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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 1 | Vai. Não Vai

Estas histórias passam-se em Portugal, mas certos estabelecimentos, locais, pessoas, organizações e eventos são fictícios. Não fiquem engatilhados com quaisquer semelhanças! 

Diogo
Montijo
Fim da tarde

Duas horas para sair de casa e ele já estava a fritar.

A ansiedade é uma Caixa de Pandora. Abre-se e as vozinhas cheias de mimimis não se calam. Vai correr mal, não saias de casa, quem é que se importa que vás? Uma pessoa cede. Se bem que no meio daquele negativismo, há a tal voz da esperança que tenta contrariar as outras com razão. Não vai nada correr mal, vai ser divertido, vais ver! Estavas à espera disto há meses. Essa é a pior voz. 

O Diogo transporta a caixa na mala. Mostrou-a à psicóloga e perguntou porque é que as vozes negativas são sempre as mais altas e não o contrário. Bem, respondeu-lhe, é uma questão de exercício mental. Vamos lá chegar. E ele tinha os seus rituais, o exercício físico e mental e uma dose de masturbação no duche para aguentar mais um dia. Funcionava q.b.

Hora e meia.

Saiu do banho, secou-se, e puxou o cabelo negro para o lado. Calças de ganga, camisa cinza enrolada nas mangas e dentes lavados. 
O Diogo tinha 30 anos que lhe fugiam. Cabelo negro, com pinceladas prateadas nos lados; nariz comprido e lábios finos sempre abertos a palrar. Enfiou-se nas botas sujas, atirou os lenços para a mala e a caixa da consola. Garrafa de água e tampa extra porque os seguranças temem atentados com água do Luso e bolachinhas salgadas. Ah, trocos para a cerveja – O kit de concertos do Diogo.

Vinte minutos para sair. 

Tirou a consola da mala para matar tempo e para calar os sussurros.
Jogava bastante, adorava histórias e o seu género favorito eram os RPG japoneses com enredos demasiado dramáticos para o seu bem; personagens carismáticas e situações impossíveis, onde o fim do mundo era tão habitual como pedir um pastel de nata com o café. Era um vira o disco e toca o mesmo, mas quando se gosta de arroz não se come apenas uma vez na vida, mas as vezes que nos apetecer e com várias combinações. E aquilo era o sustento da alma.

Estava na hora. 

Saiu de casa, apanhou o autocarro e depois o barco. Quando deu pela realidade, a outra margem estava a aproximar-se. Focou-se no vidro sujo e estudou, no reflexo, as pessoas naquele primeiro andar do barco. Depois, perdeu-se de novo. A rampa bateu no cais e despertou de outro sonho com laivos de heroísmo.

Até ao Campo Pequeno só mudou uma vez de linha e saiu na Azul. Fez o resto a pé para engonhar um bocado e quando lá chegou a fila ainda estava a crescer.
Estacionou atrás de uma moça com auscultadores maiores do que a sua cabeça e observou-a. Tinha um livro de capa negra na mão, um dedo enfiado nas páginas e o telemóvel na outra. Trazia um vestido verde simples e cabelo apanhado em dois rabos-de-cavalo. Reparar em mais era sinal de que estava muito perto.
Recuou e sentiu um choque na canela. 

Virou como uma mola e viu a pedra no chão e a rapariga que a tinha disparado. Vinha a correr e parou mesmo atrás de si. A boca dela desenhou um desculpa silencioso, mas sem arrependimento e ele mostrou as palmas das mãos em paz. O tanas porque doía. Virou-se, julgou-a rápido e voltou-se. Girita, admitiu. Está é no concerto errado, também concluiu pela t-shirt dos Joy Division quando eram os The National naquela noite.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Antologia Space Opera III

Saíram hoje os resultados da terceira antologia de Space Opera da Editora Draco.
Concorri, foram meses árduos a escrever, rever e a reescrever, mas enviei a tempo.

Mesmo assim não fiquei. O concurso era brasileiro, mas estava aberto a todos os países de língua lusófona.
Deram entrada 116 submissões, sendo que 5 delas eram portuguesas: a minha, do meu camarada de escrita Carlos, do Abracadabra, o Luís Filipe Silva já experiente nestas andanças e outros anónimos (para mim). Destes portugueses, o Luís foi seleccionado com o conto Na Crista da Onda!

Já tinha lido o seu conto na Trema e não sabia que tinha entrado com o mesmo. É um conto calmo, com pouca acção que se passa no espaço, mas isso não invalida a sua qualidade. Conta com algumas referências ao surf e aos eternos Beach Boys, o que lhe confere um certo grau de estranheza e, ao mesmo tempo, de familiaridade aos que cá ficam na Terra. É Ficção Científica boa e nacional.
Se tiverem oportunidade, não deixem de o ler.


Pronto, parabéns Luís!

[Actualização: foi-me informado que temos outros vencedores nacionais, Rui Leite e a Júlia Durand. Um conto a duas mãos? É sinal que duas cabeças pensam melhor do que uma. Parabéns aos dois!

Eis as estradas vencedoras:

O Convite do Imperador, de Roberta Spindler
Ecos de Maztah, de Carol Chiovatto
Na Crista da Onda, de Luís Filipe Silva
Nosso Estranho Amor, de Antonio Luiz M. C. Costa
O Cortiço e as Estrelas, de Pedro Vieira
Os Argonautas, de Sid Castro
Supremacia de Eufrates, de Cirilo S. Lemos
Uma Princesa de Stroff-Bingen, de Rui Leite e Júlia Durand


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