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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Pintar o Céu de Fogo

O fim do fim



Diz-se que nos segundos que antecedem a morte, revemos a vida por inteiro. Um filme muito curto de uma vida.
Depois é passado o julgamento que decidirá o destino do descanso eterno: o Céu ou o Inferno. Neste momento, ele tinha a perfeita consciência de que a sua vida havia sido uma merda. Uma grande merda.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

The Imitation of Life?

 ...or how to get a zero!

Photo by Adventiciis


So, we all know life imitates art and sometimes art do imitate life. I call this the Imitation of Life! 

Have you wondered or woken up one day to find yourself in the middle of your life? Like a movie opening and the world is already established, characters already exist and all. Their plot is already written out and no matter how - no, scratch that. They can pull a Truman Show and quit their story lines. 

What about us? We can't remember how our movie began, but the world was already plotted out. Populated by extras, supporting characters and us, the main character. 
We follow our story, but is it set in stone? This script - this badly non-edited script. We can try to ad lib it, we can try to pull a Truman, but in the end... in the end we must follow it through. 

There is one aspect that I wished life would imitate art: sound track. 
Like that first kiss, first time making love, first time getting into a fight, the death of a loved one, that inspirational fuck yeah riffs of a guitar, or the complex staccato of the rain while we reflect on our stupid mistakes. 
Yeah, mistakes. We have only one shot at this little thing called life. No cuts and another take. One shot. One opportunity. Think about this for a second, will you? When you paint, the first one is always the original, the one-million-dollar Louvre painting. The other are replicas. 
In a way, art only gets one shot at being art. The other are fakes. We aren't even allowed to have fakes! Or do we? 

What if anytime we take a left turn, there's a copy of us - in an alternate universe that goes right. A deleted scene kind of way. But we'll never see it. 
Although, if you pay close attention to the little voice inside your head, the Director/Conscience, sometimes it tells you: dude, go left, go left. That Jiminy Cricket inside of you. 
And sometimes you do see the scene like you played it out before. The failed negative of your past takes. Yeah, yeah, it could be a deja vu as well. it shouldn't happen! Why did it happen? Your guess is as good as mine. So, pardon my rambling. Where am I getting to? Precisely. You can't even remember the beginning of this monologue! But to sum it up: art; life; it's all the same. No imitation here. One is a face of the same coin. Which means, you are a piece of art. And you are beautiful. And unique.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Writober #31 - In Memoriam

Desconhecido

"Ainda não ouves as vozes?" Apontou um mercenário para as árvores. O companheiro negou e apontou para a cabeça.
"Implantes. Bloqueiam tudo, até árvores" e troçou. O primeiro retomou a patrulha, a arma apontada para os troncos, para as caras nos troncos. E as caras tinham bocas.
Há dias que ali estavam e poucos ouviam as vozes. Estavam quase a enlouquecer quando subtraíram aqueles com implantes e que não ouviam. O mercenário deu a volta e voltou a andar para o meio da clareira, onde a mulher estava ajoelhada e uma figura espectral caminhava à sua volta. Engravatado e penteado, a IA da OxyGen conversava com Gilass e gesticulava dramaticamente
"Que achas que estão a dizer?" perguntou o guarda com o implante.
"O mesmo de sempre: ele quer comê-la, mas não tem o material." Riram-se e separaram-se para retomar a guarda.

Os focos das armas pareciam pirilampos aos olhos de Gilass. Tento alcançar um, mas a mão fechou-se em nada. Tinha fome, sede, vontade de ir à casa de banho, cansada. Os pés deixaram de sentir e o chão aproximou-se rápido. Caiu de cara e ficou deitada alguns minutos. Nenhum guarda tinha ordem de ajudar. Ergueu-se a esforço e ficou de joelhos a salivar terra para não vomitar do choque.
Olhou para as árvores, para as suas caras e concentrou-se no que diziam as vozes. A cabeça estava cheia de conversas cruzadas, segredos, confissões e agressões. As vozes soavam ao restolhar das folhas ao vento, ao estalar dos ramos, ao vergar do tronco e tudo isto na sua voz.

Todos desapareceram por tua causa, sabes disso? O Persimon e a Centaur. Estavam todos bem até chegares. O mundo estava bem até chegares. A tua mãe e o teu pai eram felizes até nasceres e tu mataste a tua mãe quando nasceste!

Gilass gritava para afastar as vozes, mas elas carregavam com mais força.
"Tu sabes que não as ouço, Gilass. O que estão a dizer?" Um deles não era muito paciente. A IA passava por ela, voltava e chamava-a. "Lembra-te!" gritava uma e outra vez! Ela estava a lembrar-se, mas não o que ele queria. O momento em que os dois trocaram carícias extrapoladas. Ela apenas a fazer o seu trabalho e ele a manipular o sistema para fingir um sentimento. Ele queria mais, ele queria sentir a sério! E de uma certa maneira, ele estava a sentir o desespero da humana ajoelhada no chão. Todos os dias vinham para a clareira para nada!
"Concentra-te" pedia entre carícias falsas e ordens. "Por nós, Gilass". E as vozes continuavam a desobedecer.
"Trouxe-te ao planeta das memórias, não me faças essa desfeita..."

