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sábado, 6 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 6 | Senhor Vinho

Leandro
Évora
Noite

Vamos entrar no Solar do Templo, onde a festa começou atrasada e não tinha indícios de terminar.
As quintas eram bons dias para os patronos do Solar. Se aguentassem a noite, fechavam com os bolsos cheio. A tuna podia ser barulhenta e trazer o Inferno à terra, mas comiam bem e bebiam melhor. Já faziam parte da mobília, tanto que quando reservavam, os empregados organizavam as mesas em U para os cabeças da trupe terem lugar de destaque.
No entanto, enquanto que as travessas de carnes voavam da cozinha para as mesas e a bebida desaparecia magicamente sabe-se lá para onde, havia um lugar vazio entre os excelentíssimos. O Dux tinha abandonado a festa há quase cinco minutos para calar o telemóvel.


“Estou com a mãe no hospital. O pai morreu.”
“Como?” Perguntou o Leandro.
“A dormir. Uma enfermeira ficou na sala até adormecerem e na hora do jantar, já tinha ido.”
“Como é que ela está?”
“Oh, já estávamos à espera, mas está triste. E tu?”
“Não sei. Normal... ‘Tás fixe?”
“Cá estou. É o que disse, mas vamos ficar bem. Vens cá?”
Houve uma pausa na chamada.
“Sim. Só por vocês...”
“Ela vai gostar de te ver.”
“O que ela está a fazer?”
“Está ao telefone. Já está a tratar das coisas.”
“Vai ter com ela. Vou acabar aqui para ir cedo amanhã. ‘Txau”
“Até amanhã. Liga se quiseres.”
“’Tá. Obrigado. Vocês também.”

Enfiou o telemóvel nas calças e deixou-se tombar contra a parede. A noite eborense estava um pouco abafada, mas não era isso que o impedia de trajar e ter várias camadas de roupa em cima. Esfregou a careca e coçou-a. Percorreu os botões da camisa e quando ia abrir o de cima, hesitou e coçou a barba loira.
Recuperou o telemóvel do bolso e marcou. Levantou a câmara ao nível da cara e esperou que o vídeo ligasse, mas chamou, chamou e chamou. Quando o correio de voz falou, desligou logo. Voltou ao bolso.
Tinha as mãos apertadas em punhos, com as unhas a cravar na pele. Lá dentro a festa continuava como se nada tivesse acontecido e a música ébria embalava os mais fracos. Precisavam que alguém os chamasse à atenção para espevitarem. Assim que voltasse à mesa, iam ver. Iam cantar, dançar e saltar do sono. Podiam dormir quando morressem como o outro.

A porta abriu-se e dois rapazes sem traje saíram. Um deles acendeu um cigarro e dançou uma jiga com o amigo a rir. Estavam bonitos, aqueles.
“Caloiros” chamou o Leandro que se aproximou.
“Dux!” O rapaz do cigarro atira-o para o chão e esmaga-o. O outro mete-se em sentido e não sabe porquê.
“Népia, népia. Aqui estamos entre amigos.” O careca barbudo aproxima-se da luz do Solar e coloca os braços por cima dos ombros dos rapazes. “Preciso de um favor. Acabei de receber umas notícias que nem sei se são boas ou más.” Riu-se para um deles.
“Estou uma beca fodido do vinho e preciso de clarear as ideias.” Os outros riram de volta. O Dux largou-os e procurou por algo no bolso do casaco. Levantou a carteira à luz e tirou duas notas de vinte.
“Vinte euros para cada um se me fizerem este jeitinho. Quero que me dêem dois socos nas ventas. Dez euros por cada sopapo é dinheiro fácil! Han?” Abanou as notas no ar. Os rapazes entreolharam-se um bocado parvos, metade já tocados, mas conscientes que aquilo era um grande não.
“Dux?”
“Não. LE-AN-DRO. E vocês?”
“José.”
“Mário”
“Zeca e Mário. Zeca, tu tens bom corpo. Vens primeiro, vá.” Voltou a sacudir a nota no nariz do caloiro. E não é que aceitou? Puxou os vinte euros com a mão esquerda e chicoteou a direita contra a bochecha do Leandro.
“Uf! Porra! OK, mais um, mais um! Caralho, tinha razão, és pedra!” O outro soco rasou o queixo, mas o suficiente para o Dux girar sobre os pés contra a parede.
“Filho da puta de murros. Não quero ser nada teu inimigo.” Esfregou o queixo e cuspiu um fio de gosma e sangue. “Vá, Mário, vinte euros, amigo.”
“É melhor não. Aqueles já foram suficientes, não acha?”
“Mário?”
“Não tenho razões para lhe bater.” O Dux salta da parede para a frente do rapaz.
“Eu não te pedi uma razão. Pedi-te um favor e tu recusas.” Apertou a nota e fez um punho que empurrou contra a testa do Mário. Cambaleou para trás e ia caindo se não fosse o Zeca.
“Dez euros já se foram. Zeca, dez euros? Dá-lhe um dos teus.” O Zeca amparava o amigo e fitava o Leandro. A música do interior cumpria o dever de banda sonora daquela cena de filme de série B e ninguém parecia ter reparado. “Também mo vais negar? Não peço muito. Um murro e voltamos para dentro.”
O Mário endireita-se e prepara-se para desferir um murro, mas o outro desvia-se.
“Não, aprende a ouvir. Tiveste a tua chance, perdeste-a, agora é a vez dele.”
O amigo recolhe o braço direito e soca-o no ombro. Um compromisso menos doloroso que a cara. O Leandro entendeu a boa acção e riu-se. Rasgou a nota de vinte euros e atirou as duas metades para cima dos rapazes.
Voltou-se, ajeitou a capa ao ombro e voltou para o Solar do Templo, deixando os caloiros no passeio.
A festa continua.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 5 | Outro Dia ao Sol

