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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

WRITOBER | 2019 | ONZE

Ai Destino

O Joel não estava para muitas conversas.  
Atirou com a mala de lona para a caixa da carrinha e voltou a casa. O Bernardo imitou-o outro, e ficou encostado à carrinha da mãe. A manhã estava no fim, tinham descansado bem e os rapazes estavam carregados de força e motivação, mas não de disposição. 
O jantar e a noite tinham corrido “bem”. Estava mais aliviado porque o rancho deste mundo era igual ao do seu, mesmo requentado do dia anterior. Comeu bem, bebeu ainda melhor, e a Laurinda era uma senhora! E falava, e falava, e tudo o que dizia não se desperdiçava. 

Mas a conversa não tinha corrido bem ao novo amigo: acontece que ele e a Vera estavam noivos e para casar, mas quis o destino sádico que ele “morresse” em combate. 
O problema é que ele estava bem vivo e a jantar restos na sua casa, a ouvir a sua mãe na sua cozinha – se não tinha morrido, talvez não passasse dessa noite. 
“O teu pai continuou a beber e desapareceu. Eu continuei a trabalhar e cá estamos, mas a pobre Vera chorou-se toda a ponto de quase cegar, coitada” contou entre colheradas. Bebeu o resto do copo de vinho. 
“Ela tinha-te tanto no coração, filho. Um dia veio cá a casa e comemos as duas. Pediu-me tantas desculpas, mas tanto te chorou que um dia acordou e tomou uma decisão.” 

A vida continua em frente. Nunca para trás, dona Laurinda. 

“Decidiu ir para Lisboa.” 

Quero estudar música. Quero dar alegria às pessoas que a perderam. 

“Pediu a minha bênção que não era minha para lha dar, mas dei-la. Chorámos as duas e saiu livre desta casa. O teu pai bebeu-se livre, a Verinha foi-se educar livre e eu fiquei pelos que partiram.” De novo, a senhora gigante e forte que ergueu um soldado no ar parecia mirrar com as palavras. 
E quis o destino sádico que um grupo musical visitasse Salvador pelas vindimas. Com ele, veio um jovem engraçado que se enamorou da Verinha.  
“Não sei se ela lhe achou piada, mas quando o grupo se foi, a Vera desapareceu. Malas e guitarra.” 
Descansou os olhos com um sorriso. Estaria a pensar no baile? Na moça ou no “Se” se tivessem casado? Teria a noção que cada palavra sua dilacerava a carne do soldado que vira todo o tipo de violência e morte? Vale tudo na guerra e no amor. 
Nessa noite, o Bernardo viu-se a dormir no chão, no quarto do Joel. Ouviu-o a soluçar muito baixinho quando pensava que era o único acordado. Adormeceu a olhar para uma foto pendurada de um casal e voltou a outro dia e a outro quadro a preto e branco. 

Mas nessa manhã, o Joel voltou à porta com um rolo de lona debaixo do braço. Abriu a porta do passageiro e escondeu-o sob o banco. 
“Que é isso?” 
“Defesa” respondeu com metade de um sorriso ferido. 
Puxou do embrulho e tirou uma bainha. O punho rudimentar estava enfaixado com cabedal e uma lâmina cresceu da guarda – nada era espectacular dali, mas para o rapaz que nunca empunhara uma, aquilo era surreal. O amigo careca sacudiu a espada no ar, separando-o em vazios que se juntaram logo. 
“Não sabemos quem vamos encontrar pelo caminho.” 
“Esperas problemas?” Uma serpente ansiosa deslizou-lhe pela espinha quando olhou para a segunda espada e sabia ser sua. 
“Estamos em guerra, amigo. Prevenção.” 
Podia concordar com isso: havia uma guerra algures naquele mundo. O Joel tinha morrido em combate e o Bernardo não existia. Dois espectros que não tinham razão para ali estar, mas que se acomodavam numa carrinha de caixa aberta e arrancavam para Lisboa. 
Um ia em busca do homem dos livros e a única pista era um anel azul; o outro ia em busca da sua amada e surpreendê-la com a sua vida. 
Não há duas sem três e quis o destino sádico tocar a sua melodia. Agora todos iam dançar. 
A carrinha pegou e descereu a rua escura; passou pelo café e pelo pelourinho e deixou Salvador para trás. 
O soldado tirou o braço do lenço e assentou-o na mudança. O Bernardo não conduzia e não era neste mundo que ia começar.