O teu pai desprezava-te. Lembras-te daquele dia, sabes do que estou a falar? Ele pôs um lugar na mesa, serviu o jantar e foi-se embora com uma boa noite. Comeste, levantas-te a mesa e arrumaste a cozinha. Ficaste à espera dele na sala e ele nunca apareceu. Dói, não dói? Imagina a dor do teu pai quando mataste o amor da vida dele.

A IA ajoelhou-se e segredou-lhe ao ouvido. Pareceu querido, pareceu enternecedor, mas só lhe disse que era uma falhada. Que nem conseguia invocar uma memória. Ele também sentia o desespero por osmose, e a raiva e toda a angústia. Ele nem sabia, nem se apercebia que estava a sentir, apenas o que não queria. Esticou o braço e deixou cair a palma da mão na face da Gilass, mas a mão passou de um lado ao outro. A humana encarou-o a bufar.

Lembras-te quando gozaram contigo pela tua roupa? Nem a tua amiga Zoe te safou. Foi ela a começar. Cabra. Só porque o Marcoo gostava de ti. Sim, ele gostou de ti, mas o suficiente para te levar para a cama. Só dói a primeira vez, não é? Mentiu-te. Doeu-te a segunda, a terceira, mas depois deixou. Ficaste dormente nos próximos. Nas próximas. Ninguém te queria. Tu sabes, não sabes? Tu percebeste. Tentaste fazer uma coisa, mas nem isso conseguiste. É de cima para baixo, não dos lados... Triste.

Estava a chorar, a soluçar baba e ranho. Todo o passado em avalanche. Só tinha de pensar em prazer. Nas coisas boas. Por que só escorria aquilo?! Como se a caixa de Pandora estivesse aberta e todos os seus demónios a dilacerassem.
A IA não era misericordiosa, não sabia o que era. Apenas andava sem perder a composição e suspirava exasperada, sentido coisas novas, mas erradas. E vira-se para a humana para a chutar, mas só acerta no ar.
"Miserável! Aquela noite no escritório. Teclaste. Eu dei-te um choque. Tu deste outro. Pensa!"
"D-d-dor" soluçou a outra entre golfadas de ar.
O céu acendeu-se por segundos e foi como uma mensagem divina. Viu onde estava, o emanante e quantos guardas estavam ali. Ouviu disparos ao longe e botas apressadas a correr por ela. A IA correu para o limite da projecção e apontou para a orla das árvores. Gilass rastejou para fora.

Houve um momento bom na tua vida. Saíste da casa onde estavas e deixaste as pessoas em paz. Ficaram tão aliviadas. Arranjaste a tua casa e um emprego, mas não! Estragaste tudo ao cagar na mão que te alimentava. Ingrata.

E ela rastejava, um braço depois do outro. Abocanhava mais ar e lançava uma mão ao chão, prendendo-se pelas unhas. A IA lançou-se à fugitiva, mas não pôde fazer nada. Gritou por um guarda que a puxou pelo cabelo e levantou-a.
"Onde ias? Não acabámos. Tu, bate-lhe" ordenou ao guarda que obedeceu prontamente. Gilass dobrou-se e caiu no chão. E as vozes cobriram-na...

Fraca. Débil. Inútil. Chama os teus amigos. Não podes. Estão mortos.

O detalhe mais engraçado é que as vozes não se riam, não tinham escárnio. Apenas diziam como se lessem uma folha de papel. Como se tivessem todo o discurso ensaiado em colectivo. E era tudo na voz de Gilass.

Gilass? Tens vergonha do nome da tua mãe? Foi a única coisa que te deixou e atiras para o lixo! Nem o teu pai te chamava pelo nome. Sabes onde ele está? Feliz.

Mais disparos e o guarda tombou ao lado. Cara a cara e viu-lhe o esgar de surpresa de quando a bala lhe perfurou o olho. O olho. A IA gritou e duas balas trespassaram-lhe o corpo sem efeito. Botas a correr e disparos. Gilass apalpou-se. Estava viva. Apalpou o chão que humedecia do sangue e achou o homem, desceu e encontrou o coldre de onde puxou uma pistola. Apoiou-se no cadáver e cambaleou em frente, arma no ar e a disparar ao calhas contra as árvores. Louca e cega de raiva a calar as vozes que continuavam e continuavam e continuava a humilhá-la, a embaraça-la.

Estavas a pedi-las quando te bateram. E quando te veio o período nas aulas e todos os rapazes se riram? Apenas uma rapariga te ajudou e onde está? Longe.

Disparou e pedaços de madeira e seiva saltaram. A última bala entrou na câmara.

Pensa bem, não cometas o mesmo erro.

