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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 31 | Exposição


(…) O velho desceu na estação de Nelas às cinco para as treze. Estava agasalhado com um sobretudo de lã castanho; uma camisola térmica de desporto branca e umas calças de bombazina beges por baixo. Sessenta e seis anos não é bem velho, mas é a caminhar para lá e... (…) 

“Corta!” Pediu a mulher a espreitar por detrás da câmara. “Pessoal, dez minutos! Tu não saias daí.” 
A realizadora que outrora teve a cara da Kate Bush, cresceu para uma da sua idade. Naquele dia, usava o cabelo preso em rabo de cavalo, enfiado para trás num boné sem marca; um colete verde com muitos bolsos e umas calças de ganga. Correu para o actor na plataforma, com um rolo de papel entre as duas mãos. 
“Ei, tuuu” agrediu-o com o rolo. “Quando desceres, olha para nós. Queremos filmar essa cara e o cigarro.” 
“Sim, senhora, chefe.” O actor virou-se. “E de resto?” 
“Tudo nos trinques. Dás um bom Augusto.” Sorriu. 
“Estou-te a ver.” enfiou as mãos nos bolsos. “Porra, está frio!”

E olharam-se e sorriram que nem tolos para disfarçarem a tensão e a ânsia. O resto da equipa estava espalhada a fumar e a comer, conversavam ou ligavam para longe. Nem por acaso, um zumbido de um zangão invisível voou entre o casal e a produtora enfiou as mãos no colete. Encostou o telemóvel ao ouvido e atendeu com um sorriso rasgado: 
“Mariana!” 

Sempre uma alegria, miúda. Como estás? 
“Cheia de trabalho, mas bem. E por aí?” 
Não me posso queixar. Tenho sempre a casa cheia. 
Pausa para alguém falar atrás. 
Olha, vão sexta? 
“Não perdíamos por nada... Dez anos! 
Olha essa exposição, senhora realizadora. E vê lá, que ainda nos vimos no ano passado. 
“Eu sei, mas já passaram dez anos desde que nos conhecemos.” 
Passou a voar. Olha, e como está o Diogo? 
“Está aqui ao lado e diz olá.” Virou-se para ele a acenar. “Acabamos de filmar por aqui e seguimos para baixo.” 
Uma rajada sacudiu-os e a Mariana virou-se para se meter a favor do vento. 
Já pensaste no final? 
Aham! Vai ser, tipo, uma homenagem aos filmes dos anos oitenta com aqueles separadores e o que eles fizeram.” 
Nós fizemos! 
Riram. 
“Ah e tal, a Mariana ficou com o negócio da avó e iniciou uma carreira na política para lutar pelos direitos dos seus protegidos. O Diogo não conseguiu convencer o patrão sobre onde esteve, continua no mesmo escritório, mas dá uma perna como actor; o Jordão pediu um empréstimo com o Guilherme e restauraram o restaurante; o Augusto foi espalhado num apeadeiro; o Leandro foi diagnosticado com perturbação da personalidade e livrou-se da prisão, mas teve umas temporadas internado até desaparecer e eu estou aqui, a falar contigo, no meio das minhas filmagens.” 
Moça, calma! Estive lá. 
Até o Diogo se riu atrás. 
“Estou a pensar nisso ou no Augusto a narrar, que achas?” 
Surpreendam-me. 
Ouviu-se um clique na linha. 
Encontraste o teu bitoque? 
Nope... E acho que não vou. Sabes...” trocou o telemóvel de ouvido. O Diogo afastou-se para ir à net no seu. “... Acho que não existe isso de bitoque perfeito. Vivemos esta vida à procura de coisas, de... De um sentido. Ou de uma voz, de protagonismo, de bitoques ou de uma decisão e é isso que nos faz acordar todos os dias. Depois há aqueles que acham que têm tudo e perdem-se em si.” 
Estou a ver. Estou... 
“É muito bom termos uma missão. Ei! Isto deu-me uma ideia para a moral do filme. Hum... Tenho de ver se funciona.” 
Ainda não tinhas? 
“Tinha, mas... Sempre aberta a sugestões! Mariana, vamos filmar. Falamos logo?” 
Logo. 
“Beijo à tua avó e à Bonna.” 
Serão dados! Ao Diogo também. 
A Mariana desligou o telemóvel do lado dela. 
“Vá, vamos continuar antes que percamos a luz. Gente, aos lugares!” 
Ela aproximou-se do Diogo e pôs as mãos nos braços do homem vestido de Augusto. Gentilmente, colocou-o em cima da cruz marcada no chão. 
“Não te esqueças: vira-te para nós.” 
“Apetece-me beijar-te quando ficas assim tão business.” 
“Não aqui, tolo!” Corou. “Logo?” 
“Combinado” Sorriu-lhe e tentou piscar o olho, falhando. 
“Parvo.” 
A realizadora afastou-se, deixando o Diogo, actor, na plataforma a ensaiar os movimentos e as falas em silêncio. 
A equipa apagou os cigarros, deitou fora os pacotes de sumo e as pratas das sandes e retomaram os seus lugares. 
A Cátia espreitou pela câmara centrada no Diogo e levantou-se, focando-o numa moldura com as mãos. 
“OK, assim mesmo...” Olhou em volta e quando viu que todos estavam prontos, começou: 