Ajeitou-se no banco, e sentiu as espadas com o pé. A serpente da ansiedade sibilou-lhe ao ouvido. 

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

WRITOBER | 2019 | DEZ

Broa e Vinho


O Joel e o Bernardo entraram em Salvador.
Esta aldeia ficava um nada mais afastada do que a dele; tentou reconhecer as ruelas, mas eram-lhes estranhas e quando passaram pelo café, apenas os velhos a olhar lhe fizeram lembrar do último pequeno-almoço com o Carlos.
Olhavam e cochichavam e um ou dois caminhou com eles, à distância. Havia um grupo de crianças no pelourinho que se calou quando o soldado de braço ao peito se aproximou. Se olhassem dois segundos para o Bernardo era muito.

O Joel ainda as chamou, mas fugiram desconfiadas. Ignorou-as e apontou um caminho escuro, para onde iam. Parou em frente a um portão de ferro e desceu para o carreiro que levava a uma casa de pedra, a perder a batalha contra o tempo. Com o braço bom, começou a esburacar uns vazitos e escavou uma chave que sacudiu na farda. Serviu. Rodou. Empurrou a porta para dentro e convidou o outro a entrar.

"Queres ir a Lisboa e procurar um homem com livros. É isso?" Perguntou o Joel com a broa na mão. "Passas-me a faca?"
O Bernardo esticou-a com o cabo virado. "Sim" respondeu.
"Tem nome?" Estudou a faca e a broa e percebeu que talvez não fosse assim tão fácil.
"Não perguntei..." Era verdade: não perguntou.
"Corta aí duas fatias, se fazes o favor." Passou a faca e depois a broa. "Assim não vai ser fácil."
O Bernardo prendeu a broa dura na mesa e serrou duas fatias tortas. Uma para si e a outra para o amigo.
"Tens de ir a Viseu." Puxou a garrafa de vinho. "Apanhas o dirigível. Ou vais a Aveiro para o comboio."
Deu a garrafa ao Bernardo que puxou da rolha em segundos. Encheu dois copos e cada um deu um trago.

Nisto, a porta de casa foi disparada contra a parede e uma mulher forte marchou até à cozinha. Com dois braços de tronco, agarrou no colarinho do Joel e levantou-o do chão. Sem cuidado pelo feriado, o copo entornou-se na mesa e a cadeira foi projectada pelo chão. O Bernardo reagiu em sua defesa, mas o rosnar da mulher congelou-o.
"Tu estás morto!"
"Não roubámos nada!" Berrou o Bernardo como uma criancinha.
"Vieram a esta casa! Disseram a mim e a o teu pai que tinhas morrido na merda daquela guerra!"
Atrás da mulher, o Bernardo não conseguia ler as expressões dos dois, mas adivinhava que algo não batia certo.
"Olá, mãe."
Mas a mão não estava com meias medidas e sacudiu o filho para o chão. Se não tinha morrido na guerra, iria morrer ali.
"Tu não sabes o que fizeram a esta família! O teu pai, ai o teu pai!"
"O que tem o pai?"
"O homem bebeu até se borrar todo. Nunca mais o vi!"
Silêncio na cozinha. A mãe dobrou-se e apanhou o copo que voltou a encher. Deu ao filho no chão e endireitou a cadeira.
"E tu? Quem és?" Perguntou ao outro quando reparou na sua presença.
"Bernardo, senhora."
"Estás morto também? Os teus pais?"
"Mortos..."
"Ao menos poupaste-os a estas figuras. Sou a mãe do Joel, Laurinda."
"Prazer..."
A figura da senhora era tão imponente que fazia a casa encolher até não sobrar mais nada. Era ela ao centro, o Bernardo encolhido como uma besta amedrontada e o Joel encostado à parede, com um copo de vinho. Não havia um tic toc a preencher o silêncio, apenas as respirações e algum zunzun da rua. A luz trespassava as cortinas e as partículas de um pó antigo dançavam pela casa. Parecia que estava na casa da avó, broa, vinho e tudo. Até que a Laurinda interrompeu o quadro:
"Tenho de trabalhar porque parece que afinal tenho filho... Jantam cá?"
Os rapazes entreolharam-se como pequenas crianças e acenaram que sim. A mãe saiu e bateu com a porta.
Depois voltou a entrar e correu para o filho que se encolheu de medo. Abraçou-o e beijou-lhe a cara, deixando-a quente das lágrimas. Andou para o Bernardo e fez o mesmo, acrescentando que sentia muito pelos pais dele. Apertou-o um bocadinho mais de tempo e soltou-o.
A mulher forte era mesmo forte, mas naquele segundo parecia mais pequena. Ainda com a face quente e húmida, agradeceu à senhora que fugiu para a porta.