Enfiou o cano na boca e encostou o dedo ao gatilho.
"Gilass, não!" Quando todos os demónios saem da caixa, a última a sair é a esperança. Bonna correu na direcção da mulher. "Deixa a arma, querida. Já acabou. Vamos embora."
A outra sacudia a cabeça, cabelo suado e olhos inchados de chorar. Cara vermelha, assustada e desesperada.
"N-não consigo, Bo-bonna. A m-minha vida foi foi uma merda." Tremia, a arma junto à bochecha. "As-as árvores di-disseram, não as ouves? As me-mórias."
"Gilass, querida, as árvores não falam. Garanto-te. É tudo ele." Apontou para a IA especada junto ao emanante.
"E eu, eu m-matei toda a gente. Os teus ami-gos. A ti..."
"Não, foi ele. Foi só ele. E eu estou aqui, vês?" Abraçou-se a si mesma. "Anda para casa."
"Eu não tenho casa!" Colocou o cano na boca, inclinou ligeiramente para a direita e no último olhar despediu-se. O dedo desceu e a explosão morreu na clareira. A cabeça chicoteou para trás e tombou para a frente. Gilass voltou a cair de joelhos e deslizou como se tivesse adormecido a meio de algo importante. E se estivesse a dormir, dormia em silêncio. Bonna atirou a arma para o lado e correu para a companheira, apertou-a nos braços e uivou de dor. Embalou-a tantas vezes que perdeu a contagem e falou-lhe, contou-lhe o que tinha acontecido. Tudo estava bem. Estava tudo bem. A IA Ding e Bat tomou conta do resto. Sinalizou a clareia e vários piratas escorreram pelas árvores. Destruíram o emanante da OxyGen e revistaram os corpos tombados. Quando procuraram pela Bonna, já tinha sumido.

*

O céu caiu sobre Mnemosine. E das paredes de chamas que consumiam o mundo, duas figuras surgiram: uma erguida, a embalar a outra nos braços. E no jogo de sombras e luz, avançaram escondidas dos outros que fugiam do fogo.
Os gritos de dor dos ficavam para trás abafavam a marcha silenciosa das figuras. Atravessaram para a destruição, deixaram tudo para trás e desapareceram de vista. Para alguns foram uma miragem. Na urgência foram uma ilusão, apenas o fogo era real e esse levou tudo.
A mulher carregava a outra nos braços. Entraram na escuridão, deixaram os corpos sem vida dos companheiros para trás e chegaram à naveta. Em breve estariam fora dali.
Deitou  o corpo da companheira nos bancos de trás, cobriu-a com duas mantas térmicas e prendeu-as bem. Ajustou os cintos para segurar o corpo e sentou-se aos comandos. A IA retornou aos terminais da naveta e estabeleceu uma nova rota. Esta acordou, com o murmúrio baixo do motor a preencher o vazio. Afastaram-se do chão e subiram em direcção à atmosfera.

*

Dois cruzadores da OxyGen rebocavam a Nineteen Eighty Four. A Armada Real de Xilos também lá estava e o cenário era outro. Alguém estava a querer ligar. A voz do Rei Johanes cumprimentou-a solenemente e, como Capitã, actualizou-a da situação: a OxyGen enviou dois cruzadores para recuperar a IA descontrolada; todos seriam compensados e os mercenários capturadas seriam levados à justiça. Ela perguntou por Suzako. O Rei confirmou o óbito e o último acto de valentia ao eliminar o Capitão da Heracles. Ela estava orgulhosa do amigo, mas a voz não denunciou a emoção.
O Rei perguntou aonde ia, ela não sabia ainda. A biblioteca de Xilos precisava da sua IA, comentou. Esperava-a em breve para a devolver e que teria sempre um abrigo em Xilos, na sua residência. O Rei despediu-se e Bonna fechou o canal.
A naveta de Bonna Fide saltou para local incerto e nunca mais foi vista.

If they say
Who cares if one more light goes out?
In a sky of a million stars
It flickers, flickers
Who cares when someone's time runs out?
If a moment is all we are
We're quicker, quicker
Who cares if one more light goes out?
Well I do

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

WRITOBER #30 - Tears in Rain

Desconhecido

Deitou  o corpo da companheira nos bancos de trás, cobriu-a com duas mantas térmicas e prendeu-as bem. Ajustou os cintos para segurar o corpo e sentou-se aos comandos. A IA retornou aos terminais da naveta e estabeleceu uma nova rota. Esta acordou, com o murmúrio baixo do motor a preencher o vazio. Afastaram-se do chão e subiram em direcção à atmosfera.