Luzes... Câmara... Acção! 

(…) O velho desceu na estação de Nelas às cinco para as treze. Estava agasalhado com um sobretudo de lã castanho; uma camisola térmica de desporto branca e umas calças de bombazina beges por baixo. Sessenta e seis anos não é bem velho, mas é a caminhar para lá e as trincheiras na cara davam-lhe ainda mais idade. E o tabaco. E a bebida. (…)

sábado, 27 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 26 | Uma Semana na Vida

Leandro
Jordão
Lisboa
Uma semana depois

Quem diria. Passou uma semana desde a batalha em Tomar, e cá estamos: 
O Diogo desapareceu sem rasto; a Mariana esperou pelo Leandro que não apareceu e foi ter com o avô, esperar o amigo; o Jordão continuou por Lisboa e decidiu ficar com o restaurante, com a Celeste a matar saudades daquela cozinha e de preparar umas boas papas; o Augusto faleceu nos braços do filho do melhor amigo que, por ironia do destino, acabou por abraçar dois cadáveres em poucos dias; a Cátia continuou na casa da Quicas, a convite da matriarca e passeou por Setúbal, a experimentar restaurantes e a escrever poesia. O Leandro não se encontrou com a Mariana porque levou o Augusto ao hospital, e como nenhum familiar quis reclamar o corpo, autorizou a cremação e regressou a Lisboa com as cinzas. 
E é em Lisboa que o encontramos, fechado n’O Tropa com o Guilherme e o Jordão. O Guilherme apresentou-os e o ambiente estava mais tenso que uma gelatina esquecida no fundo do frigorífico e que nem uma faca de serrilha conseguia cortar. 

O dux estava escondido na mesa do canto, com a escuridão a cobrir-lhe metade do corpo e com o vaso de cinzas em cima da mesa. Parecia perdido na sua cabeça e falava em frente, sozinho, ou talvez com o vaso e com o velho. Quem o ouvisse, também não entendia nada; a boca mexia-se mas só se ouviam bichanices. Não deu pelos irmãos entrarem no restaurante. Teve de ser um dos companheiros da tuna a puxá-lo para o mundo real, mas quando reparou no Guilherme já parecia outro e sorriu. 
Uma semana até pode parecer pouco tempo, mas demasiado quando a cabeça bate mal. Quando o Guilherme viu o irmão desde o funeral achou-o distante e difuso como se estivesse preso entre o desaparecer e o aparecer, como se fosse fumo indeciso; trocou a postura altiva e energética por uma mais curvada como se carregasse o peso dos dois corpos. 
A verdade é que quando olhava para um lado e para o outro via o pai e o Augusto, mas estes espíritos ou memórias não o assombravam nem nada do género, apenas estavam ali como sempre estiveram em vida sem prestar atenção ao pequeno Leandro. 
E estava chateado - não, fodido da vida. Se havia coisa que odiava era ser ignorado: o pai, a Mariana, agora o Augusto e aquelas cinzas ali pareciam rir-se dele. 
Portanto, quando conheceu o novo irmão, o estado mental dele não era dos melhores. O que até ajudou porque ele nem quis saber se tinha um ou cem irmãos, se eram pretos ou amarelos, cangurus ou jacarés. Na verdade, ele só queria saber de uma coisa: do restaurante. Quando soube do testamento e por ser o mais velho, achou que tinha prioridade sobre O Tropa e o plano dele era... Mudar-lhe as fechaduras e deixá-lo ali a apodrecer. 
Sim, isso mesmo, deixar aquela merda a apodrecer a um canto como o seu pai na terra e aquele jarro. Que se fodam todos, até os irmãos. 
Mas o Jordão tinha planos: ele queria ficar com o restaurante e dar parte dos lucros ao Guilherme que também teria direito a pratos grátis. Era um plano sólido, e quanto mais pensava nisso, mais parvo o achou. Com uma varredela da mão, dispensou-os e voltou a atenção para o vaso. Encolheu-se na cadeira e sentiu-se sozinho, uma sensação que lembrava tomar banho de água gelada. 