Cátia
Intercidades a caminho de Santa Apolónia 
Tarde

Ninguém a podia culpar de ser parecida à Kate Bush e não se aproveitar disso. A genética é engraçada, e quando funciona, funciona muito bem. A Cátia não só parecia a Kate como mantinha o cabelo igual à fase The Kick Inside; usava vestidos compridos e soltos e era uma pessoa com bastante energia. Só não cantava. A voz roubou-a ao pai, grossa e com um lindo sotaque açoriano. 
A Cátia saiu da terceira ilha para ir passear ao Continente antes de se decidir por um caminho universitário - o pai dizia Arquitectura; a mãe dizia Direito. A Cátia sonhava com Cinema, ou Teatro; ou Dança; ou Letras... O cabeça fantasiava com muitas coisas e vai daí, decidiu tirar um gap year, passar uns tempos com os tios na Guarda e visitar algumas universidades. Ou, então, trabalhar e ficar por aí. 
O dinheiro não era problema, mas sim tomar decisões. 

Naquele dia estava a viajar até Lisboa quando o destino lhe deu um toque no ombro. E outro mais forte que a assustou. 
As mãos correram sozinhas e atiraram o tablet ao ar e depois ao chão, arrastando o fio dos auriculares e o coração atrás. Voltou-se para a voz e sorriu quando encontrou o velhote. 
“Desculpe” disse-lhe, “mas está no meu lugar.” 
“Oh! Como estava sozinha quis vir para a janela.” Apanhou o tablet e o cabo e ia saltar para o seu banco quando o homem a impediu. Sentou-se ali mesmo e ajudou-a. 
“Deixe-se estar. Assim dá para esticar as pernas.” Esfregou-as e encostou-se às costas do assento. Quando abriu os olhos, a Cátia mirava-o atenta. 
“Sou a Cátia e tu?” Apresentou-se. 
“Trata os mais velhos assim, menina?” 
“Não és assim tão velho. A vida é muito curta para cocozices. Também não trato os meus pais por você.” Incrível como conseguia debitar tanta palavra por segundo sem vir à tona respirar. O Augusto pesou os argumentos da moça e concluiu que ela não tinha dito nenhuma mentira. 
“Augusto.” A Cátia esticou a mão que o velho aceitou. “Que estava a ver aí?” 
“Trata-me por tu, Augusto. Já tenho idade para ser a tu filha. Estava a ver o La La Land. Conheces?” 

C’um caraças! “Certo! Desculpa lá. Não, não conheço.” 
“É um musical. Duas pessoas gostam uma da outra, mas não ficam juntas. É muito bonito.” 
“E o que tem isso de bonito?” Perguntou o Augusto um pouco chocado com a noção de beleza da moça. “Se gostam uma da outra, devem ficar juntos.” 
A Cátia abriu a boca, mas fechou-a logo. Abriu-a de novo quando tinha a certeza do que dizer: “Às vezes o coração quer, mas a cabeça não. Não naquele momento ou naquelas circunstâncias. Duas linhas paralelas.” Ergueu os dois indicadores. “Correm lado a lado, mas nunca se encontram.” 
“O que acontece à outra linha quando a outra desaparece?” Perguntou o outro. 
“Continua até desaparecer. É essa a beleza da tragédia: continuar apesar de tudo.” 