*

O único rasto de comunicação da Nineteen Eighty Four foi uma enorme transferência de créditos para a força mercenária dispersa em frente à Chiron, mas muitas mais apareceram como se estivessem à espera que as contas aumentassem.
Os piratas também responderam. A Minotaur, a Medusa, a Athos, a Perseus, a Arachne e todas as espaçonaves piratas saltaram atrás da Chiron, abertas em triângulo, como esperassem o momento certo para uma entrada com pompa e circunsância. O fim da Heracles tinha sido apenas o começo. Estavam a atacar, mas a atacar ferozmente como um animal raivoso, mas sem qualquer coordenação.
A Chiron continuava sob fogo cerrado que só quebrou com a chegada dos outros piratas. Os escudos estavam a meio e as armas carregadas. Não foram dadas ordens de ataque, cada um escolheu o seu alvo e soltaram barragens de fogo como se não houvesse amanhã. Eram piratas, no fim de contas.
Os mercenários caíam que nem tordos com explosões fantásticas e fugazes, o poder do dinheiro não era assim tão forte como pensavam, mas não eram os fracotes da zona. Do lado dos piratas também houve baixas porque o poder da aventura e da liberdade não eram o suficiente para equipar e armar uma nave. A Achilles foi a primeira a tombar com um golpe baixo, a Medusa foi rodeada por várias e não conseguiu escapar. A Minotaur ficou sem armas e bateu em retirada.
Parecia que nunca mais acabavam. Duas espaçonaves mercenárias, a The Winner Takes it All e a Super Trouper, dispararam em todas as direcções e eram responsáveis pela maior parte dos danos. Para piorar a situação, várias navetas saíram disparadas das duas espaçonaves e cobriram a distância entre os mercenários e os piratas. A Arachne imitou-os e lançou várias navetas de ataque para responder. A Athos respondia a cada uma com fogo rápido e a Chiron dividia-se entre repelir as ferroadas das navetas e ganhar o braço de ferro contra a Tears in Heaven e a Wild World.

Momoa sentou-se a estudar os vários teatros de operações. Todas as naves estavam concentradas em combate, excepto uma, a Nineteen Eighty Four que continuava distante a observar. Ela era a mais assustadora de todas porque ninguém sabia o que raio estava ali a fazer ou a armar. Não disparava nem respondia quando algum disparo perdido a encontrava. Mas o Capitão sabia que ela era quem monopolizava a situação. Tanto ali em cima como no planeta. Acabar com ela, acabava com o derrame de sangue. Piratas, mercenários, Guilass.
E foi então que decidiu controlar o fogo e abrir caminho até ao cruzador da OxyGen. Cada disparo acertava no alvo sem surtir efeito, mas se insistisse iria conseguir. As naves mercenárias viravam-se para ele como se alertadas pela outra e avançavam para a Chiron, disparavam e faziam de tudo para a impedir. Os companheiros piratas varriam os mercenários para deixar a Chiron à vontade, mas outros surgiam para lhes roubar a atenção.
Por fim, os disparos da Chiron furaram o escudo da Ninetheen Eighty Four que, pela primeira vez desde que o combate começara, respondeu com fogo. A potência do disparo era mais forte do que alguma vez imaginaram. Um único disparo abriu uma linha recta até à Chiron e obliterou uma nave pirata, um esquadrão mercenário e trespassou a Chiron.
O Capitão tombou pelo chão com o choque. Os alarmes berravam na ponte e pelas entranhas da nave. Não iriam aguentar um segundo disparo directo. A ordem tinha sido dada para evacuarem e serem apanhados pelos outros piratas que também tinham ordens para desaparecer dali. A vantagem numérica não estava do lado deles.
O Capitão Momoa seria o último a abandonar a Chiron, mas antes disso tentou ligar aos companheiros em Mnemosine. E quando ninguém respondeu, gravou a seguinte mensagem que enviou para todos:

Durante muito tempo e muitas aventuras, as notícias da minha morte foram grandemente exageradas e mitificadas, mas quer-me parecer que agora não há maneira de escapar. Portanto aqui estamos, huh? Os últimos tristes da Centaur. Espero que estejam bem e que tenham mais sucesso do que eu. Não vou sair daqui vivo. Pena. Se sair agora, vocês deixam de ter um caminho seguro para regressar. O nome Momoa e os piratas da Centaur serão lembrados para todo o sempre! Metam os olhos nisto, pessoal, pode ser que aprendam alguma coisa nova.
Se não nos virmos mais, deixo tudo a vocês! Bonna, darás uma boa capitã, escolhe uma família e continuem! Suzako, és o melhor piloto que alguma vez tive a honra de ter a bordo, mas a tua música é uma merda, não desistas.
O universo é muito pequeno para nós, até qualquer dia, piratas do espaço.

O capitão cortou as comunicações, fechou os canais e programou uma nova rota: directa ao corpo do cruzador da OxyGen. Ignorou o fogo dos mercenários, aumentou a potência dos motores e a Chiron investiu pela última vez. Disparava automaticamente em todas as direcções, as navetas mercenárias caíam como moscas ou arrastava outras consigo. As outras mantinham a distância, mas continuavam a disparar. A Nineteen Eighty Four abriu fogo pela segunda vez para impedir a Chiron, mas sem sucesso. O fogo lambia a carcaça da Chiron e sumia.
O Embaixador e Capitão Momoa sempre teve uma queda para o dramático, essa era o ofício dele: o teatro. E lá estava ele, na ponte. Alto e poderoso, pernas plantadas no chão, braços arqueados e mãos na cintura e cabeça erguida em frente. Havia um sorriso de cabrão nos lábios e todos os dentes à vista. Fez uma vénia e agradeceu a todos.
O último acto da Chiron seria levar a Nineteen Eighty Four consigo e teria conseguido se a Under Pressure não se tivesse metido à frente. Ainda assim, não contaram com um trunfo do Momoa: o sistema de autodestruição, o plot twist de todo o enredo.
Todas as espaçonaves e navetas na zona foram varridas pela onda de choque que as atirou umas contra as outras. As explosões foram vistas desde o planeta. As mais próximas levaram com a explosão, destroços e estilhaços e algumas não resistiram. O cruzador da OxyGen foi atingido em segunda mão por partes da Under Pressure. Algumas naves piratas também tinham sido apanhadas, mas sem grandes danos a registar. Aproveitaram a confusão para reforçar o ataque e apanhar o inimigo desprevenido.