Encostou-se mais para o canto e desapareceu na escuridão do restaurante.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 25 | NPC

Diogo
Noite e manhã
???

À segunda cerveja começamos a discutir se Portugal tem alguma Área 51. Não tem, mas é porreiro imaginar o que se faria lá. O que temos é um excelente plano e investimento na robótica e um desinteresse pelas aldeias do interior. Uma mente brilhante, que prefere ficar anónima, propôs um plano com partes de brilhante, de ficção científica e com possibilidades de retorno a longo prazo: povoar uma aldeia com androides. Sim, altamente arriscado, mas dado o isolamento da aldeia, seria fácil controlar o teste de uma possível introdução dos androides no mercado global. 
Portugal seria pioneiro! À terceira cerveja isto foi de génio... 

Correu porque foi mandado; porque foi seguido e correu o resto para se afastar. 
Parou quando se esgotou a adrenalina, o fôlego e o mundo. Esbarrou numa parede de negro e não havia nada depois do nariz – nem o castelo ou as luzes da cidade. Soube das árvores pelo vento que correu por elas, pelos ramos a dobrar e as folhas a sussurrar. Um hoot voou algures e um bater de asas deixou-o para trás. 

Correu por susto, os passos a bater na manta morta do mato, a estalar a sua presença, e sempre em frente. Até que que reparou nos pontos amarelos, luzes. Civilização à vista. Correu por esperança e lançou-se pelos ramos invisíveis que arranhavam a cara, mas dona sorte não o acompanhou e uma pancada em cheio na testa roubou-lhe o chão dos pés. Um flash branco inundou as luzes... e mais negro. 

Foi tudo muito rápido e quando acordou já era de manhã. Bem, afinal ainda passou muito tempo estendido na mata, mas ao acordar o céu ainda estava coberto de um azul madrugador e o resto da realidade ganhava forma. Antes de ver o tronco que lhe saltou para a frente, sentiu-o na testa – um alto e um fiozito de sangue. E muita fome. A última refeição tinha sido há horas – dias? A noção de tempo era estranha ali, num momento estava a segui-lo com um fio de costura, mas do nada tinha nós em cima de nós e estava preso. Foi então que reparou que não estava sozinho. Olhos atrás de bicos olhavam para baixo a arrulhar, flap flap flap saltavam e desapareciam para serem o pássaro madrugador. 

Desta vez não correu, mas seguiu devagar, com a mão nas árvores, na direcção de onde julgava ter visto as luzes. Uns minutos frios mais tarde viu as primeiras casas. Não tanto uma casa, mas um curral aberto com bácaros a fuçar no chão e umas galinhas no canto. A luz veio de uma lâmpada pendurada. Alguém que estava a dar comida aos bichos. Depois do curral viu umas poucas casitas de pedra, portadas de metal e muros com videiras a espreitar. 

Tirando os bichos, não havia vivalma ali. Mais à frente ouviu o raspar e o cair de pedritas em plástico. Aproximou-se da casa e encontrou uma velhota nos degraus a debulhar feijão verde e a deitá-lo para um balde. Vestia uma peça negra e uns tamancos de borracha, na cabeça tinha enfiado um chapéu cinzento e na cara um sorriso gasto. Toda ela era rugas e trabalho. 