"Mãe," perguntou o Joel. "Ainda estou para casar?" Levantou-se, fazendo força com o braço bom.
"Onde anda a Vera?"
"Oh meu filho... A tua Vera foi-se quando morreste..." e saiu.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

WRITOBER | 2019 | NOVE

Mama, I'm Coming Home

Podia estar noutra realidade ou mundo paralelo, mas o seu sentido de orientação continuava o mesmo. Não funcionava num mundo, não funcionava no outro. E a aldeia era sempre em frente, para lá das piscinas e dos muros de pedra.
Talvez aqui fosse noutro lado. Talvez São Salvador não existisse – a aldeia ou o santo ou qualquer noção de religião. Nah, teria de haver sempre uma religião onde quer que estivesse. As pessoas são demasiado preguiçosas (e covardes) para acreditarem em si ou fazerem o trabalho todo, teriam de rezar a alguém para terem as coisas. Se não a um deus ou a Deus, talvez rezassem a um tamanco para pedirem ajuda para andar.
E estava a perder-se na cabeça e no caminho quando surgiram as primeiras casas ao longe. Se não fosse São Salvador, seria outra aldeia. Se havia casas, havia pessoas e indicações para Viseu. Viseu! O Bernardo tinha família em Viseu... E outro pensamento esgueirou-se até ele, será que havia o equivalente de pessoas? Outra família? Outra mãe e irmão?
E com isso, não deu conta daquela sombra que o engoliu.
Só reparou quando já estava mergulhado na escuridão e olhou para cima para contemplar a nuvem gigante. Mas não era uma nuvem, mas a barriga de uma baleia gigante que o ultrapassou para as casas.
Veio calada, mas cantou quando viu as casas. Um som tão alto e repentino que atirou com o rapaz para o chão. Rebolou sobre a mochila, a cobrir a cabeça e a gritar de volta à monstruosidade que se afastava. Depois passou e deixou-o para trás, deitado na terra como um maluquinho.
Olhou em frente e começou a entender o que era aquilo. Não era baleia nenhuma!, mas já os tinha visto em livros de História ou em Steampunk.

Mas antes de passar as palavras da cabeça para a boca, alguém deu-lhe um chuto na perna.
“O que raio andaste a beber, moço?”
O Bernardo olhou para cima e viu um careca a olhar para baixo. Trazia o braço ao peito e um saco de lona no outro ombro; estava enfiado numa farda um número acima do dele e trazia o nome RIBEIRO ao peito.
Deixou o saco escorregar e estendeu-lhe o braço, e a mão aberta.
“Upa, vamos meter-te em pé.” Mas o Bernardo ainda estava fixado no dirigível que sobrevoava as casas, cobrindo-as com a sua sombra de baleia voadora.
“E nem é dos maiores! Anda lá, tenho a boca seca e quero um bocadinho do que bebeste.”
O Ribeiro alçou-o com tremenda facilidade do chão e o Bernardo sacudiu-se atordoado.
“Desculpa?”
“Estás desculpado! Estás a ir ou a voltar de Salvador?”
“Salvador é ali?”
“Estás mesmo fodido... Há quanto tempo voltaste?”
“De onde?” devolveu o Bernardo confuso.
“De onde? Onde é que serviste?”, mas deteve-se a tempo de ver a confusão a inundar a vista do outro. “Pronto, pronto. Não pergunto mais. Chamo-me Joel. Joel Ribeiro.” Apontou para o nome na farda.
O Joel apanhou as malas do chão e estendeu a do Bernardo que a meteu às costas. Sem esforço, apoiou a sua no ombro são e seguiu sozinho para a aldeia, a arrastar poeira e pedras.
Deu corda aos sapatos e seguiu o soldado que tinha voltado de uma guerra algures. O Joel sorriu-o com amizade e começou a assobiar uma melodia que o Bernardo julgou reconhecer bem no fundo da sua cabeça, mas que não conseguia identificar sem saber que iria ser a sua perdição, maldição e tudo acabado em “ão” mais para a frente na vida.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

WRITOBER | 2019 | OITO

Patati Patata

Foi tudo muito rápido.
Com uma mão ao peito e ergueu-se do chão. Puxou da rapariga pelo braço e amparou-a para o corte junto à árvore, batendo com a porta. Despareceram.