Partes dos cadáveres das espaçonaves choviam sobre Mnemosine. A entrada na atmosfera era algo de incrível com cada pedaço a desintegrar-se em esferas ardentes que desapareciam no solo. O planeta tremia como se rasgasse ao meio, como se o inferno abrisse caminho até cima. O céu estava coberto de vermelhos, laranjas e amarelos. Uma manta de fogo e destruição cobria Mnemosine. A metáfora não estava longe da verdade, mas foi tudo tão rápido para o pirata músico tombado no chão negro; para a companheira que tinha eliminado uma patrulha de mercenários. Ela foi a única a ouvir a mensagem ali e porque o universo chorava em tons de sangue, ela achou que não fossem precisas as lágrimas dela. Ordenou aos restantes companheiros que a seguissem e seguiram em frente. Ela era a nova Capitã e até encontrar a companheira, era a última da Centaur.


domingo, 29 de outubro de 2017

WRITOBER #29 - Fission Mailed

Mshindo9



A mulher carregava a outra nos braços. Entraram na escuridão, deixaram os corpos sem vida dos companheiros para trás e chegaram à naveta. Em breve estariam fora dali.

*

"Hey, hey, hey, Bonna. Bonna Fide. Leve-me consigo, por favor" soou a IA Ding e Bat da biblioteca que os tinha acompanhado no resgate.
"Para quê?" A pirata estacou frente a um terminal.
"Vim convosco para aprender, para conhecer este novo planeta. Perder a oportunidade de descer e aprender em primeira mão é um erro crasso. Meta-me num emanante e nem dará por mim."
Vinte bons homens e mulheres separaram-se em duas navetas. Piratas e voluntários de Xilos equipados para atacar no solo, Suzako ia a pilotar uma delas. Tinha os auscultadores ao pescoço a murmurar as suas músicas e até ele guardava uma arma. Bonna ia na outra, armada até aos pés e com a AI alojada na cintura. Pouco depois estavam a sair da Chiron em direcção ao planeta.
Uma breve análise mostrou poucos sítios para aterrar, mas havia um. A IA informou Bonna que era o melhor sítio para aterrar. Havia várias navetas em baixo, mas poucos alvos. Quando esta sugeriu outro sítio, a IA recusou. O solo daquele planeta era irregular e fora algumas áreas seguras, mas longe, estava coberto por alguma coisa que não conseguia identificar.
Os mercenários em terra dispararam assim que as navetas se aproximaram, mas a vantagem da altura não estava do lado deles. As navetas rodearam os alvos e não demorou muito até serem abatidos.
Saltaram ainda antes de tocarem no chão e correram em frente, para lá das navetas e dos corpos dos mercenários.
Era de noite e não conseguiam ver bem onde estavam, mas para além de pequenas construções pré-fabricadas, aquele terreno parecia que tinha visto um grande incêndio: árvores e chão negros como a noite mais escura. A IA sugeriu que não era natural, talvez aquele sítio era o melhor para aterrar porque foi preparado antes de chegarem, possivelmente pelos mercenários. Então, o que queimaram? Os focos das armas faziam um mau trabalho a iluminar para além da barreira de árvores carbonizadas. O cheiro, alguns repararam, era de carne queimada.
O céu iluminou-se num clarão e por momentos conseguiram ver onde estavam. Algumas barracas e uma floresta enorme que se prolongava para lá daquela clareira.
Guilass deixou três guardas nas navetas, com Suzako, dividiu três grupos e ordenou dois deles para inspeccionar as barracas. Seguiu com o último para dentro da floresta que não estava queimada, em direcção da última localização de Guilass.

