

O Augusto quis descer no Entroncamento para espreitar um restaurante perto da estação. A Cátia espreitou os horários da CP e decidiu acompanhar o velho na sua jornada pelo melhor bitoque. Houve tempo, de Nelas ao Entroncamento, para deixá-la ao corrente da missão. Ela ponderou um bocado e comentou que parecia um daqueles filmes de domingo, que vemos enrolados no outono, com uma chávena fumegante. E ele não sabia se tinha sido um elogio ou um insulto... 

Às tantas, a miúda já estava a sugerir bons tascos na Terceira. Era bem possível que o épico passasse por lá, e mais sítios para comer e ler poesia gastronómica não matavam. 
“Já provaste alcatra?” Sugeriu. 
“Claro! Divinal!” respondeu satisfeito. 

Durante a viagem, quando pensou mais um bocadito, reparou que o enredo tinha alguns plot holes, ou lacunas, disse-lhe. Ele estava a fazer aquilo pelo amigo, sim; que estava a falecer, certo; não faria sentido estar com ele nos últimos momentos e - depois - continuar? É complicado. Como? Foi uma promessa. Ela insistiu, mas a boca dele não cedia. 
E assim acabaram no Entroncamento, quase nas primeiras horas do jantar que o Augusto gostava de comer cedo para desmoer. A rapariga não levantou objecções. 
Mas alguns locais partilhavam da mesma ideia de comer cedo e o Bandulho já estava a encher. O empregado separou uma mesa para os dois, esticou uma toalha de papel, deixou os pratos e os talheres. Voltou com as entradas e deixou a carta. A Cátia também recusou a dela, queria o mesmo que o “pai”. E uma imperial. O “pai” ficou-se por uma água das pedras. Se a vida é um palco, aqueles os dois desempenhavam os papéis de pai e de filha, ideia dela, atenção. O velho suspirou, mas sorriu por dentro. 
“Vou fumar.” Levantou-se e deslizou para o fresco. Ela ficou tamborilou a mesa e entreteve-se a acompanhar as notícias, a bebericar a cerveja. Parece que apanharam o vigilante que andava a matar os padres novos. E era o maluco da aldeia! Das poucas coisas que reteve, foi a braguilha aberta quando o enfiaram no carro. Coitado.

A comida aterrou na mesa e o Augusto ainda na rua. Tentou espreitá-lo, mas não o viu pela janela. Havia um corredor de fumadores a tapar a vista e nenhum era ele. Devia estar a confraternizar à volta do cigarrito e a mandar a sua passa. Não era algo que lhe despertasse grande interesse, mas também não queria que a comida arrefecesse. 
Lá apareceu à porta, com as mãos enfiadas no sobretudo e a flutuar por entre as mesas como um fantasma. Sentou-se em silêncio e afunilou a vista no prato. 
“Está tudo bem?” Arriscou. 
O está tudo bem da Cátia evaporou-se e como continuou a ser ignorada, também se meteu a comer. Levantava os olhos para o observar, mas a cara do velho estava escondida, com medo que a comida sumisse se deixasse de olhar. 
Passados minutos, as palavras isto está uma porcaria foram as primeiras desde que voltara da rua. “Deixaram passar o bispo pelo arroz, não bateram bem a carne e não deixaram o ovo estrelar.” 
“Augusto, o que se passa?” E não estava a falar da comida. Quer dizer, a boca dele estava, mas na sua cabeça estava a resmungar de outra coisa. 
“Nada. Come, pequena.” 
“Não estás bem.” 
“Não te preocupes.” 
Podia parar. Não o fez. Investiu. 
“Augusto. Augusto. Pai. Pai. Pai. Sabes que tenho um poder? Consigo sentir o que as pessoas sentem e topar quando me mentem. E tu, papá, tens as mãos amarelas.” 
O velho grunhiu... 
O empregado pairou pela mesa para saber se estava tudo bem. O Augusto nem respondeu, mas a filha acenou um sorriso. Alguém não ia receber a gorjeta. 
“Augusto, sabes o que é a empatia?” 
“O que é a empatia, filha? 
“OK, estás a ver esta sala cheia de homens?” O homem olhou em volta e constatou o facto. “Se berrasse agora olhavam todos para cá.” 
“Não o faças.” 
“Calma. Depois fazia esta experiência: chegava ao pé de ti e dava-te um valente chuto nos tomates. 
“Não o faças...” 
“Calma! Tu irias cair redondo nesse chão e todos os homens na sala também iriam sentir o chuto nos seus tomates. É uma transmissão de sensações ou emoções!” Afastou as mãos da cabeça num gesto de explosão. 
“Queres experimentar? Sou muito boa nisto!” 
“Não obrigado, já me basta a sola da carne.” 
“Então conta-me.” 
Bufou, “Ligaram-me de Lisboa.” Ela pousou os talheres. “O meu amigo morreu esta tarde.” 
“Que vais fazer?” Disse meio a tremer, mas a enrijecer por dentro. 
“Vou jantar. Vou para Lisboa e amanhã vou ao velório.” 
“Vou contigo.” 
“Cátia...” 
“Homessa, decidi e está decidido. Vamos acabar de comer esta poia e apanhar o comboio.” E ele sabia que não ia vencer aquilo. Na verdade, ele agradecia a companhia, o teatro e alguém que o ouvisse. 

Abraçaram o silêncio da confusão do restaurante e continuaram a lutar com a carne. Se havia algo bom naquele quadro eram os picles. E, antes de saírem, ela rematou com um doce da casa e ele um café com cheiro, enquanto anotava no bloquinho: 

Não sejas rezingão /E mostra gratidão / Ao amigo que vem com dois copos na mão

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