Passou uma hora, controlou pelo telemóvel. Uma hora desde que se enfiaram no túnel. Para poupar bateria, desligou-o e ficaram às escuras. Com as mãos e os joelhos na água, gatinhou à porta e abriu uma nesga para a rua. A lua espreitou para dentro com uma linha de claridade que os dividia. Não a podia ver, mas sentia-a à sua frente.
“Ainda estão lá fora?” perguntou a rapariga a esfregar os pulsos.
“Quem?” respondeu de costas, não vendo ninguém no outro lado.
“Os Braços que estavam atrás de mim!”
“Não vejo braços daqui...”
“E a ela?”
“Ela quem?”
“A Porcelana Branca.”
Pronto, o Bernardo encostou a porta e encarou-a. Mesmo sem a ver, mantinha uma breve memória da sua cara suja. Ali no túnel só a ouvia a debitar jargão, a respirar, a gemer, mas a fazer sentido? Ainda não.
“O que estás para aí a dizer?” atirou, quase a levantar a voz do sussurro. “Braços? Porcelanas? Nada disso faz sentido! Nem sequer sei quem tu és ou porque estavas amarrada!” Depois calou-se e o eco imitou.
A rapariga deixou de esfregar os ombros e olhou na direcção da voz. Ou ele achou que ela fez isso tudo. Ouviu-lhe a língua a estalar com um certo snobismo, mas a voz que ouviu a seguir saía com uma certa maturidade e cada palavra era pesada antes de ser dada. Não sentiu a necessidade de levantar a voz, falou normalmente, seguida de um eco igualmente formal.
“Chamo-me Frederica de... Só Frederica. E tu?
“Bernardo. Também só Bernardo.
“Obrigada pela tua ajuda. Agora, viste alguém na rua?”
“Ninguém.”
“E que sitio é este? Não havia nada aqui quando olhei. Havia a árvore e fui contra ti!” Ele riu-se.
“Desculpa, não era a minha intenção. Também não faço ideia do que seja este sítio. É a minha primeira vez.”
“É uma porta mágica?”
“Tada!” Riu-se novamente.
“Pára!” E bofeteou a água para cima dele.
“Estou a falar a sério! Entrei por ali, vim para aqui e saí por ali. Vieste para cima de mim e aqui estamos. Não sei o que te dizer mais, Frederica.”
“Um de nós por ter-se aleijado...” atirou a rapariga com algum desdém.
“Claro. E se fossem os bracinhos estarias pior.”
Ela chutou mais água para cima dele.
“É mentira? Afinal o que aconteceu? E porque vinhas presa?
A Frederica suspirou e endireitou-se no chão molhado. Depois do que aconteceu, um rabo húmido seria o menor dos seus problemas. Andou com a mão pela água e esfregou-a enquanto se preparava para falar.
“Estávamos a voltar para Coimbra quando os Braços apareceram. A turma tinha ido a Viseu para um trabalho e foi na volta que nos caíram em cima... alguém do nosso grupo abriu a boca.” Ouviu um soco na água.
“Vimos as notícias. Sabíamos que a Porcelana Branca... a Mão...” e no recorte da luz, ela reparou na confusão que pairava no olhar do rapaz. “A Porcelana Branca é a General Taisa, uma das Mãos que lideram os Braços. Sabíamos que ela estava de visita à Universidade de Coimbra.
Todo o silêncio, apenas aquele momento em que ela mexia com a mão pela superfície rasa da água.
“Quando os nobres enviam os filhos para as universidades, eles perdem o tratamento especial e são tratados como alunos normais. Fantástico para exilados e tínhamos alguns na turma, mas hoje fomos parados pelos Braços e vi-a. Ataram-nos e fizeram perguntas.” Parou e ouviu-se o engolir em seco.
“Mas começámos a lutar entre nós. Acho que acharam o traidor, mas não o vi. O Josué disse-me para fugir e aqui estou... Meti-me pelas árvores e só corri quando lhes ouvi os berros e aquela voz horrível dos Braços!
“E a General?” Perguntou interessado depois de fechar a porta.
“Nada...” desabafou a voz incorpórea da Frederica. “Não estaria aqui se a Porcelana Branca me seguisse...”
“Porquê o nome?” sussurrou.
“São títulos que as Mãos têm. De todos, só vi a Porcelana de perto. Tem o nome por causa da armadura que é tão pálida como a sua pele.”
“Não é tão intimidante, pois não?” Comentou.
“Também tens a história que nenhum adversário a fez sangrar.”
“Manda os braços atrás de raparigas atadas e fica a ver. Uau.”
“Ela mata-te antes de a veres.”
“Tá. Histórias.”