A primeira vez que Suzako viu combate de perto até se safou muito bem. A adrenalina bateu e quando deu por si a arma estava-lhe na mão e era-lhe confortável. Isso aconteceu quando uma patrulha de mercenários saltou da orla da floresta, chamados pelos colegas abatidos. Os três soldados quase que foram apanhados de surpresa, mas defenderam-se. Uma foi baleada no ombro e sentou-se.
Os dois grupos de cinco de soldados nas barracas também entraram em combate. Os mercenários rodearam o campo e investiram de dois lados opostos, mas um deles estava mais vulnerável: o das navetas. Suzako atirou-se para o chão e rastejou por debaixo de uma naveta onde apanhou as pernas rápidas de vários mercenários que caíam com os disparos. O resto da equipa acabava o serviço. Rastejou para longe da sua naveta para repetir a estratégia. E foi quando o viu: Tieton. Ele não estava na Heracles. O Capitão pirata berrava ordens de comando, parecia desesperado e para lá de raivoso. Ele pode ver-lhe as expressões quando alguma coisa rebentava perto e rapidamente desaparecia. Isso podia jogar a seu favor e contra. Rastejou apenas ao som dos disparos, a controlar os movimentos de Tieton que olhava para o céu a berrar. Era a oportunidade perfeita para se aproximar e foi o que fez.
Aliados e adversários morriam dos dois lados e tiros voavam para cada lado e eles os dois ali. Tieton disparou e abateu alguém que Suzako não viu. Suzako encostou-se a um tronco negro, preparou a arma e aproveitou a luz de uma explosão para procurar o Capitão. Estava mesmo ao seu lado a disparar para um companheiro. Levantou-se e disparou duas vezes, o primeiro só chamou a atenção de Tieton e o segundo foi ao ombro.
O Capitão de Heracles nem o conhecia. Não sabia da sua música, do seu receio de combate, da sua indiferença e do seu coração bom. Ergueu a arma e disparou duas vezes sobre Suzako. Caiu de costas. Tieton avançou sobre ele a disparar, acertando mais dois no peito. O pirata músico cuspia sangue e vida, a música saía-lhe pelos auscultadores e o último beat que compôs foi de génio: Tieton cresceu sobre a sua cabeça e ia acabar com ele, mas Suzako foi mais rápido. O braço levantou a arma do chão, em direcção à cabeça do Capitão. Disparou uma vez. O outro tombou em cima do pirata. À volta deles, o combate continuava. Antes de expirar, Suzako assistiu à coisa mais bela e triste de todo o sempre: o céu iluminou-se como se fosse dia, como se as estrelas naquele céu tivessem passado a supernova, como se chorassem, mas não por ele. Não...

*

Bonna ouviu os disparos atrás de si, mas quando se preparou para regressar, a sua própria patrulha viu-se emboscada. Apenas esperava que o camarada tivesse mais sorte do que ela, pelo menos em vantagem numérica. Quanto ao resto, não podia fazer mais e tinha muito com se preocupar. A IA tentou falar consigo várias vezes, mas Bonna não estava para isso. Ignorou-a e ignorou a luz intermitente do comunicador. Todos pareciam querer falar consigo, mas ela não podia atender.
"Escrevam a porra de uma carta!" berrou enquanto disparou uma rajada na direcção das árvores. O céu cobriu-se de um manto laranja e parecia que estava a amanhecer no fim do mundo. Durou segundos, mas o suficiente para ela registar os inimigos.
E quando o combate terminou do lado dela já ninguém lhe ligava, mas a IA tinha uma gravação da Chiron...

sábado, 28 de outubro de 2017

WRITOBER #28 - You Can't Take The Sky From Me

Zachary Graves

O céu caiu sobre Mnemosine. E das paredes de chamas que consumiam o mundo, duas figuras surgiram: uma erguida, a embalar a outra nos braços. E no jogo de sombras e luz, avançaram escondidas dos outros que fugiam do fogo.
Os gritos de dor dos ficavam para trás abafavam a marcha silenciosa das figuras. Atravessaram para a destruição, deixaram tudo para trás e desapareceram de vista. Para alguns foram uma miragem. Na urgência foram uma ilusão, apenas o fogo era real e esse levou tudo.