O Augusto voltou-se para o corredor de olhos fechados e focou-se em alguma coisa para lá das janelas. 
“O que vais fazer a Lisboa?” Ela tentou recuperá-lo, mas ele respondeu sem se voltar. 
“Despedir-me de alguém.” 
“Vai viajar?” Ele riu-se. 
“Digamos que sim. 

Calaram-se por uns minutos, mas ele ainda lhe sentia o olhar estudioso a queimar a mente. Curiosa, ela. 
“’Tá bem. Vou contigo.” Han? “Não conheço Lisboa e sinto que não estás bem. Ajudas-me a mim. Ajudo-te a ti.” 
“És tola. Nem me conheces.” 
“Temos tempo até lá. Começas tu ou eu?” 
“Os teus pais não te ensinaram nada sobre estranhos?” Ela acenou que si e sorriu um sorriso rasgado. 
“Tu não és um estranho.” 

A Cátia desligou o tablet porque já tinha visto o La La Land umas dez vezes ou mais e enrolou o cabo. A vida não é um filme, ela sabia, mas às vezes encontramos pessoas com enredos dignos de um Oscar bait. Ela tinha encontrado o Augusto e estava decidida a descobrir que género de filme seria ele.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 4 | O Bitoque Perfeito

Augusto
Nelas 
Almoço - Tarde

O velho desceu na estação de Nelas às cinco para as treze. Estava agasalhado com um sobretudo de lã castanho; uma camisola térmica de desporto branca e umas calças de bombazina beges por baixo. Sessenta e seis anos não é bem velho, mas é a caminhar para lá e as trincheiras na cara davam-lhe ainda mais idade. E o tabaco. E a bebida. 
O Augusto enfiou a mão trémula no bolso direito e tirou um maço amarfanhado de SG Ventil, prendeu um cigarro entre os lábios e raspou a cabeça de um fósforo. O comboio afastou-se com a cacofonia do metal velho a arrastar-se. Expeliu o fumo para o ar da estação vazia de Nelas e seguiu em frente, rua acima, na direcção do restaurante Pa’Nelas. 

Ainda não havia muita gente para almoçar, pelo que não foi difícil arranjar uma mesa à janela. Não quis a carta, pediu logo um bitoque à casa e um jarro de vinho. Ele estava numa missão: encontrar o melhor bitoque nacional ou um bitoque que fosse melhor do que o do amigo. 
O amigo e ele tiveram um restaurante junto ao castelo, o Tropa, onde cozinhavam o melhor bitoque de Lisboa e arredores. Liam o cliente e preparavam o prato à sua medida – nunca era igual. As pessoas iam lá pela curiosidade do feito e pelo sabor da comida. A vida aconteceu e o Augusto saiu. O amigo continuou. Agora, este estava para morrer ou já o tinha enquanto almoçava... 
O Pa’Nelas foi enchendo enquanto esperava pelo almoço, com o pessoal trabalhador a ocupar as mesas e a sentar-se ao balcão. O bitoque chegou com o vinho. Começou por observar o prato de barro com o bife aconchegado pelas batatas, picles e o copo de arroz. O ovo a cavalo ocupava o bife quase todo, mas só havia vestígios de um molho. Franziu o nariz. Inclinou o bife para lhe ver o rosa, pelo menos estava mal passado. 
Comeu com um desinteresse silencioso, apenas levantando os olhos para as notícias, mas eram só desgraças como um vigilante a matar que matava padres. Voltou a atenção para as paredes do Pa’Nelas e para a poesia taberneira. 
Comia e comparava: o sabor podia estar melhor; o arroz podia ter mais sal; as batatas podiam ter fritado mais tempo e o molhou secou rápido, mas a carne estava tenra. O vinho era carrascão, mas cumpriu o dever de empurrar tudo para baixo. Já tinha manjado pior, mas teria de continuar à procura. 
Pediu a continha e a bica. Atentou na sinfonia familiar, nos clinques dos talheres na porcelana e no vidro; nas vozes misturadas com o mastigar e nos risos. O empregado, de camisa branca e calças pretas, chegou com o café e a conta - bebeu-o devagar e virou o recibo ainda mais devagar. 
Até se come barato na Beira, pensou. Antes de pagar, tirou a caneta e o bloco do sobretudo pendurado nas costas da cadeira e escrevinhou: Aqui pode comer / E até se come bem / Amigo não fia amigo / Não tem dinheiro, peça à sua mãe. 
Pagou a mais, puxou do segundo cigarro e desceu pelo mesmo caminho até à estação. Eram quinze quando chegou o seu. 