Outro silêncio grávido, até que ele se aproximou com um detalhe que andava a remoer: “Disseste Viseu e Coimbra?”
“Disse.”
“Há uma Coimbra e Viseu naquele lado?” Apontou para a porta. “E alguma aldeia aqui perto?”
“Acho que sim? Não sou daqui.”
“Pois, na minha porta também temos uma Coimbra, Viseu e universidades, mas sem nobres. Os que existem são uma anedota.”
E se ele conseguisse ver alguma coisa, veria a cara de choque dela.
“Falam assim dos vossos nobres?”
“Oh, não há outra maneira! Pior são as pessoas que acreditam neles, sério. Já nos deixámos disso há anos. Vivemos numa república democrática, Frederica.”
As mãos da rapariga dispararam molhadas para o pescoço do Bernardo. O rapaz que estava a cuspir na nobreza e a dizer barbaridades como república e democracia. Falharam e arranharam a cara, mas conseguiu agarrar no rapaz e puxá-lo para si. Ele tentou afastar, mas ela era mais forte.
“Repete o que disseste!” Agora sentia-lhe a boca a mexer e toda a fúria e incredibilidade.
“Repito o quê?” Engasgou-se, ainda a tentar fugir.
“Sobre a república e democracia!”
“O que tem?”
Ela atirou-o contra a parede. E saltou do chão, splash splash contra a porta dos fundos. Bang bang! O coração dele e a porta. E chutou-a. Forçou a maçaneta. Splash splash para o Bernardo que já estava mais do que molhado.
“O que estás a dizer... É de loucos. Funcionou?”
“O quê?”
“Tu nem fazes ideia. E eu tenho de voltar.” Parou, girou sobre si, disparando uma onda água para cima dele. “Estou muito agradecida” ofereceu mais calma. “Sério...” e o tom maduro voltou, com um ligeiro tempero a delicadeza.
“Erm, de nada. E eu... tenho de voltar, mas parece que só tenho um caminho agora.”
“Nós os dois só temos um caminho e é em frente. Ouve, Bernardo, vou ter de sair.”
“Para onde?”
“Confia em mim, é melhor não te dizer. O Império não anda à tua procura e tu nem existes ali! Não sabes a sorte que tens.”
“Mas eu preciso de voltar para casa!” Levantou a voz para a sua porta.
“Não te posso ajudar aí, mas posso dizer-te para ires até Lisboa.”
“Até Lisboa...” comentou entredentes.
“Sei de um homem que pode ajudar. Vi-o algumas vezes e tem as paredes cobertas de livros. Um deles pode ajudar. Diz-lhe que vens da Frederica.
“Se a vossa Lisboa ficar no mesmo sítio que a minha, sei ir para lá. Obrigado...”

O par saiu da gruta e a noite tinha-se feito em dia. Não havia sinal de braços ou mãos ou porcelanas. Era um daqueles dias que vinha a seguir ao outro, normal e de trabalho, mas todas as intrigas e conspirações atrás da cortina. E outros mundos com outras cidades e aldeias e livros. O grande astro no céu era cúmplice dos dois e sabiam que ambos tinham mais para partilhar. Por agora, engoliram tudo e despediram-se.
“Toma” puxou-o para si e tomou-lhe as mãos. “As pessoas vão achar que és maluco. Cuidado com quem falas, sim? E se um dia precisares de mim, usa isto.” 
Abriu-lhe as palmas para cima e deixou cair um anel. Era todo azul roubado ao céu, com pequenas gravuras que não conseguia ler. Quando o anel passou para ele, sentiu um choque de tranquilidade que lhe disse que ela não estava a mentir. Ele iria ficar bem e aquela recordação era a certeza disso.
A Frederica voltou a fechar as suas mãos sobre as dele. Sorriu-lhe um sorriso triste que dizia mundos e ele viu-a com olhos de ver à luz do dia. Ela era um pouco mais baixa do que ele, cabelo castanho preso atrás, mas mais desfeito do que outra coisa, e muito sujo. E a cara também, pequenas crostas aqui e ali. E o cheiro...
Afastou-se e correu quando não viu ninguém por ali.