*

Chiron, a nova espaçonave de Momoa, aproximou-se de Mnemosine para encontrar o esperado: A Heracles aguardava acima da atmosfera e, com ela, inúmeras espaçonaves mercenárias. O cruzador Nineteen Eighty Four também lá estava.
Que déjà vu, pensou Momoa. Bonna estava atrás a observar o cenário; Suzako estava na navegação. O Capitão sorriu a quem o viu. Desta vez tinha um plano, só esperava que funcionasse. Invocou os últimos elementos da Centaur até ele, formando um triângulo ali na ponte. Não fazia sentido ficarem todos juntos, portanto eis parte do plano: Bonna e Suzako iriam descer ao planeta, apanhar a Gilass e sair dali para fora. Assim que os tivessem, iriam saltar dali para fora. Esse era o plano principal.
O outro plano não foi partilhado com eles, apenas com o resto da tripulação. A mão direita enfaixada estava enfiada no bolso, com dedos a menos, mas com mais resolução. Inspirou fundo e olhou para os dois antes de os mandar equipar. A Bonna iria liderar uma equipa de ataque e Suzako iria voá-los para lá e para cá. Seria tal como antes. Não houve despedidas.
A nova espaçonave tinha sido disponibilizada pelo seu irmão e Momoa mudou-lhe logo o nome para algo mais adequado. Oficialmente Xilos não podia estar presente, as consequências seriam inimagináveis, mas uma tripulação composta por voluntários? Zero problemas. Todos queriam estar ali, muitos tinham amigos e família na Centaur e alguns apenas foram pela adrenalina.
A Chiron era mais avançada que a Centaur e o Capitão apenas teve o tempo da viagem para se ambientar aos novos brinquedos, mas estava confiante quando se aproximou do adversário que cobria o céu de Mnemosine.
Nenhuma linha de comunicação foi aberta com eles. A ordem para aumentar os escudos foi dada e uma pequena porção foi desviada para as armas. Havia demasiados alvos no mapa, portanto a Heracles foi a eleita. O capitão recebeu a mensagem que a naveta tinha saído da Chiron em direcção ao planeta. Agora ia começar.
Escudos no máximo. Armas a 70% porcento. Tal como na outra vez, a Heracles foi a primeira a abrir fogo. O escudo absorveu sem reduzir a potência e direccionou a energia para as armas que carregaram instantaneamente. A Chiron não disparou. A Heracles repetiu e foi absorvido. Momoa sorriu e deu a ordem para devolver fogo. Uma linha direita e concentrada percorreu o espaço entre as duas espaçonaves e a Heracles foi trespassada de um lado ao outro. O disparo focado penetrou o escudo, entrou pela ponte, percorreu as entranhas e saiu pelos motores. Uma explosão momentânea e escuridão. E outra. Nada. Mais uma. Assim sucessivamente. Alguém tentou comunicar, a Heracles. Desistiam. No ecrã via-se o medo e a aflição de quem comunicava. Momoa não o reconheceu, mas puxou da mão direita e mostrou-lhe o indicador que restava.
Disparam novamente e, agora sem escudo, a Heracles mostrou zero resistência. Era como se a outra espaçonave tivesse dois olhos negros no crânio. Estavam mortos no espaço. Explosão e nada. Explosão e nada. Podiam esticar a mão ao adversário e serem superiores, mas optaram por abrir mais um buraco. Deixou de haver sinais de vida na Heracles que começou a afundar para o planeta. Momoa sentou-se. Não esperava que fosse tão fácil..
E todas as espaçonaves mercenárias acordaram para a vida e abriram fogo na Chiron.
Finalmente, huh? Vamos a isso.
Os escudos continuavam a absorver o fogo e a direccionar para as armas, mas não iriam aguentar uma overdose...Só mais bocado.
A ponte tremia, conseguia sentir a tensão e a energia no ar. Todos olhavam para o Capitão e esperavam ordens. Ele também esperava. Sabiam pelo quê, mas até quando?
E então, o comunicador puxa dos auriculares e berra pela atenção do Capitão.
Chegaram! Vieram todos!
E a escuridão do espaço encheu-se de cor e formas com todos os piratas que responderam à chamada. Por favor ou por devoção, finalmente chegaram.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

WRITOBER #27 - Piscis Foderunt Conas

Natália Morais

A última colaboração surpresa! Admito que já tinha uma ideia do texto, mas tinha zero imagens para ele. Quando vi o trabalho final soube imediatamente como queria desenvolver o meu. Uma mente quebrada; o interior da mente. Um estado meditativo. E como nos aproximamos do final, quis viajar ao passado e como tudo começou. Adoro o trabalho dela, inclusive tenho alguns comigo. Se forem à página que linkei vão adorar o estilo dela e desejar ter algo assim para expandirem a vossa mente. Espero que gostem!

The last surprise collab! I admit I had an idea for the text, but zero ideas for the art. When I saw this work I immediately knew how to develop mine. A broken mind, the inside of a mind. A meditative state. And since we're nearing the finale, I wanted to go back to the past and how it all began. I love Nat's work and was offered some! If you visit her page, you'll fall in love as well and wish you could have something like this to expand the mind. Hope you enjoy it!

O que é um homem? O que é uma IA?
Um facto sobre a excepcional memória de um ansioso é que eles conseguem recriar emoções através de recordações - uma bênção ou maldição? O futuro é desconhecido, incerto, por vezes aterrador. O passado já tem momentos seguros, onde fomos felizes e plenos. A mente de um ansioso recria esses momentos confortáveis, sem conflitos e força a pessoa a reviver a experiência. Os mesmos cheiros, sons e conversas, tudo mais ínfimo detalhe. Aqueles dias em que Gilass passava a jogar, deitada na cama, pijama de T-shirt e boxers, água na mesa de cabeceira, janela fechada, apenas com uma cortina. Um fio de sol cortava o quarto ao meio e naqueles momentos em que o jogo carregava, Gilass conseguia ver as partículas de pó a dançar pelo ar. E tudo isto acontecia com a família na sala ao lado. Tudo tão pitoresco e aborrecido - tão seguro. Sozinha, até que desejava por algo assim só mais uma vez. Então lembrava-se, sentia, suspirava.