Subiu as escadas, passou pela casa de banho no fim da carruagem e avançou pelo corredor, a contar os lugares. Chegou ao 24 e viu-o ocupado por uma moça mergulhada num ecrã portátil. Chamou-a. Quando não respondeu à segunda, tocou ao de leve no ombro, mas bem que a podia ter sacudido porque a miúda ia morrendo de susto. Atrapalhou-se com o ecrã que caiu, com o fio dos auriculares atrás. Saltou no lugar e encarou o velho. Respirava rápido, mas rapidamente vestiu um sorriso. Parecia bastante nova, mas o Augusto reparou no brilho dos olhos que só as gentes velhas tinham. 
“Desculpe.” Disse embaraçado, “mas está no meu lugar.”

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 3 | O Dragão Lusitano

Jordão
Lisboa

Tarde

Porque tatuam?

Gostam da arte? Sentem que ficam mais badass com o corpo marcado? Acham que cada tatuagem tem um sentido ou emoção ou memória?
Talvez a dor lhes dê prazer - também há pessoas assim. A sensação da agulha a penetrar na pele, a rasgar e a sangrar. Hum, até senti um arrepio...
Também acho que tem o seu quê de erótico.
Se Freud tatuasse, teria bastante a dizer. Mais, teria uma daquelas tatuagens a dizer “AMOR DE MÃE - 1930. Logo abaixo teria uma sleeve com uma tese de doutoramento sobre o significado.

Depois temos o Jordão e os seus clientes...

“Mano, tu queres onde?!” Houve ali aquele riso de embaraço e a voz a falhar. Se metessem pausa, viam o cérebro a saltar de incrédulo para alguém que estava a ouvir a melhor anedota do mundo. Só que não.
“É isso mesmo, Jordão! Na pila!” Há algo de surreal quando ouvimos o nosso nome e pila na mesma frase sem conotação sexual. O cliente apontou para as calças e o Jordão quedou-se. O homem era estupidamente belo com uma crina loira, escorrida pelo ombro direito; sobrancelhas e goatee a condizer; um nariz e lábios de estátua grega. Vestia umas calças de ganga gastas e uma t-shirt lisa, com um blazer da moda por cima. O tatuador sentou-se. Devia estar todo fodido quando aceitei.
“Ouve, quando li um dragão enrolado no membro... Pensei, sei lá... No braço. Ou na perna!” Uma valente dose de adrenalina percorria-lhe o corpo. Se tinha de ser profissional, queria mandar grande what the fuck para a sala. Tinha de deixar de fumar ao lidar com clientes...
“Nada disso, Jordão. Teria logo dito braço ou perna, não era?” Por sua vez, o tom do cliente era sério e nada condescendente. “Eu gostei do teu trabalho e quero que sejas tu.”
“Agradeço a honra, mano.” Agradeço? Parou para considerar o elogio. “Mas porquê?” E deixou o porquê pairar na conversa.
“Jordão,” não me gastes o nome... “Quero expandir a minha imagem. A minha marca. Quando fizemos a primeira, ainda só fazia amadores, mas agora?” Esfregou as palmas da mão com ansiedade, “vou filmar no estrangeiro! E fazes lá ideia do quão fodida é a pornografia lá fora. Eu quero ser a próxima Fontes!, mas em homem!” E abriu as mãos no ar para desenhar um cartaz invisível, “quero ser: o Dragão. Lusitano!” Sublinhou cada palavra.
Ai que caralho... só me sai merda na rifa, chorou uma lágrima por dentro.

Até as paredes do estúdio estavam caladas, mas sentia os olhares do pessoal colados às costas.
Suspirou, “Vai ser mais caro...” e assim talvez desista.
“Seja! Pago o dobro! Tenho um maço no bolso e não é só por estar contente!” Pontuou com um sorriso Colgate.
“Depilação. Doenças. Limpeza...” Nesta altura já estava na fase de aceitação.
“Feita. Saudável e com atestados. Limpinho, mas posso limpar mais.”
“Vamos lá para trás, então. Deita-te e tira as calças.”
“Obrigado, Jordão.” O homem passou pelo tatuador e apertou-lhe os ombros. “Prometo que não olho nos olhos. Só em trabalho.” E uma gargalhada explodiu atrás deles, mas morreu logo.
Ficou sozinho, passou a mão pelas rastas e bufou. Vamos a isto. Quando se levantou viu os colegas em sentido, mas vermelhos de prenderem o ar. 