E o Bernardo fechou a porta para o túnel. Para o seu mundo. Olhou em seu redor e não viu piscinas, muros ou casa. Viu a Frederica a correr em direcção às árvores, a desaparecer. Enfiou o anel no único dedo onde cabia; arrumou o canivete no fundo da mochila e ligou o telemóvel que tinha a carga toda. Abriu as mensagens para o seu irmão e releu a última:

Abri a porta. Até já, rapaz. 

Lida. Ao menos isso, pensou. Desligou e atirou a mala por cima do ombro e meteu-se ao caminho, na direcção que julgava levar a São Salvador, a aldeia da sua mãe que não o era aqui.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

WRITOBER | 2019 | SETE

Admirável Mundo Novo


A água dava-lhe pela sola das botas. Não fosse o eco do chapinhar e nem dava por ela, a menos que fosse de mãos e queixo ao chão.
Quando parava, o silêncio ali era absoluto. E aquela escuridão que vinha de todos os lados e o perseguia até à outra porta. Não fosse a lanterna do telemóvel e teria ficado ali a definhar, a beber daquela água.
Então caminhou em frente, um splash a seguir ao outro. Sentiu-a na palma da mão erguida. Esta já era bem sólida.
Passeou a mão pela superfície, por todos as depressões e relevos e pelos detalhes à luz do telemóvel. Apagou-se. Voltou a premir no botão.
A fechadura era igual à da primeira porta e o globo da maçaneta já estava visível. Não tinha de atirar pó ou fazer macacadas para a revelar: ei-la. Só tinha de a abrir.
E tal como a porta do terreno, na aldeia, esta também não ofereceu resistência. 

Clique. E um fio de luz serpenteou pelos recortes da porta, criando-a para a nova realidade onde ia abrir. Se não tinha sentido a ansiedade quando entrou, agora estava a senti-la em duplicado como um marinheiro a dobrar um cabo, como um explorador a desbravar terreno, como uma criança a abrir os olhos pela primeira vez.
Empurrou a porta e assim que a luz da lua cheia o cobriu, deu o seu primeiro passo para o outro lado. Primeiro, o pé direito para dar sorte.

Era de noite. Quanto tempo passou no túnel, perguntou-se. Com lua cheia e milhares de estrelas naquele novo céu; mais do que as que conseguia ver no outro lado. Uma brisa que veio de lado denunciou os ramos da árvore junto à porta. Tinha folhas e flores; aquela árvore estava cheia de vida. E o chão! Não havia terra morta ou cinzas ali, mas relva selvagem que se espelhava em frente. Não havia piscinas nem muros a sequestrar a natureza.
Só depois ouviu o cavalgar das botas no chão e o ofegar de uma besta açoitada. O Bernardo, num misto de curiosidade e ignorância, espreitou pela porta e foi arremessado contra a árvore. O ar que tinha fugiu dos pulmões e as forças desistiram das pernas, caiu de joelhos a tempo de ver a outra figura a rebolar e a bufar.
Num pânico trapalhão cambaleou para a porta, atirou-se para a água do túnel e quando a ia fechar, ouviu-lhe a voz pela primeira vez:
“Desata-me! Os Braços vêm aí!”
E a lua iluminou-a quando se virou, era uma mulher não muito mais velha do que ele. Tinha os braços atados nas costas e a cara borrada de terra e sangue.
“Rápido!” suplicou.

domingo, 6 de outubro de 2019

WRITOBER | 2019 | SEIS

6/10/2019

Break On Through 

“Dormiste bem?” Perguntou o Bernardo ao irmão. 
“O normal.” 
“Não sonhaste com nada?” 
“Capaz. Não me lembro...” 
“Okay...” 

Mais uma vez, ninguém tinha comprado nada para o pequeno-almoço e tiveram de ir à rua. Um café bem cheio e aquela mista.  
Como se iam embora de tarde, o Carlos carregou a mochila para ir dar uma volta pela zona e despedir-se da aldeia. Era tão provável que não voltassem ali tão cedo – ou nunca. 
Ao balcão, um dos velhotes que tinham visto na outra manhã olhava-os com atenção até que decidiu aproximar-se. 
“’Dia! Desculpe a perguntinha, mas não são filhos do António?” 
“Netos!” O Bernardo afastou a chávena do café. “Filhos da Beatriz.” 
“Da pequena Beatriz? Irmã do Daniel? Lembro-me bem! Como estão?” 
“O tio Daniel está na cidade. A nossa mãe faleceu há pouco tempo.” 
O Carlos limpou a boca e o velhote olhou para o chão embaraçado. O rapaz ao balcão continuava a secar a louça.
“É uma pena, uma pena... Os velhos aqui e os novos a ir...” estalou com a língua e voltou para a sua mesa e para o copo. 
O Carlos pagou e saíram para o sol da praça. 