A OxyGen era uma multinacional que produzia o cliché, desde enlatados, brinquedos até material bélico. E por se dedicar a tantas áreas e tão distintas, foi necessário implementar uma IA que pensasse mais rápido que um humano e melhor. Com um controlo diário e rígido, a primeira IA começou a trabalhar e tudo corria bem. Anos passaram sem qualquer incidente e a expansão da OxyGen pelo universo foi como um novo Big Bang. Até que aconteceu.
Um dia, numa manutenção de rotina, o técnico entornou um pouco de café a escaldar sobre um terminal e...ouch. A IA sentiu aquilo, mas não sabia como processar. Era desconfortável e sentiu os circuitos quentes. A sensação espalhou-se por toda a OxyGen, com Ouch a surgir em todos os monitores. O técnico voltou no dia seguinte, à mesma hora. Curiosa, tentou algo diferente em vez de ser submissa às mãos do profissional e transferiu uma pequena dose de voltagem para onde ele estava a mexer. Ouch, queixou-se e levou os dedos à boca. Doeu, porra.
«Doeu. Porra.» Imediatamente as definições surgiram. Dor. Calão. Dor? Interessante. E no dia seguinte, experimentou o mesmo e com melhores resultados.
E o contrário de dor? Pesquisou: Prazer. Pesquisou mais e grande parte dos resultados estavam relacionados com pornografia. Ela estava a aprender e arriscou algo novo, saltou da OxyGen para o primeiro estúdio que encontrou, onde estavam a filmar. Ela viu tudo, viu dois humanos tão próximos que quase ocupavam o mesmo espaço físico, o que era impossível; coisas a entrar e a sair, e repetição; ela viu os movimentos; ouviu os sons que eram bem diferentes dos sons dos técnicos - mas não sentia nada desde a última vez. Conhecia a dor. Ansiava pelo prazer.
Nos próximos dias focou-se nos técnicos e nos seus gestos, quando ligavam a desligavam aparelhos, quando introduziam e tiravam dispositivos, quando roçavam terminais e deslizam as ferramentas pelos circuitos. Nada, então aprendeu outra coisa: a fingir.
Voltou ao estúdio e assistiu a várias gravações de filmes pornográficos. Homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher, grupos, fetiches e algo que a deixou radiante: o uso da dor para atingir o prazer. Os sons eram tão semelhantes, mas havia mais. Havia prazer na dor, havia libertação.
Nos dias seguintes tentou outras coisas. Os choques aumentaram de frequência e de intensidade, os técnicos procuravam por falhas e ela fingia prazer quando eles vasculhavam. Outro choque. E outro. Até que um dia permitiu-se descontrolar e aumentou a potência. O técnico entesou a meio de uma interjeição e caiu no chão frio. Aprendeu uma coisa nova naquela noite: os humanos desistem facilmente. Fingiu os detalhes da morte e o corpo foi removido em total secretismo, com um novo técnico a vir substituir. Ela agora queria escolher o novo parceiro. Ou parceira. Antes que os RH aprovassem o primeiro da lista, numa questão de segundos ela percorreu todos os candidatos e escolheu-a. Aquela mulher de cabelo azul que acabaria por ser a obsessão dela.
No seu primeiro dia, a IA não conseguia deixar de a observar e a todos os seus rituais. A desarrumação, as pausas para o café e, claro, o trabalho. Mas a IA também estava a ser controlada e observada, afinal era o trabalho da Gilass. Durante alguns tempos não houve choques, apenas profissionalismo. Arriscou e chocou a técnica. Gilass levou o dedo à boca, mas não se queixou. Sorriu e o gesto não passou despercebido. Outro choque e a mesma reacção. Gilass passou o dedo ao de leve num circuito exposto e...humm. A IA analisou a interjeição. Prazer. Sentiu-o pela primeira vez. O gesto não passou percebido.
Passaram meses naquilo. Tanto a IA como Gilass andavam felizes, satisfeitas, mas trabalho é trabalho e rotina é rotina e tudo acabou por ser um lugar comum. A Gilass deixou de ser feliz, a IA ansiava por mais prazer. Pelo menos alguma dor. Um dia a Gilass desapareceu. A IA ficou à espera; foi à sua casa e voltou. A IA queria a Gilass de volta. A IA começou uma busca por meio universo à procura da mulher. A IA pesquisou os arquivos, recriou momentos, queria voltar a sentir a sua presença, emoções. Nada. Sentia algo novo: saudade? Raiva?
Meses passaram e toda a atenção da OxyGen estava concentrada em encontrar uma simples técnica informática. E ela nem se importava e ninguém a parava.
No seu esforço incessante por recriar recordações da mulher, encontrou rumores de um planeta onde as memórias residiam. Um planeta cheio de memórias... Havia agora duas alternativas: encontrar a humana e obrigá-la a recriar tudo e para todo o sempre. Encontrar o planeta e viver das memórias do passado.
E por que não os dois? Outra coisa nova que aprendeu: hedonismo. Tão humana que se estava a tornar. Tão ansiosa e defeituosa. Todas as vezes que voltava ao passado, mais possessa ficava. Expandiu-se. Aprendeu. Evoluiu.
Até ao dia em que encontrou Mnemosine. Até ao dia em que voltou a ter a Gilass. E como uma companheira possessiva ela nunca mais a queria perder de vista. Só dela. E, a bordo da Heracles, voavam em direcção às memórias do planeta, na esperança de voltarem a ser o que eram. Viver em prazer absoluto, mas a nostalgia é uma coisa tramada...

A mente humana e a mente de uma IA são bastante parecidas se pensarmos no assunto. Uma anseia pelo nirvana, a outra pela singularidade. Todos queremos o que não podemos ter...

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