Que imagem bonita: o actor porno com ar de quem tinha criado uma startup, com aparência de quem bebia café to go e comia bagels. E o tatuador negro, com rastas pelos ombros, polo da Lacoste e calças cargo; tatuagens a cobrir os braços e que gostava de fumar a sua. Um quadro à espera de pincel. Já o Jordão...

terça-feira, 2 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 2 | Bonjour! Bonjour!

Mariana
Seixal

Fim da tarde


A miúda voava pela casa porque já estava atrasada. Encontrou a carteira no móvel e vasculhou-a para ver dos bilhetes e do passe. Saiu logo disparada prédio abaixo. 
Sair à rua era como na Bela e o Monstro: os vizinhos paravam para a cumprimentar, acenar e sorrir. Ela nem cinco minutos aguentava sem a resting bitch face dar um ar de sua graça. Ela é tão linda, lamentavam. Devia sorrir mais... 
A Mariana era adorada no prédio, conheciam-na na rua e em mais algumas casas à frente. Vá, também tinham pena dela. E tinham medo da avó Quicas. 
Só que a Mariana não queria responder nem cantar! 
Ela era só uma miúda normal. Estudava medicina; tinha namorado e a avó Quicas. Pintava o cabelo de ruivo e cortava-o sozinha, aprimorando na franja. Nariz levantado, olhos grandes e uns lábios finos que desapareciam fechados. 

A sua cabeça estava em todo lado, atrasava-se e perdia transportes com frequência. Agora corria rua abaixo para apanhar o barco; entrou no cais, já a sirene anunciava o fecho da cancela. Deslizou e continuou pelo pontão até mergulhar no barco. Apanhou-o mesmo à justinha! A vida dela era uma colagem de episódios “mesmo à justinha” que davam um filme de aventura cheio de adrenalina. 
Chegou a Lisboa e foi à sua vida. Queria apanhar a abertura do recinto e arranjar um bom lugar na grade, mas quando chegou apanhou foi com a fila. Meteu-se atrás de um rapaz de camisa e mochila, mas os pés quiseram meter conversa com uma pedra solta no chão. Ele virou-se de repente e ela foi obrigada a interagir. Na boa, respondeu o tipo. 
A Mariana cortou logo e sacou do telemóvel. Ele ainda olhou mais uma vez. Ela ignorou-o. Era perigoso quando falavam com ela porque ela não queria – Ela não podia responder. 

Não desde o acidente. Não o dela, mas o dos pais. Foi o cliché: condutor embriagado adormeceu a conduzir e levou o carro dos pais à frente. Foram-se logo ali e, com eles, a voz da filha passado um tempo. 
Perdeu o sorriso e emudeceu de vez. Depois, quando quis, puf, não conseguia falar. Como aquela cena no Sozinho em Casa 2 em que o Kevin passou tanto tempo sem usar os patins que quando os quis usar, já não serviam. Sumiu no ar num fio de fumo de um fósforo queimado. Isto quê? Há três, quase quatro anos. 

As portas não demoraram a abrir e a fila escoou. O rapaz desapareceu para um corredor e ela misturou-se com os grupos. Menos um problema.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 1 | Vai. Não Vai

Estas histórias passam-se em Portugal, mas certos estabelecimentos, locais, pessoas, organizações e eventos são fictícios. Não fiquem engatilhados com quaisquer semelhanças! 

Diogo
Montijo
Fim da tarde

Duas horas para sair de casa e ele já estava a fritar.

A ansiedade é uma Caixa de Pandora. Abre-se e as vozinhas cheias de mimimis não se calam. Vai correr mal, não saias de casa, quem é que se importa que vás? Uma pessoa cede. Se bem que no meio daquele negativismo, há a tal voz da esperança que tenta contrariar as outras com razão. Não vai nada correr mal, vai ser divertido, vais ver! Estavas à espera disto há meses. Essa é a pior voz. 

O Diogo transporta a caixa na mala. Mostrou-a à psicóloga e perguntou porque é que as vozes negativas são sempre as mais altas e não o contrário. Bem, respondeu-lhe, é uma questão de exercício mental. Vamos lá chegar. E ele tinha os seus rituais, o exercício físico e mental e uma dose de masturbação no duche para aguentar mais um dia. Funcionava q.b.

Hora e meia.