“Carlos, anda dar uma volta.” 
“Muito calor. Vou jogar.” 
“Ficas bem?” 
“Yeap.” 

O irmão mais novo arrepiou caminho e o outro ajeitou as alças da mochila e seguiu para baixo, em direcção ao terreno. Passou pelos muros, pelas piscinas e pelo portão de grade do descampado. Olhou em volta, não havia ninguém por ali ainda. 
Acelerou em direcção à cerejeira velha e observou a sombra da árvore. Depois lançou-se à terra como um cão e atirou pó ainda misturado com cinzas pelo ar. Pouco a pouco, a porta voltou a aparecer com detalhes e relevos. Por fim, a fechadura – mas sem maçaneta. 
Quando acabou já havia gente nas piscinas. Não tinha dado pelas horas, mas já se enfiava lá dentro para se limpar. Sacudiu o pó da roupa e limpou a testa com as costas da mão esquerda. 
Ali estava ela, a fechadura, mas nenhuma maneira de abrir a porta. Com cuidado para não sacudir a porta, esticou o braço para baixo e apalpou o nada. A mão fechava-se sem agarrar nada. Levantou, baixou, para a esquerda. Nada. Ajustou à direita, um bocadito mais acima e a palma sentiu o frio do metal e fechou-se à volta de uma pequena esfera.  

Boom boom boom 

Virou-a e cedeu. A porta abriu e deslizou para si. 
Estava cada vez mais difícil respirar e o peito estava tão pesado. As mãos tinham correntes enroladas e ele nem conseguia dar um passo para a frente... ou para trás. 
“Que caralho estou a fazer?” 
Largou a porta. Não dava para ver nada para dentro. 
Tirou o telemóvel do bolso e apontou a lanterna: havia outra porta no final do túnel, que nem era assim tão longo.  
Abriu o chat com o irmão e escreveu: 

Abri a porta. Não te preocupes. 

Apagou. 

Abri a porta. Volto já. 

Apagou. 

“Nem uma mensagem consigo escrever!” 

Abri a porta. Até já, rapaz. 

Deu um passo em frente e o sapato aterrou com um ploc. Depois o outro. A porta fechou-se atrás dele com um clique e com o contorno de luz a desaparecer, deixando-o na mais completa escuridão. 
Ele estava bem. Pensava que ia ter medo ou que a ansiedade o fosse comer, mas sentia-se bem (?). Leve (?). A última vez que se sentiu assim foi quando a médica das urgências o fez sentar para a notícia: Fizemos o possível para a reanimar, mas chegámos tarde demais. 

Sim, ele ia ficar bem. 

sábado, 5 de outubro de 2019

WRITOBER | 2019 | CINCO

5/10

Consegues Ouvir a Chuva?

Os corpos jaziam à chuva. Alguns a segurar nas entranhas, com aflição; tanto sangue derramado na lama.  
Uma mulher caminhava solenemente por entre os soldados. O cabelo louro sujo, entrelaçado às costas e empapado. A capa colada à armadura branca. Puxou da lança para cima e encravou-a na cabeça de um soldado. A mulher girou a arma com gozo. Faltava-lhe um dedo na mão esquerda. 

 Que dia.
A casa estava em silêncio e o Bernardo estava às voltas na cama. Há muito que o irmão tinha apagado, mas ele não conseguia pregar olho. A cabeça estava a ali e noutros lados: as cinzas da mãe, a porta à sombra da cerejeira velha... 
O Carlos escavou a terra e arremessou-a. Não estavam a imaginar: estava mesmo ali uma porta. E quando tentaram tocá-la, as mãos passaram para o nada. Sacudiram o pó e a porta desapareceu.
Voltaram a casa. Comeram. Discutiram o que viram e passaram o resto dia assim, num misto de curiosidade e de ansiedade, embora nenhum o quisesse admitir. E quando passavam pela janela, olhavam de soslaio na direcção do terreno.