“Desculpe?” Cumprimentou. 
A velhota moveu a cabeça do balde para o Diogo sem mudar de expressão. 
“Bom dia, menino” cumprimentou de volta e regressou a atenção para a tarefa. 
“Sabe-me dizer onde estamos?” 
Repetiu o gesto ensaiado, a olhar para lá do rapaz. 
“Aldeia dos Andros.” Voltou ao feijão. 
“OK... acha que posso fazer uma chamada?” Perguntou quando reparou, ainda no mato, que o tinha deixado no carro. 
Da mesma maneira, a velha passou do balde para ele, mas desta vez apontou para a direita, para um pelourinho ao fundo. 
“Na praça.” Continuou. 
“Obrigado...” 
Havia algo de estranho naquela senhora e correu várias desculpas para o comportamento irregular, talvez não gostasse de estranhos ou de pessoas pela manhã, mas... Não. Pelo caminho, reparou nas cabeças a espreitar pelas cortinas de rendas: todas velhas e um arrepio puxou-lhe os pêlos dos braços. Uma porta abriu e um velho desceu o degrau, seguiu em frente com a expressão que jurou ser igual à da velha e foi de encontro à parede. 
O Diogo apressou-se para ajudar, mas o velho continuou a andar contra a parede até virar de direcção e seguir para o pelourinho. 
“Bom dia, menino” saudou o velhote sem danos visíveis na cara, apenas com a boina torta. 
“Bom... dia...” repetiu estúpido. Seguiu-o à distância até chegarem ao pelourinho e ver o homem a desaparecer num barracão aberto, com mesas na rua e outros velhos semelhantes sentados. 
Bom dia, menino! Bom dia, menino! Bom dia, menino! Bom dia, menino! Repetiram um atrás do outro. Mesmo tom de voz, entoação, mesmo principio e fim. 
As mesas vermelhas da Super Bock tinham cinzeiros, mas vazios; copos de bagaço, mas vazios; jornais, mas por ler. E, no escuro do interior, a televisão falava, mas para ninguém...? 

Apenas o velho da parede e o dono estavam lá dentro. 
Bom dia, menino! Bom dia, menino! Ouviu quando entrou. 
O empregado estava ao balcão e tirava cafés que despejava no lava-louças; o velho estava sentado a olhar em frente, na direcção da colecção de garrafas expostas. 
“Queria usar o telefone, se faz favor” pediu a alguém. 
“Queria. Já não quer?” Respondeu o empregado num tom monocórdico que não mostrava gozo nem chico-espertismo. Nem o outro reagiu. 
Encontrou o telefone e tirou-o do descanso, mas quando ouviu o som da linha telefónica teve uma ideia... 
“Bom dia!” Berrou do telefone. 
Bom dia, menino! Bom dia, menino! Repetiram. 
“Boa tarde?” 
Bom tarde, menino! Bom tarde, menino! 
Meu deus, pensou. Que raio se passa aqui? Deixou o telefone, foi ao balcão e tirou um pacote de batatas fritas que abriu à patrão e comeu uma. Nada. Comeu outra e outra e acabou com elas. Nada de nada. Serviu-se de um café. Nada.
“Ora, bons dias, gente!” 
Bom dia, menino! Bom dia, menino! 
Riu-se baixinho. Riu-se quando se sentou e riu-se que nem perdido quando o empregado lhe tirou outro café. 
“Obrigado e bom dia!” 
Bom dia, menino! 

O Diogo podia não saber onde estar, quando estava e porque estava, mas há muito que não sentia aquela validação dentro de si: a monotonia da rotina que adorava, a repetição de pensamentos, diálogos, acções. Sentiu-se validado e nada ansioso. Estava em casa... 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 24 | Apeadeiro

Cátia
Augusto
???
???

