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terça-feira, 30 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 30 | Estrondo


Diogo
Mariana
Jordão
Augusto
Cátia
Leandro

Lisboa
Noite


Uma breve cortina de chuva e vidro varreu a praça e sumiu. 
Via-se o fumo e os corvos a afastarem-se, a tropeçarem como se alcoolizados, a sacudir o silvo que não vinha do exterior, mas que ecoava dentro dos crânios. Uma rapariga de casaco de cabedal falso, cabelo espalhado como uma estrela do mar, estava em posição fetal e abraçava um frasco; um fio de sangue seguia por uma ruga até ao chão. 
As línguas das labaredas lambiam os beiços das janelas partidas, e reflectiam na pele negra do rapaz que usava o corpo como escudo para proteger outro. À frente, um miúdo andava aos ziguezagues, mãos nos ouvidos até se sentar ali mesmo no chão. 
As cabeças curiosas brotavam dos veios que abriam na praça e a rapariga corria para elas a adejar os braços; ali perto, o amigo estendia os braços aos que tinham caído e puxava-os para longe. 
Momentos depois, os roncos de motores e os guinchos das sirenes interromperam a noite e expulsaram a escuridão com os laranjas intermitentes. 

Sabem quando metemos o alarme para uma sesta, e no sonho ficamos à espera que toque a qualquer momento e não conseguimos descansar? Era isso que o Jordão sentia, enquanto desenhava na toalha de papel e o irmão cozinhava. Desenhava um dragão enrolado a um braço; daí até chegar ao Dragão Lusitano foi um salto. Deixou escapar uma risadinha que atraiu os olhos do Guilherme. O rapaz mordia os lábios de preocupado e olhava pela janela e para a festa lá fora. 
O Leandro continuava em frente ao fogão, avental ao peito e a conversar sozinho, a confirmar medidas e a receita. Duas chávenas de arroz – quatro de água. Certo! E ria, mas depois voltava aos momentos de silêncio concentrado. 
Que farra. E não podiam fugir. Se tentassem, seriam logo apanhados e recambiados para dentro. Até agora, ninguém tinha recorrido à violência, mas enquanto houvesse álcool tudo podia acontecer. 
O Jordão recebeu os olhares do Guilherme, canalizou-os pelo braço e continuou a desenhar para manter a cabeça ocupada. Ele sabia... ele sabia que não se devia ter metido com aquela família, e se não o tivessem procurado continuava bem. Carregou o traço de caneta e passou aos detalhes do dragão. 

Leandro foi à mesa com dois pratos e voltou ao fogão sem quebrar a melodia em assobio. 
“Vá, comam! Comam!” Convidou-os. Os pratos, uma porção de arroz, bife, ovo a cavalo e batata estavam bem decorados, divididos e coloridos – pareciam uma paleta com as cores ainda frescas. Ele estava a preparar o seu prato quando o Guilherme atacou a refeição. O Jordão empurrou o prato e continuou no seu happy place, distante e à espera que a palhaçada acabasse para ir para casa, mas o relógio tardava em tocar. 

