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| Fábio Martins Olha a colaboração de última hora! E algo me diz que não é a última, mas fiquem atentos! O Fábio quase que fez este a pedido só porque eu adoro azul e não podia deixar esta ilustração de parte! Já vi mais trabalhos dele, inclusive tenho um comigo e ele é fantástico. Espero grandes coisas do seu futuro, inclusive um trabalho comigo! Last minute collab! Something tells me this is not the last one, stay tuned! Fabio almost did this by request because I love blue and couln't let this work go. I've seen more of his work, I even have one with me and he is amazing! I'm expecting great things from his future, including a collab with me! |
A biblioteca acabou por ser encerrada. As falhas eléctricas tornaram-se frequentes com as luzes, a uninet e tudo a ir abaixo. Ninguém sabia o que se passava no terceiro nível, mas ninguém tinha tirado o cartão de leitor para aquilo. Foram dirigidos às portas com desculpas e que seriam recompensados. Apagaram as luzes atrás e trancaram as portas.
A IA divertia-se. Deixou a forma de Ding e Bat e projectou-se na imagem de um velho sábio, Merlin, de um daqueles filmes antigos animados. Ela era a única divertida naquela sala já que Gilass estava a apanhar a maior seca de todos os tempos e mais alguns. O que a memória? Há uma definição biológica, psicológica, filosófica e informática. A memória é uma capa arquivadora. Vamos guardando folhas com os dias da vida e a capa vai crescendo; podemos arrancar folhas e esquecer à força de um trauma; podemos colar aquelas argolas autocolantes para remendar as memórias e lembramos novamente. Temos separadores, post-its, micas a separar as memórias em categorias cada vez mais específicas: aniversários, amores, desgostos, sucessos, histórias, experiências, dor ou coisas mundanas como encontrar cinco créditos no chão ou virmos um cão na rua que tinha manchas castanhas no lombo e o dono era gordo até mais não. E chovia no dia.
As capas crescem a ritmos diferentes, variam consoante a pessoa e a sua predisposição de capas. Problemas mentais, educação, consumo de estupefacientes, todos afectam o estado capa.
E se houvesse um sítio onde alguém pudesse arrumar todas as capas? Mnemosine.
Mnemosineé a personificação da Memória na mitologia grega. Filha de Urano e Gaia; mãe das nove musas. Todas filhas de Zeus.
Por mais que o espaço se abra a uma pessoa, nunca deixamos de olhar para trás, mas agora também era necessário olhar em frente - para o universo longínquo, onde se escondia este planeta esquecido. Nem Gilass nem a IA sabiam o que iam encontrar, mas a IA sabia que o planeta tinha sido descoberto e que andavam atrás da humana por alguma razão. Não podia ser só pela sua memória. Há pessoas com boas memórias, há pessoas com implantes de memória e autênticas pen drives. Tinha de haver uma razão para tal.
A Gilass era um prodígio informático, memoriza linhas de código, comandos e instruções como ninguém. Porquê? E se alguma coisa corre mal? E se, e se, e se. A IA também reparou. A humana estava sempre a ler as mesmas folhas da capa. Virava, passava a vista, virava. Ia ao fim, ia ao início. Suspirava. Bufava. E se não resultar? E se, e se.
A Gilass não era uma pessoa normal. Ela tinha ansiedade. Ela era daquelas que remoía tudo. Ela repassava memórias e acontecimentos. Ela tinha sempre planos A, B e C. Ela não era a reencarnação da deusa no universo, ela era apenas uma triste coitada que teve o azar de nascer com um cérebro defeituoso. E tudo fazia sentido.
A IA era tal como ela, mas em vez de materializar-se em desenhos animados, ela carregava capas enormes dentro sim. Ela lembrava-se de tudo.