Nem estava muito frio à noite, apenas uma temperatura normal de fim de verão e ainda não era para dormir de meias ou com calças de pijama, mas a Cátia estava a gelar debaixo da parede de lençóis, a bater o dente e a tremer como se tivesse febre. 
Chegou-se mesmo a pensar que fosse isso quando também se queixou das articulações e dos músculos dos braços e das pernas de perros que estavam. 
A Laurinda, ou a Bonna, encostou a palma à testa da miúda e não lhe viu sinais de febre, mas estava fria como mármore. Meteu-a na cama com todas as mantas e a roupa térmica que tinha e voltou mais tarde com um caldo feito pela dona Francisca, a Quicas. Veio a fumegar da panela, para a tigela e para a colher, mas o apetite era zero naquele momento. Engoliu duas colheres a custo e duas lágrimas nasceram no canto dos olhos de tão boa que estava; sorveu mais duas, demorou-se com o calor do caldo na boca até o transportar garganta abaixo até ao estômago. 
Sorriu à Laurinda e agradeceu; pediu desculpas pelas figuras e que podia dormir noutro sítio para a outra se deitar. A Laurinda, que naquela noite já não ia ser a Bonna, e a Francisca sacudiram-lhe aquelas ideias tontas e obrigaram-na a descansar e a dormir. Deixaram um griponal na mesa e um copo de água e saíram do quarto uma e depois da outra. A porta ficou fechada para a separar dos risos e das conversas do lado de fora, a única luz de presença vinha da Lua que entrava ao serviço. 

A Cátia acompanhou o rasto da Lua que cortava o quarto ao meio e pensou na distância que a dividia do Augusto, no que ele andaria a fazer ou se estava bem. Perdida em ses, acabou por perder a luta contra o cansaço e ferrou em posição fetal, com os braços a puxar os joelhos contra o peito para não deixar o calor escapar. 



Um velho surgiu à porta da carruagem e desceu ao apeadeiro. 
Passou a mão por cima do sobretudo e sentiu o volume num dos bolsos, tirou-o e de dentro tirou um cigarro direito; a própria caixa estava novinha em folha e não se lembrava da última vez que fumou de um cigarro novinho em folha. Raspou o fósforo de madeira e com a chama a resistir à brisa, acendeu o cigarro; sacudiu o pauzinho e enfiou-o no bolso esquerdo; inspirou o cigarro de olhos fechados e todos os stresses do mundo eram insignificantes naquele momento; um efeito temporário e falso que lhe dava uma pausa momentânea à cabeça. Expulsou o fumo para o ar e ficou a vê-lo a seguir em frente, a dissipar-se no apeadeiro. O fumo revelou um banco de pedra e uma miúda sentada à ponta, com a cara enfiada num rectângulo e auriculares a isolá-la do mundo. 
Sentou os ossos na outra ponta, a fumar na sua quando a Cátia o cumprimentou com o sorriso dela: 
“Então?” 
“Olá” saudou-a. 
“Encontraste o que procuravas?” 
Ele matutou um bocado naquilo. O que procurava ele? O que procurava... Ele? O melhor bitoque? Encher o caderninho com a melhor poesia de tasco? O perdão do melhor amigo? Esquecê-lo? Redenção? Ele era velho e nem sempre os velhos têm mais experiência ou planos delineados; às vezes andam perdidos em apeadeiros no meio de nenhures até ao próximo comboio. 
“Acho que não.” 
“Pena...” 
“E tu?” Devolveu o Augusto. 
“Acho que estou mais perto, mas bem, desde que nos separámos: tive um ataque de filosofia no meio do Tejo, uma quebra de tensão e conheci gente nova e vim à casa delas. É incrível! Homens e mulheres que fazem o que bem entenderem com o corpo - e com a cabeça.” Respirou com a excitação. “Algumas fugiram de casa e andaram perdidas sem saber para que margem nadar. Na casa da Quicas podem ser o que quiserem!” 
“Espera... na casa da Quicas? Ó moça!” Virou-se meio chocado e embaraçado, a parir uma gargalhada. 
“Ei, não sou uma tapadinha e sem bem o que se passa. E mesmo que o fizesse, ninguém tinha nada com isso! Podemos fazer o que quisermos e cheguei à conclusão que não posso seguir o que o meu pai e a mãe querem. Então... vou para cinema.” 
“Cinema? Interessante...” 
“É, não é? Era quase óbvio. Ou cinema ou literatura. Ou um bocadinho dos dois.” 
“Parece que ainda estás confusa” troçou o velho. 
“Pois... posso sempre escrever para cinema.” 
“E porque não?” 
Deixaram o silêncio do apeadeiro preencher os espaços entre os dois. Ele a terminar o cigarro, a mastigar o ar, e ela voltada para o seu ecrã e para as suas histórias. 
“Comi um bom bitoque há dias” comentou. 
“O melhor?” 
“A carne tinha um sanguito e o molho estava no ponto; arrozinho solto e um o ovo estrelado no tempo certo.” De olhos fechados, parecia que estava a tentar invocar a imagem do prato. 
O Augusto hesitou e respondeu com um sorriso. 
“Muito bem, ficou tudo bem entregue” 
“Mas a busca continua!” 
“Linda menina.” Esfregou o maxilar, por cima da barba aparada e suspirou. “E tens escrito no bloco?” 
“Não te preocupes.” 
“Então posso ir em paz. A minha missão está segura contigo.” 
“A viver pelos outros, han? Acabo de dizer que não quero seguir os meus pais e deixas-me isto.” 
"Então deita tudo fora. Bota-lhes fogo!” Riram-se. As imagens do filme a passarem sem ninguém as ver; o poste com o relógio no apeadeiro a passar horas infinitas e os esboços de pássaros bem no alto a desaparecerem de vista. 
“Onde estamos?” Perguntou o velho a olhar em volta. Por todo o lado, campo prolongava-se até o perderem de vista; fardos de palha estavam amontados aqui e ali e a relva amarelava do Sol que nunca se punha. A Cátia levantou a cabeça e olhou na direcção da cabeça do amigo; mordeu a bochecha por dentro, a pensar em algo profundo para responder até que se fez luz. 
“Estamos naquele momento antes de um filme carregar. Quando o ecrã está escuro e vemos o nosso reflexo no ecrã a pensar na vida.” 
Aquilo gerou uma certa confusão no Augusto, mas se pensasse muito nisso até fazia algum sentido. Estamos sempre à espera que as coisas comecem... 