A folia lá fora e o arraial baixaram de volume drasticamente. O Guilherme parou com o garfo no ar, levando-o depois em câmara lenta à boca; o Jordão espiou o Leandro a dirigir-se a uma janela e começou a deslizar da cadeira. O irmão ainda lhe deitou um braço que sacudiu como se fosse um mosquito. A música aumentou ligeiramente quando a porta da entrada abriu e três pessoas entraram: a ex-namorada, o amigo da ex-namorada e uma miudita cuja cara não lhe era estranha. 
“Mariana!” Abriu os braços para os receber. “E amigo da Mariana. Tu não sei. Mas venham que há para todos.” Apontou para a mesa, o Guilherme com as bochechas cheias e o Jordão meio sentado e levantado. 
“Espera, tu não estavas desaparecido?” Franziu os olhos para o Diogo. “Ah, caga nisso. Têm fome?” Correu ao frigorífico de onde tirou mais carne para a bancada, polvilhou com sal, virou e repetiu. 
“A especialidade da casa: el bitoqué. Gostam?” De novo a assobiar. A Mariana e o Diogo olhavam para o Leandro e partilhavam o mesmo fio de pensamento: os jerricãs. De um lado para o outro, o cozinheiro tinha de dançar à volta dos contentores. Eles não sabiam o que tinham, mas se fosse algo perigoso, bastava uma distracção para... para! 
A Cátia olhava em volta à procura do Augusto, mas só havia três lugares à mesa para os irmãos. Uma vozinha na cabeça pedia-lhe para parar; que ela sabia que não ia encontrar ali. Pelo menos, não da forma que ela esperava. 
“Leandro, pára com isto. Vamos falar?” 
“Sobre?” Perguntou o ex-namorado. 
“Disto! Já viste o estado do restaurante? Da rua? A porcaria que estás a fazer? E vocês aí sentados?” Apontou para os irmãos. 
“Não me metas nisso, miúda!” O Jordão levantou-se. “Eu nem devia estar aqui!” Apontou a faca de serrilha ao irmão e decidiu-se a sair. 
“Quieto, maninho” ordenou o Leandro. “Não acabámos o jantar de família e agora somos mais.” Atirou com a carne para a chapa quente, ouvindo-se o chiar do metal quente. 
“Tens razão, Mariana. Isto está uma confusão do caralho.” Inspirou e empurrou o ar para si. “Eu e o pai decidimos começar do zero: mandar tudo abaixo e reconstruir. Dar uma cara nova ao restaurante, estás a ver? Ele queria deixar tudo, mas eu e o Augusto convencemos o velho a manter a casa.” Apontou para o frasco, para a tristeza da Cátia. 
O Diogo sentiu algo a borbulhar no fundo do seu ser. 
“O que tens aí aos pés?” A Mariana perguntou dos jerricãs. 
“Isto? É para queimar o restaurante” disse com total normalidade. Virou a carne e juntou mais canecas de arroz. 
“És uma besta!” 
“Não é preciso ofender, querida...” Sorriu carinhosamente. 

Caraças que o alarme não tocava. 
O Jordão saltou da cadeira preparado para sair, mas um berro do cozinheiro fez com que a porta fosse barrada de capas negras. 
“Deixa-me sair, meu” avisou o Jordão já sem paciência. 
“Papar, vá.” 
O Diogo reconheceu o que estava a acontecer dentro de si. Aquela poça primordial e o seu reflexo nela. A ansiedade de nadar para cima e nunca atingir a superfície. A mão estava dura como pedra e um dedo fechou depois do outro. 
Não há problema em sermos personagens secundárias. O mundo também precisa de pessoas que segurem o escadoterecordou-se, mas até o Sam carregou o Anel e quando não o carregou, carregou com o Frodo. A mão era um punho que era um calhau que apanhou no chão. E porque o Leandro estava distraído com o outro rapaz, as pernas do Diogo adiantaram-se à iniciativa de agir. Primeiro, aproximou-se do fogão; segundo, o braço veio atrás; terceiro, disparou um soco contra a face esquerda do Leandro, todos os nós dos dedos a embater antes do resto do punho, a rasparem o nariz e a furarem o ar em frente. O Leandro rodopiou no lugar, foi contra a frigideira da carne que virou para o chão, óleo e carne, e segurou-se na bancada, a arfar como um animal ferido. Massajou a cara até sentir aquela dor quente e húmida do sangue. Cuspiu com umas tentativas de riso à mistura; o riso a tornar-se mais forçado e longo e demente. 
“Eles obrigaram-me a isto. Vocês viram!” Empurrou-se do fogão e caminhou ao bengaleiro, passando pelo Diogo, Mariana e Jordão. Os olhos postos nele. Agarrou no casaco comprido do traje e apalpou pelos bolsos, de onde tirou uma caixinha pequenina. Voltou para o lugar a bater com os pés no chão, a marchar amuado e com uma cara de traquina. 
O Leandro, de olhos arregalados, esfregou a careca e apoiou o queixo na palma da mão para analisar a cena. Olhou para os vivos na sala e para os mortos na sua cabeça, os lábios metralhavam em silêncio. Mais ninguém se mexeu, tirando o Jordão que chegou à porta e empurrou um dos trajados. Foi empurrado para dentro e quando puxou um deles, a confusão foi restaurada com o Jordão a tentar-se livrar de dois tipos. 
Todos olharam e agiram, mas o Leandro aproveitou o flash de distração e tirou a caixa do bolso; da caixa tirou um fósforo de madeira; raspou-o e quando a cabeleira rúbea do fósforo ganhou fogo, deixou-o cair no óleo que pegou logo. 
A chama cresceu até ao tecto antes que pudessem cobri-la. Dos panos às capas nas paredes, à porcaria espalhada no chão, foi um instante. Quem reparou nos jerricãs fugiu a sete pés, deixando o Diogo, a Mariana, o Jordão, a Cátia, o Augusto e os irmãos Leandro e Guilherme lá dentro. Sem pensar, a Cátia correu para o Augusto e o Diogo atirou-lhe os braços para apanhar o ar; o Jordão voltou para o Guilherme que já saltava porta fora; a Mariana hesitou sem saber se puxava o Diogo ou a Cátia. Viu as chamas à volta dos jerricãs e correu para a rua. A Cátia roubou o frasco da bancada, foi puxada pelo Diogo e tropeçaram para a rua. 
“Foda-se” berrou o Jordão na porta quando viu o irmão estátua no meio das chamas. Que sensação estranha acordar sem irmãos há uma semana e agora correr para salvar um que era a puta de uma besta. Um passo para dentro, seguido logo por outro, e as chamas cresciam. Apanhou o avental, empurrou-o para fora, correu, empurrou-o de novo, passaram a ombreira e uma almofada a ferver catapultou-os para a rua, onde caíram na calçada. Por instinto, o Jordão arrastou-se para cima do Leandro e choveu... 