Na cama, o Carlos adormeceu como sempre. Se o sono era uma porta, a dele estava sempre aberta. O irmão mais velho continuava a virar-se, a olhar frustrado para a sua porta do sono sem saber o que a mantinha fechada.
Estava a acontecer algo no outro lado. 
Ouvia a chuva quando não chovia na aldeia nem em lado nenhum. O vidro estava seco, mas no outro lado da sua porta, a chuva batia com intensidade.
Enfiou a cabeça na almofada para abafar o ruído de fundo.
Passos. Alguém estava a caminhar pela casa, em cada quarto. O Carlos..., mas ouvia-o a roncar no outro quarto. E aqueles passos pareciam ensopados. No canto da mente, o fragor crescente de um tambor de guerra confundiu-se com as batidas do coração. E depois viu os vultos, pequenas sombras chinesas sentadas, a falar e a rir. E outros a aproximar. Boom, boom, boom. 
Cobriu os ouvidos e o cansaço venceu.

 Num outro lado da porta, um jovem soldado levantou a cabeça quando a primeira gota caiu. Outra gota na folha de papel. A carta já tinha dois borrões de tinta como uma cara chorosa.
“Outra noite fantástica” comentou o camarada encostado às suas costas. “Chuva!”
“Gostas mesmo de ensopar, tu.”
“Arruma lá isso ou não te dão mais papel.”
“Tá, tá.” O rapaz enfiou a folha dentro da farda e ajeitou o impermeável. Tirou umas bolachas do bolso e tirou duas. Deu a segunda ao companheiro.
“Vai ser uma foda ver alguma coisa.”
Olharam em volta só para dizer que o fizeram. Não acontecia nada no acampamento que levantasse suspeitas. Havia mais vigias espalhados, mas o resto do pessoal estava nas tendas. Havia gente na tenda da messe, nos rádios e no comando, mas só aqueles dois estavam por ali.
“Ainda tens o feijão? Molhava a bolacha com uma pinta...”
“Ná...” respondeu a mastigar.
“Há meses que andamos na pasmaceira. Achas que os Braços vão atacar?”
“Ná...” mastigou o resto. “A frente não os vê há semanas. Recuaram. Com sorte, aqui só apanhas uma gripe.”
“Foda-se, era de maneira que me recambiavam para casa!”
Riram-se. O soldado guardou o papel das bolachas no bolso e cobriu a cara.
“Queria acabar de escrever isto...”
“Amanhã... Dormes primeiro? Eu aguento por aqui.”
“Se fizer o favor, fecho os olhos um bocado.”
“Boa noite, meu lindo” roncou.
Adormeceu um. Não demorou até adormecer o outro.
Os dois soldados – duas crianças - estavam cá fora. Às escuras e com uma chuvada que varria o acampamento como uma cortina de ferro. Se alguém visse um palmo à frente, era um sortudo. 
Um deles tinha uma carta escrita até meio, enfiada na farda. Húmida, mas não destruída. Ainda dava para terminar. Juntaram os impermeáveis que já tinham desistido de os manter secos e dois saberes estavam estendidos às pernas. Eram os piores vigias, mas também... quem os podia culpar naquelas condições?
As árvores cediam ao peso da chuvada. E o guincho do vento abafava os passos das sombras que corriam de tronco em tronco. Havia um ditado que as pessoas ignoravam: quando o mar recua não significa segurança, mas um maremoto. E a noite desabou com uma onda. Saíram das árvores e caminharam para as tendas em silêncio. Podiam ser apenas Braços, mas havia Cérebros com planos e estratégias. E uma Mão a liderar. A General Tasia cabeceava os Braços, ignorando a tempestade porque trazia outra consigo. Lança em riste na mão com todos os dedos. Olhos fixos nos dois vigias inúteis.
Quem viu combate e voltou para se perder na bebida, contou a mesma história de sempre: os Braços não eram soldados comuns. Alguns juravam que nem eram humanos, mas o bafo a álcool tirava-lhes a credibilidade... 
O que quer que fossem, caíram sobre os desprevenidos e varreram as tendas, não deixando nada ao acaso. Um pobre que tentava não escorregar na latrina fora trespassado pela porta e deixado cair na merda.
Os olhos atentos de Tasia observavam a violência com total serenidade. Os seus Braços estavam quase a acabar por ali, mas havia muito trabalho pela frente. Continuou a andar pelos cadáveres, alguns gemiam e chamavam por nomes. Chutou um braço que se prendeu às botas e estacou junto a dois soldados tombados. Um deles rangia os dentes, com o sabre entre as mãos flácidas. A Mão puxou da lança para cima e cravou-a no peito da vítima, que se engasgou no seu sangue. Puxou-a para si e deixou a chuva escorrer o sangue.
Quanto terminou, tinha os vultos brancos dos Braços a aguardar. As gotas a ricochetear nas armaduras ensanguentadas.

Tal como apareceram, desapareceram nas árvores.

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