“Olha, vem aí o teu.” O pouca terra pouca terra ouviu-se ao longe, bem baixinho e veio a correr como uma chaleira a ferver água. A carruagem materializou-se no horizonte e deslizou pela linha até abrandar e abrir a quarta carruagem à frente do banco. 
“Então adeus” despediu-se a Cátia. 
Levantou-se do banco como uma mola. 
“Upa! Dás-me um abraço?” 
“Claro!” Saltou do banco e para a frente do velho; envolveu-o num aperto de polvo e apertou mais um bocadinho para ele o levar consigo. O Augusto cheirava a tabaco, mas sem chegar a ser desagradável, a água de colónia e a memórias de muitas vidas. Afastaram-se com um sorriso e o Augusto subiu para a carruagem. A Cátia ficou a vê-lo a atravessar o corredor e a sentar-se à janela. Acenaram e a carruagem tremeu, afastando-se do apeadeiro, sempre em frente até desaparecer de vista e do sonho. 
Voltou ao banco, ajustou os auriculares e continuo o filme. 

Ainda em posição fetal, com o calor a abraçá-la em concha, sorriu. Um fio de lágrimas partiu da estação e seguiu a linha da face até à almoçada. 

A vida são dois dias / E se amanhã for feriado / Temos apenas um de trabalho / Depois é para beber / E amanhã morrer

domingo, 21 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 21 | Coragem Líquida

Diogo
Mariana
Augusto
Leandro
Tomar
Tarde


“António, o que raio se está a passar?” Perguntou o Zézé aflito. 
"Olha, se queres que te diga, nem sei.” Aproximou-se devagar das grades. Do outro lado, o mar de trajados ondeava de um lado para o outro a murmurar cantilenas. Ninguém apanhava a letra, mas o efeito fazia mesmo lembrar um mar à noite a ganhar as primeiras ondas antes de uma tempestade. 
O Leandro continuava à cabeça do pessoal e sorria com a barra de ferro apoiada no ombro. A Mariana olhava-o de volta, conversavam mentalmente e picavam-se. 
“Vou chamar a polícia!” 
“É melhor...” O Zézé afastou-se a apalpar a roupa. “Diogo, chama o pessoal lá atrás.” 
“O que está a pensar?” O Augusto aproximou-se do outro velho. Apesar da idade, o António era daquelas pessoas que consumia jogos e filmes épicos e, por dentro, ansiava por uma batalha de iguais proporções. A cabeça pensava em nomes para o inimigo, nomes para os bons e estratégias. A vida real era mais simples: bastava ligar à polícia e o Zézé já estava nisso. No entanto, se estalasse a batalha, seriam os corvos contra os templários. Porquê os corvos? Olhem para os trajes e para as capas abertas, não parecem asas da noite? E o que vinham eles fazer se não roubar tempo e paciência. 
Acabou um e tirou outro cigarro. Fumava mais quando estava nervoso e há anos que se enervava tanto, mas aqueles últimos dias puxado por si. Tudo doía: o corpo, a alma, a consciência e nem o tabaco anestesiava. Ainda assim, dava uma passa atrás da outra; aquecia a boca, a língua e expelia imagens do futuro para o ar. Nessas imagens viu parte da muralha do castelo a ceder, a desabar em areia e pó quando a onda quebrou. Não eram boas imagens e acabaram com o cigarro. Só mais dois cigarros. 