… uma breve cortina de chuva e vidro varreu a praça e sumiu.


domingo, 28 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 28 | O Discurso


Diogo
Mariana 
???? 
Almoço 

“Uma semana!” Berrou a Mariana quando deu com o Diogo a dar de comer aos porcos. Ao lado, as mãos da velha agarravam num balde invisível que despejava nos comedouros. 
Bom dia, menina! 
“Vi nas notícias...” espalhou a mistura de ração e de restos, e afastou-se dos roncos que se atropelavam para chegarem à comida. Encaixou o balde nas mãos da senhora e sacudiu as calças.
“Mete-te já no carro!” Apontou para a rua.  
O avô tinha ficado para trás, admirado e confuso com a existência daquela aldeia. Era bem provável ter passado por lá sem ter dado conta, mas... como? Espreitou, falou e cutucou as pessoas sem terem reacção. Os habitantes da aldeia eram altamente funcionais, autónomos, resistentes e duradouros, mas limitados a nível de fala. Tinham umas quantas frases gravadas e pouco mais; o básico para orientar alguém perdido dali para fora. Eram os NPC perfeitos. Sentou-se no café à espera dos outros dois, mas mais aliviado pelo rapaz estar bem. Aliás, mais do que bem, melhor do que muitos! 
“Faz isto. Faz aquilo. Anda aqui, vai ali!” Zombou da miúda. “Desde a pedrada que não tenho tido descanso e nem a porra de uma opinião!” 
“Desculpa?” Ela cruzou os braços. “Quem é que quis saber do meu pai?” 
“Tu! Tu querias, mas precisavas de um alibi-” 
“Oh, obrigado! ‘Tadinha da muda. O que faria sem ti?” 
“Olha, não me chateies e vai-te embora.” 
A Mariana virou-se para ir, mas voltou atrás. 
“És igualzinho àquelas coisas” disse num tom frio. 
“Aceito como um elogio...” 
... Mas não era.” Afastou-se. “Então, ficamos assim?” 
Yeap.” Encolheu os ombros, mãos no bolso. A velha já ida dali. 
“Sabes quando nos rimos quando alguém cai?” Começou o Diogo a ditar: “É porque o nosso cérebro está programado para ver pessoas a andar – uma linha recta sem alterações. Quando alguém cai porque tropeçou, está a fugir da sua programação e o nosso cérebro acaba por não saber lidar e regista aquilo como uma irregularidade ou anomalia. Rimos ou entramos em pânico.” 
O som das galinhas a serem alimentadas no outro lado preencheu o silêncio entre as duas pessoas. Continuou: 
“Nesse aspecto, eles são melhores do que nós. Não reagem a nada. Não se preocupam com nada. Apenas continuam, Mariana.” 
“Mas também não vivem e não sentem...” 
“Parecem-te mal?” 
“Não me parecem nada, Diogo...” Aproximou-se do rapaz que olhou para cima e depois para a rapariga. Cruzou os braços em jeito de defesa. 

