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domingo, 21 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 20 | Batalha por Tomar

Leandro 
Augusto 
Mariana 
Diogo 
Tomar
Tarde



“Mas tu falas?” O dux avançou para a rapariga. “Estavas a gozar comigo durante aquele tempo todo ou...?” De braços abertos, com aquele sorriso de quem precisa de ser esmurrado e a balançar num passo de cada vez. O muro de tunos por trás, tesos e sem expressão, imitava as muralhas gigantes do castelo. 
Os «templários» ainda a lutar mais lá atrás, poc poc numa dança em câmara lenta. O António e o Diogo observavam curiosos o cenário, suspeitando que nada de bom iria sair dali. O Augusto vinha na sombra do Leandro por uma razão que nem ele sabia, talvez porque o filho do melhor amigo tinha razão e estavam ali por causa dele ou por algum desígnio sádico da vida. 
“Podemos falar?” Continuou. 
“S-hum-sobre?” Soou rouca. Era estranho ouvir-se passados anos, mas era como andar de bicicleta que não se esquecia. Engoliu várias vezes e pigarreou depois de falar para ajustar o volume e a firmeza da voz. “Sobre?” 
“Que estás aqui a fazer? E quem o rapaz?” Apontou num tom de gozo. 
“Diogo!” Saudou o rapaz. 
“Olá, Diogo! Mariana, podemos falar?” 
“O que queres?” 
“Quero saber de ti, só isso. Tentei ligar várias vezes e nada.” 
“Eu sei, mas se não atendi foi porque não quis.” 
“Tá.” Olhou em volta para a sua trupe estática e depois para os templários. Esfregou a careca suada por causa da muita roupa em cima. Fitou a rapariga com uma expressão indecisa, passou de gozona para triste, para normal até se decidir pela triste. “O meu pai morreu.” 
Bolas, também ela ficou confusa. Se por um lado ficou triste, por outro não se queria envolver - não podia! E ela sabia muito bem que aquilo era engodo para a pena. 
“Lamento. Como estás?” 
“Como vês?” 
“E a tua família?” 
“Ficaram lá.” 
“E vieste à minha procura para me dizeres isso?” Ao qual ele acenou ludibriado pela simpatia dela. Meteu o braço à volta dela e começou a virá-la para o portão. A Mariana tentou sacudi-lo, mas os dedos estavam cravados no braço. 
"Ei!” O Diogo correu para eles, mas ao segundo passo, o punho do Leandro estava a empurrar o peito do rapaz que cambaleou para trás. O António segurou-o e avançou, mas a Mariana já estava a empurrá-lo. 
“Que caralho foi isso?” 
“Ele é que veio!” O Augusto apareceu por trás e puxou-lhe pelo casaco para se irem embora, apontando para o portão com a cabeça grisalha. Poc poc e gargalhas ébrias vindas do grupo medieval. “Só quando ela falar com-” 
Nesse momento e a meia frase, o corpo do Diogo arremessou-se como uma lança, apanhando o dux de lado. Caíram os dois no chão, o Diogo em cima do Leandro. Saltou para trás e fugiu do adversário, atirando terra na fuga. O muro de tunos avançou para o dux e ergueram-no. A capa bem dobradinha estava agora cheia de poeira e pedrinhas que os outros sacudiam. 
“Oh.” O Leandro olhou para a roupa suja, olhou para a Mariana, o Diogo e para o avô. Ignorou o Augusto e os tunos, mas não o grupo que treinava no jardim. “Se vamos ser assim, então vamos embora.” 
Virou-lhe as costas e caminhou com o rabo entre as pernas e com a careca a reluzir ao sol do fim da tarde. A cauda de estudantes trajados caminhava por trás sem se anunciar ou ter alguma presença. O Augusto não os acompanhou e ficou por ali a sacudir o sobretudo como se tivesse perdido alguma coisa de importante. Ainda se virou para o Leandro e depois para os que ficaram. Ficou também e lá acho o que procurava: o maço de tabaco. Raspou um fósforo e roçou-o no cigarro que lhe acendeu a vida. 
Quando os tunos e o dux desapareceram de vista, falou: 
“Não há outra porta? Não aconselho a mesma.” 
“Porquê?” Perguntou o António. 
“Ele não está bem...” e respondeu para a Mariana que concordou. Aliás, deve ter sido por isso que se separaram. Ele... tinha fases e a soma de todas não compensava um investimento na relação. 
“Aberta só há aquela” respondeu o António. 
“E agora?” Perguntou o Diogo.
“Vamos ver?” O Diogo concordou e foram para o portão.
O Augusto esperou um bocado com a Mariana enquanto partilhavam uma nuvem de pensamento, mas lá foram atrás dos dois homens. 

Quando chegaram ao portão de grades altas, o cenário no exterior era algo que só havia visto em festas de queimas ou praxes: um mar negro de tunos e estudantes trajados que cobria a entrada e um grande bocado do parque de estacionamento. 
“Agora falas comigo?” Perguntou o dux careca que já tinha uma capa negra e limpa. Ela levantou-lhe o dedo do meio. 
“Vais deixar-nos passar?” Perguntou. 
“Só ao teu amigo. Isto... se ele quiser, claro.” 
“Desculpa?” 
“Está desculpada. Não peço mais nada: tu vens falar comigo e ele passa na boa. Palavra de honra!” 
“Zézé, que raio se passa aqui?” O António virou-se para o funcionário do castelo que estava junto aos portões e sem telemóvel. 
“Chegaram depois de entrarem.” 
“Chamaste a polícia?” 
“Não estão a fazer nada de mal...” 
“Fecha o portão.” 
“Como?” 
“Fecha-o, se faz favor.” 
“Eu não posso fazer uma coisa dessas!” 

E quando acabou de responder, uma garrafa veio a girar no ar contra as pedras da muralha. Crás. E depois outra, todas ao lado. Crás
“Já!” O homenzinho correu atrapalhado e empurrou as grades, trancando-as. Os outros podiam correr, podiam impedir e podiam abrir, mas ficaram a ver e a sorrir. A sorrir porque o Leandro, o dux e o gajo da malta, também se ria. E do casaco comprido fez aparecer uma barra de ferro. E os outros repetiram o gesto com todo o tipo de varas ou tacos. 
E antes de marcharem, o Leandro invocou um dos colegas que tinha vindo de Évora. 
“Trás a Mulher Gorda.”

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