O Diogo correu a bracejar na direcção dos templários. Parece que o treino tinha terminado e a fase de hidratação tinha começado. Por outras palavras, acabar com as cervejas na arca. 
Repararam no rapaz que se aproximou e saudaram-no com uma antiga reverência. 
“Salve, jovem!” 
“Precisamos da vossa ajuda!” Bufou o jovem esbaforido. 
“Dizei, dizei!” O Diogo torceu o nariz, mas não teve tempo de ficar confuso e tentou passar a mensagem o melhor que pôde. 
“Viram os tipos que passaram por nós? 
“Esses cavaleiros negros?” 
“Han? Pois, sim. Trancaram-nos no castelo e não nos deixam sair!” 
O que aparentava ser o líder dos templários levantou-se do chão e afastou-se do Diogo para ver melhor o portão. 
“Quem querem eles? 
“A mim... e à minha amiga!” A menção da amiga agitou o grupo que se levantou numa voz de protesto. O líder passou a mão no ar para os acalmar. 
“Já vimos as bestas pela cidade. Por onde passam só fica a miséria” comentou um com voz de oração. 
“Jovem, bebeis connosco?” O líder tirou uma lata da arca e ergueu-a ao Diogo. 
“Agora?” Perguntou incrédulo? Voltou-se para os companheiros ao portão e para os templários; uns acariciam as espadas de madeira e outros despejam latas de cerveja do Lidl garganta abaixo. “Uma.” 
Bebeu-a o mais rápido que pôde e o resto deixou para a roupa. Os outros tipos e reparou em mulheres com elmos, riam-se, mas não dele – com ele. Qualquer desculpa era boa para beber, em tempo de paz ou de guerra. Podia ser a última e só por isso sabia pela vida. A cerveja nem era grande coisa, mas caraças, se não precisava daquela coragem líquida. 
“Outra!” Mão no ar para se abastecer. 
“Irmão, partilhámos álcool... Agora partilhamos destinos!” Acenou para os camaradas para se juntarem. “Treinamos o ano todo para uma batalha a fingir e agora uma bem real bate à nossa porta.” Pousou as mãos nos ombros do Diogo. “Deixa-nos viver a nossa fantasia só por um bocado ou até a bebedeira durar.” 
Os que não estavam armados pegaram nas espadas do chão e arrumaram-nas na bainha. Recuperaram as lanças do chão e enfiaram os escudos nos braços. Depois encaixaram os elmos nas cabeças e formaram três filas de quatro. 
“Toma conta da cerveja!” E ordenou os templários contra o portão que marcharam em canção e álcool. 

O Diogo estava ali, mas não estava. Toda aquela situação deixara de roçar o ridículo para o penetrar com toda a força. A cerveja tinha caído que nem ginja e como encarregue das arcas, serviu-se de outra antes de se apressar atrás dos templários, mas não conseguiu sacudir aquela sensação de ouvir algo conhecido, mas não saber de onde; uma daquelas músicas que todos ouvimos nas festas saloias, mas que ninguém consegue apontar o cantor. Uma música básica, que ficava na cabeça, mas que ofendia a cada verso. E foi por isso que a reconheceu, pela mulher gorda, ai a mim não me convém... 

Eu não quero andar na rua com as banhas de ninguém! Porque se tinha lembrado da música agora?!

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