“É tão cansativo.” Inspirou e engoliu o ar que conseguiu. “É tão cansativo sentir coisas e... E... Ou ser a personagem principal. Ter os olhos em nós, à espera que tropecemos para se rirem.” E aqui a voz tremeu como se estivesse numa linha alta e quase a perder o pé. 

Ela aproximou-se mais um bocadinho do rapaz e desta vez foi ela a falar: 
“Não há problema em sermos personagens secundárias. O mundo também precisa de pessoas que segurem o escadote.” E então sorriu. 
“OK! Arrastei-te e usei-te como desculpa para esta aventura, mas na verdade... estava cagada de medo e agia sem pensar, mas tu? Mantinhas-me na terra... e esta semana foi horrível, estúpido.” 
Sorry...” 
Estamos todos indecisos. Temos todos uma caixa. Pensa no que quiseres, mas pensa, age, ri-te quando alguém cai – ou melhor: ajuda a pessoa.” 
Yeah...” 
“Vamos?” Perguntou uma voz atrás deles. 
“Bora” insistiu a neta do António que já estava cansado. 
“Sim, mas volto quando acabarmos.” 
“És livre.” 
“E onde vamos?” Parou a meio do caminho. 
“À minha avó. Algo se passa em Lisboa.” 
A simples menção da casa da avó Quicas deu-lhe mola aos sapatos e um brilho nos olhos. Podiam ter passado o discurso e saltado para a casa da avó que o efeito era o mesmo. 
“Bora, bora!” Chamou-a. Cumprimentou o avô e seguiram para arrumarem as coisas. 

Nisto, em Lisboa. 

Leandro 
Jordão 
Lisboa 
Tarde 

As portadas das janelas atiraram-se contra as paredes da rua e os vidros foram levantados, trancados e as cortinas arrancadas. Lá dentro, o Leandro e os tunos mudavam as mesas, as cadeiras e arrastaram-nas em U; puxaram dos quadros e das fotos das paredes e esticaram as bandeiras da tuna. 
A porta escancarada berrava a música da folia e os vizinhos mostravam o descontentamento com fronhas aborrecidas. Conheciam o Leandro, conheciam o Guilherme, alguns sabiam da morte do pai. Toleravam, mas... 
O Jordão desapareceu para uma marcação, mas voltou logo para encontrar o Guilherme com uma mini na mão e um tom de aflição. 
“Estão a destruir o restaurante!” Atirou-se ao irmão que apontou para a garrafa. O Guilherme bebeu o resto e limpou os lábios. “Vai ver!” 
“Eu não quero ter nada a ver com isto!” O Jordão teve de falar por cima da festa. 
“Mas é o teu restaurante!” 
“Não! Ele é louco! Tenho de bazar, desculpa.” 
Hei, maninhos, onde pensam que vão? A voz veio de dentro, manipulada pela frequência do megafone, mas sabiam quem era. Venham para cá. Comam e bebam! Convidou-os. 
Xau!” Despediu-se do Guilherme e tomou a rua de onde veio. 
Ó, macaco, disse-te que podias ir? O megafone deixou escapar um feedback que interrompeu a música e degolou o ambiente. Quando repararam, o Leandro estava à janela, megafone ao peito e corvos a encurralarem os irmãos. Se vissem a cena ou o filme Pássaros, era quase igual, só que estes carregavam pandeiretas, guitarras e paus cuja única música que produziam era a da pele a estalar e do osso a partir.

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