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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

WRITOBER | 2019 | VINTE E UM

Demanda do Herói


O Fausto sossegou-a com um beijo na testa e ficou com as crianças no muro. 

A Vera correu para o Joel, mas parou a meio. Em parte, por respeito ao actual companheiro, mas porque não tinha a certeza se estava a ver bem. Não acreditava em fantasmas, mas que tinha um à frente, tinha... 
Secou a cara com o braço e caminhou a medo até ao rapaz na sombra. Ele também tremia e lacrimejava. Ele estava tão radiante de ver a Vera que bloqueou o que estava a mais. 



Abraçaram-se, apertaram-se, ele afagou-lhe o cabelo que escorreu das orelhas e sentiu a camisa a ensopar-se. Estava tudo bem. Depois chorou com força, mas daqueles choros que não nos ficam bem pelos barulhos e ranho, mas estava tudo bem. Ele desistiu de conter as suas e deixou que as suas lágrimas se misturassem no cabelo da moça. 
Então arriscou e levantou-lhe o queixo para um beijo. Ia cedendo, mas apenas por uma fracção de segundo. Empurrou-se dali, sacudiu a cabeça com vários nãos e pediu desculpa.


Estás morto. Tu não estás aqui. Não estás, não estás, como podes? Riu aquele riso de roçar a insanidade.

Não estou, não estou! Juro que não, estou aqui. Olha! 

O Joel bateu no peito que ribombou na paz de Sintra. Sorriu-lhe e confessou-se que não tinha morrido. Que tudo era uma piada cruel do Império. Que estava em Lisboa para esclarecer tudo e voltar a ter uma vida normal.

Os dois. Eu. E tu. Retomarmos de onde parámos. 

Ela sorriu. As bochechas a ganharem a cor de tomates. Depois chorou. Chovia no mundo dela, nuvens e nuvens cinzentas por todo o horizonte do céu. E o sol estava à frente dela, mas tão encoberto. 

Então deu um passo em frente. Sério, firme. Ofendido. 

Tu não tens o direito de aparecer aqui e dizeres-me isso! 

Quando tempo tinha passado? Meses? Quase um ano? Muita coisa pode acontecer nesse espaço de tempo. E aconteceu. Ela tinha vivido. Ele não.

Não? Mas... eu fui a Salvador à tua procura. Vim a Lisboa à tua procura. Já... não sentes nada por mim?

Bastante. Saudades. Luto. Poderia sentir amor, mas esse já o dei a outro. Por favor, não me faças isto. Peço-te. 

Vera, podemos falar?

Imploro-te. Se me amas. Não me peças isso. Não confio em mim, podia voltar atrás. E... Não posso. Não foste o único a morrer naquele dia. Desculpa. Desculpa. 

Deixa-me viver como te deixei morrer. 

Vera. 

Agora ela estava seca e empedernecida. Ele tremia, mãos, olhos, lábios. Levantou a mão que ela tomou à distância e arrepiou-se com o afecto fantasma que imaginou a receber. 

A Vera devolveu-lhe a mão. 

Desculpa. 

Recuou sem se desviar dos olhos do amigo, namorado, noivo... o que seria agora? Amigo de novo?...Um dia...  

Voltou para o muro, para as crianças e para o seu Fasto, mas continuou pela sombra das árvores. O Joel seguiu-a com o olhar, mas acabou por se fixar no outro rapaz, cuja expressão era de uma empatia tal que só lhe deu nojo. Foi a segunda vez que se sentiu traído. 
Retornou para trás da casa e marchou contra a parede, passando pela janela aberta, de onde as vozes do Bernardo e de um homem escapavam.

*

“Lamento, mas não sei nada de outros mundos” desabafou o velho de nome Constâncio. 

“Mas a Frederica... O senhor da Bertrand!” O Bernardo apertou os braços da cadeira, inclinado para a frente com o nariz contra o véu do desespero. “Disseram que podia ajudar...” 
“Os dois excelentes alunos, sabes? O Guilherme sempre foi um... cara de cu, mas boa pessoa. A nossa Frederica só se calava para ouvir histórias. Têm esta ideia de que sei tudo, mas que sei eu?” 
As folhas das árvores a conversar com o vento e o riso das crianças entrou para dentro da sala, o tique tique das agulhas da velha preenchia as pausas forçadas entre os dois homens. 
“Ela está bem, sabes? Escreveu-me há duas semanas. Está com o tio, mas não diz onde. Não vão avançar por enquanto. E deixa-me admitir, ainda bem. Não acho que teriam grandes hipóteses... Que tristeza, que tristeza o que fizeram ao paizinho e aos irmãos...” 
“Pois.” suspirou. Tique tique. “Eu pensava que era algum cientista.” 
“Das letras, ora!” 
“Mas não me pode ajudar a voltar.” 
Encolheu os ombros para o rapaz e levantou-se para uma prateleira. 
“Se viajar entre mundos fosse tão fácil como abrir uma porta, estávamos nós bem, sabes?” 
“Mas foi isso mesmo...” 
“Eu ainda não sei se acredito, mas estou a fazer isto pela Frederica. Tens de me contar tudo e talvez alguma coisa faça sentido.” E com a ponta do dedo, varreu a muralha de livros de várias formas e feitios, com mais ou menos camadas de pó e parou num. 
“Ah!” exclamou satisfeito, “ora, conheces O Outro Lado do Espelho? Alice?” 
“Sim, também existe no meu lado.” 
“O outro mundo da Alice era um mundo desprovido de lógica, mas... importante, com uma lógica própria.” 
“Já não me lembro bem, mas sim. Salvador aqui e São Salvador de onde vim.” 
“Para começar! Mas era tudo um sonho. Ou o Feiticeiro de Oz! Também têm esse? Por onde andará...” Tique tique...
“Também, mas esse não era um sonho.” 
“Não, não era. Uma porta, uma porta. Tens a Torre Negra... Mundos Paralelos.” 
“Também conheço esses. Partilhamos literatura, óptimo!” Parte do Bernardo começava a resignar-se que não iria voltar e isso atirou-o para um humor de merda. 
“Mas havia algo em comum em todas as personagens, sabes?” 
“O quê?” Pensava que tinha visto a sombra do amigo a flutuar pela janela, mas devia ser imaginação sua. 
“Todas tinham uma demanda: vieste do teu Portugal para o nosso Portugal e esbarraste com a última descendente da Voz.” O velho Constâncio falava-lhe com uma entoação de contador de histórias entusiasmado que só faltava fazer as vozes da trama. “Salvaste-a da Porcelana Branca. Sim, eu sei. E talvez tenhas dado um novo fôlego à causa. 
Parabéns, jovem Bernardo. Ainda és o salvador da pátria.” 

Tique tique...

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