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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

WRITOBER #26 - Killing Me Softly

NicholasKay

Ele abriu os olhos para uma nova existência de dor e confusão. O silêncio era ensurdecedor, a cabeça latejava e o peito queixava-se a cada movimento. Havia uma extensão de cinzento à frente... na direcção que ele julgava ser frente. Afundou as mãos junto ao corpo. Era suave, prendeu dedos nos lençóis e empurrou-se para cima. Era como sair de areias movediças. O choque da dor percorreu-lhe o corpo e o cérebro e esmurrou-lhe todos os nervos.
Berrou. Não havia eco. Estava sozinho. Às tantas o silêncio transformou-se num murmúrio mecânico e o cinzento explodiu em várias direcções, em paredes e num tecto. Continuou o esforço e sentou-se numa cama, contra a parede. Melhor, pensou. Nu, com o cabelo longo preso num elástico e por tratar. Não se lembrava do último banho. De facto, não se lembrava de muita coisa. Ele tentou até reparar na mão direita enfaixada.

Sabes que não o podemos matar! E uns dedos? Suponho que ninguém daria pela falta. Apenas as mulheres! Ah ah ah. Matas-me. Fá-lo, mas não mão direita.

E ele uivou de dor.
O choque da recordação não facilitou a enxaqueca. A luz no quarto nem estava muito forte, podia ver bem onde estava e descortinou uma mesa, cadeira e um jarro de água - mais nada.

Olha-me para este merdas a morrer aqui. Mija-lhe em cima para acordar. Bom dia, querido! Pequeno-almoço na cama? Claro! Primeiro falas.

Quente, a colar, a cheirar mal.
E falou? Contou-lhes acerca da mulher? O que ela fazia ou tinha de especial? A sua localização? Nem pensar, anos de experiência e aquilo não era nada. Amadores.

Entre as unhas! Assim não deixa marcas. Segura-o, porra! Isso, a ver se este gajo fala. Oh não, não, princesa. Onde está a mulher?

Urrava, esperneava e rangia os dentes até sangrar.
Partes do corpo sentiam a dor fantasma do passado. A memória é uma coisa tramada: estamos "bem", mas lá vem uma onda que nos enrola e nos deixa encharcados de recalques dolorosos. Estremeceu e até o gesto lhe foi doloroso.

Talvez isto te abra a boca. O corpo desobedeceu-lhe e dançou freneticamente ao sentir as serpentes dos choques a enrolarem-se aos membros. Sentiu-se quente, estranhamente confortável. Olhem para isto! O bebé fez asneiras nas calças. Pareciam hienas a cacarejar.

As sovas constantes, depois os cuidados que tinham com ele. A comida que lhe deixavam ou forçavam garganta abaixo. Oh não, ele não podia morrer, mas podiam divertir-se com ele. Nunca estava sozinho e havia sempre alguém a render o companheiro. Sempre que ele adormecia, chovia-lhe um punho na cara. O sono era um luxo, não um direito. E sem qualquer aviso lá era arrastado para outra sala onde era cutucado, raspado, electrocutado, espancado, espetado, humilhado e questionado. Ele nunca respondeu, minto, houve uma vez. A cabeça pendia-lhe e custava a respirar por causa de uma costela. Chamou o outro homem para si e quando se aproximou, atirou a cabeça para trás, ignorando todas as dores, e arremessou a testa na direcção do torturador. Sangue novo escorria-lhe da cara, sorriso sardónico abaixo e um riso misturado com pieira saiu-lhe da boca. A única coisa que se lembra foi da porrada que levou a seguir. Valeu tanto a pena.
Também não estava sozinho naquele quarto. Descobriu a fresta aberta na porta e um par de olhos que lhe devolvia a atenção. Por momentos assustou-se e uma nova onda de dor cobriu-o. Ninguém falou e no silêncio conseguiu ouvir um beat familiar baixo.
"Já vi que acordou, Capitão."
"Suzako... quanto tempo dormi?"
"Aí uma semana."
Uma semana. Quanto tempo tinha perdido?
"E os outros?"
"Capitão..." Suzako entrou no quarto, tabuleiro de comida e medicamentos na mão e sentou-se no fundo da cama. "A Centaur já não existe. Nem a tripulação."
"Disso lembro-me... Bonna, Gilass? E nós estamos onde?
"Em Xilos, com o seu irmão. A Bonna está a vir para cá. A Gilass está na Heracles."
"Como?!" Mais dor.
"Ela quis ir. Eram as condições..."
"E vocês deixaram?!" Dor, flashes de luz, cama.
Suzako estendeu-lhe um copo com vários comprimidos. Momoa atirou-o para o chão e arrependeu-se do gesto brusco.
"Para onde a Heracles vai?"
"Mnemosine."
"Onde?"
"Uma longa história."
"Temos tempo, não?"
"Até à Bonna chegar, sim. Depois seguimos."
"Óptimo."
Um outro detalhe sobre memórias e capas é que às vezes precisamos que outras pessoas nos escrevam as histórias. Suzako ainda passou um bom par de horas a completar os espaços em branco. Só até à Bonna chegar. Depois iriam atrás da Heracles, da Gilass, até Mnemosine.


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