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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

WRITOBER | 2019 | CATORZE

Menina e Moça


Esta Lisboa não estranha para a Porcelana Branca. 
As ruas e ruelas, os cantos e recantos e os melhores sítios para molhar o bico. 
Tinha casa na capital, um feito que a deixaria a mendigar no outro lado, mas que agora lhe dava jeito para despir a armadura alva e deixar a lenda espalhada no chão do quarto. 
Deixou tudo com a criada, inclusive o pagamento e um sorriso e saiu para a rua. Não se sentia despida sem a armadura, mas usar uma roupa com as cores que queria dava-lhe outro poder. Os lábios escuros; o cabelo em trança, caído por cima da camisola curta; um casaco de cabedal a rematar e calças de ganga. Apesar de os pés pedirem misericórdia, não dispensava das botas, com uma surpresa escondida no cano. Carteira, chaves e, claro, escudos para estoirar em álcool. 
Caminhou apressada, mas em paz pelas ruas iluminadas, grupos ébrios e felizes e a celebrar o espectáculo da tarde. Cruzou-se com sombras e sussurros de outros que a amaldiçoavam, mas agora não estava a trabalhar e não era com ela. 

Enfiou-se por um beco sem nome e tomou a primeira porta. Abriu a madeira pesada, entornando a luz artificial pela calçada e desapareceu. 
Sempre que vinha a Lisboa, era ali que ia para um jarro de cerveja e sangria. Às vezes ao mesmo tempo para correr mal. As pessoas conheciam-na ali, mas não lhe dirigiam a palavra com medo de dizerem a coisa errada e acabarem na outra ponta da navalha. Então calaram-se quando ela passou pelas suas mesas e ela devolveu a mesma recepção. Sentou-se ao balcão e chamou o emprego que deslizou para a General Taisa que, na verdade, nem era o nome verdadeiro dela. Mas da boca dela ninguém iria saber a verdade. Se uns desbobinam bêbados, ela era um túmulo. 
Sorriu ao senhor de há anos e pediu o costume com um prato de moelas a acompanhar. Em menos de dez minutos já estava servida e a rotina no tasco decorria com normalidade. 

Pouco depois, a porta abriu-se e um rapaz de cabelo negro despenteado e sorriso fácil entrou. As pessoas também o conheciam e deram-lhe o mesmo tratamento da Porcelana Branca. Acenou-lhes e foi-se sentar no banco livre junto à colega. 
“Pata de Coelho, já passa da tua hora de dormir...” 
“Caramba, muito gostam das vossas alcunhas!” Chamou o empregado e pediu um Porto. 
“É porque dás sorte, colega. Devias estar orgulhoso.” 
“Sim, sim, deixa-te de tretas.” 
Ela levou o copo de cerveja aos lábios e bebeu até lhe faltar o ar. O companheiro recebeu o copo e bebeu mais delicadamente para prolongar. 
“Que achaste de hoje?” Perguntou. 
Ela bateu com o copo na mesa, deixando o bafo gelado daquela ronda sair da sua pessoa. Olhou para o pulso despido, “Já passa da minha hora de serviço. Pergunta-me amanhã, tá?” 
Deu uma garfada e deixou o rapaz a olhar impávido. 
“Se continuas a comer assim, estragas a tua reputação.” 
“Não estou a trabalhar, o que é que queres?” Ripostou a mastigar, um fio de molho a surgir-lhe aos lábios que ela limpou logo. 
“Taisa, fomos os únicos lá. Com os outros fora, achei que pudéssemos falar um pouco” deu um gole na sua bebida e continuou depois de lamber os lábios, “e se me perguntasses o que achei, diria que foi escusado.” Terminou muito baixo, matreiro. 
Não tinham receio que os ouvissem. Ali no tasco eram cegos, surdos e mudos e as pernas tinham corda para abandonar as mesas da vizinhança. 
E com isso, a Taisa olhou-o nos olhos. Sem cerveja, sem moelas. Apenas o olhar de uma mulher no limiar da paciência. 
“Quase que a tinha, Xavier. Entendes isso?” O jarro estava quase vazio e os vários anéis brancos escorriam para o fundo. 
“Os Braços tinham-na... e depois sumiu. E tu sabes que ninguém lhes foge.” A Pata de Coelho acenou em afirmação. 
“Agora temos uma caça ao homem” comentou a Porcelana Branca. 
“Uma caça ao homem.” Repetiu o outro. 
“Passaram meses! Sei lá onda anda...” 
“Isso é fácil. Está com o tio.” 
“Falas a sério?” Perguntou com o bocado de pão ensopado a meio caminho da boca. “E ele vai avançar?” 
“Depois de hoje? Silenciámos a Voz, a esposa da Voz e os filhos da Voz. Não esperaria outra coisa.” Acenou ao emprego para encher o jarro à colega. 
“Mais alguém sabe disto?” 
O silêncio dele foi resposta suficiente. 
“Vou fazer-te a vontade, cara Porcelana: estou com um bom pressentimento acerca disto e acho que vamos ter sorte.” Levantou-se do banco e deixo cinco contos ao balcão. 
“Agora sim, está na hora de dormir. Voltei a encher-te o depósito e despeço-me assim.” 
“Xavier,” chamou-o antes de sair pela porta. O homem virou-se a sorrir. “Nada, boa noite.” 

E quando a bebida terminou e o prato lambido. A Tasia apressou-se para casa, tropeçando nos pés numa espécie de teatrinho para as massas noctívagas. As celebrações continuavam e as sombras acercavam-se. Lisboa menina e moça era uma panela de pressão no ponto. 
Chegou à casa escura sem criada e encarou a armadura branca montada no expositor, branca e a reluzir. 
Havia uma coisa que queria perguntar ao Xavier, à Pata de Coelho... Havia um dizer no mundo dela que dizia: não deixes que a mão esquerda saiba o que faz a direita. Ela estava a jogar o seu jogo, e ele também... 
Deitada no sofá, com o casaco a apertar, tirou de um telemóvel concha do bolso. 
Ligou-o. Meteu o PIN e apareceu o papel de parede, uma mulher de cabelo vermelho rodeada de fogo. Pousava de forma imponente e inspiradora, com aquele sorrio de nós conseguimos! Taisa. 
Abriu as mensagens e havia bastantes por ler, todas recebidas há meses quando a Frederica Da Assunção desapareceu pela porta aberta. 

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