Saiu do banho, secou-se, e puxou o cabelo negro para o lado. Calças de ganga, camisa cinza enrolada nas mangas e dentes lavados. 
O Diogo tinha 30 anos que lhe fugiam. Cabelo negro, com pinceladas prateadas nos lados; nariz comprido e lábios finos sempre abertos a palrar. Enfiou-se nas botas sujas, atirou os lenços para a mala e a caixa da consola. Garrafa de água e tampa extra porque os seguranças temem atentados com água do Luso e bolachinhas salgadas. Ah, trocos para a cerveja – O kit de concertos do Diogo.

Vinte minutos para sair. 

Tirou a consola da mala para matar tempo e para calar os sussurros.
Jogava bastante, adorava histórias e o seu género favorito eram os RPG japoneses com enredos demasiado dramáticos para o seu bem; personagens carismáticas e situações impossíveis, onde o fim do mundo era tão habitual como pedir um pastel de nata com o café. Era um vira o disco e toca o mesmo, mas quando se gosta de arroz não se come apenas uma vez na vida, mas as vezes que nos apetecer e com várias combinações. E aquilo era o sustento da alma.

Estava na hora. 

Saiu de casa, apanhou o autocarro e depois o barco. Quando deu pela realidade, a outra margem estava a aproximar-se. Focou-se no vidro sujo e estudou, no reflexo, as pessoas naquele primeiro andar do barco. Depois, perdeu-se de novo. A rampa bateu no cais e despertou de outro sonho com laivos de heroísmo.

Até ao Campo Pequeno só mudou uma vez de linha e saiu na Azul. Fez o resto a pé para engonhar um bocado e quando lá chegou a fila ainda estava a crescer.
Estacionou atrás de uma moça com auscultadores maiores do que a sua cabeça e observou-a. Tinha um livro de capa negra na mão, um dedo enfiado nas páginas e o telemóvel na outra. Trazia um vestido verde simples e cabelo apanhado em dois rabos-de-cavalo. Reparar em mais era sinal de que estava muito perto.
Recuou e sentiu um choque na canela. 

Virou como uma mola e viu a pedra no chão e a rapariga que a tinha disparado. Vinha a correr e parou mesmo atrás de si. A boca dela desenhou um desculpa silencioso, mas sem arrependimento e ele mostrou as palmas das mãos em paz. O tanas porque doía. Virou-se, julgou-a rápido e voltou-se. Girita, admitiu. Está é no concerto errado, também concluiu pela t-shirt dos Joy Division quando eram os The National naquela noite.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

The Imitation of Life?

 ...or how to get a zero!

Photo by Adventiciis


So, we all know life imitates art and sometimes art do imitate life. I call this the Imitation of Life! 

Have you wondered or woken up one day to find yourself in the middle of your life? Like a movie opening and the world is already established, characters already exist and all. Their plot is already written out and no matter how - no, scratch that. They can pull a Truman Show and quit their story lines. 

What about us? We can't remember how our movie began, but the world was already plotted out. Populated by extras, supporting characters and us, the main character. 
We follow our story, but is it set in stone? This script - this badly non-edited script. We can try to ad lib it, we can try to pull a Truman, but in the end... in the end we must follow it through. 

There is one aspect that I wished life would imitate art: sound track. 
Like that first kiss, first time making love, first time getting into a fight, the death of a loved one, that inspirational fuck yeah riffs of a guitar, or the complex staccato of the rain while we reflect on our stupid mistakes. 
Yeah, mistakes. We have only one shot at this little thing called life. No cuts and another take. One shot. One opportunity. Think about this for a second, will you? When you paint, the first one is always the original, the one-million-dollar Louvre painting. The other are replicas. 
In a way, art only gets one shot at being art. The other are fakes. We aren't even allowed to have fakes! Or do we? 

What if anytime we take a left turn, there's a copy of us - in an alternate universe that goes right. A deleted scene kind of way. But we'll never see it. 
Although, if you pay close attention to the little voice inside your head, the Director/Conscience, sometimes it tells you: dude, go left, go left. That Jiminy Cricket inside of you. 
And sometimes you do see the scene like you played it out before. The failed negative of your past takes. Yeah, yeah, it could be a deja vu as well. it shouldn't happen! Why did it happen? Your guess is as good as mine. So, pardon my rambling. Where am I getting to? Precisely. You can't even remember the beginning of this monologue! But to sum it up: art; life; it's all the same. No imitation here. One is a face of the same coin. Which means, you are a piece of art. And you are beautiful. And unique.

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