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domingo, 28 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 27 | Linhas Paralelas


Mariana 
Tomar 
Manhã

Ela e o avô arrancavam todas as manhãs para procurar o Diogo. Saíam de carro, com o telemóvel dele e um power bank, e iam pelas estações de serviço e aldeias com fotos. Ninguém o tinha visto e aquele medo automático de que pudesse estar caído no mato aumentava. 
Uma após a outra, café após outro e não atrás de não. A polícia acabou por ser notificada e as buscas começaram, mas com as esperanças reduzidas. Entretanto, ela e o avô varriam mapas e contrariavam o GPS; deixavam o carro na berma e enfiaram-se nos matos com varas e berreiros. E um dia e, por exclusão de partes, tropeçaram num sítio que não constava dos mapas e era apenas um borrão no Google Maps... 

Diogo 
??? 
Manhã 

Bom dia, menino! 
Mesmo que a educação fosse robótica, era tão bom ouvi-lo pela manhã, ao entrar no café. O velhote da parede lá estava, o empregado também e os cafés despejados eram outra constante, mas com a chegada do rapaz houve uma ligeira alteração à programação e à rotina dos habitantes de Andros. 
Durante uma semana, o Diogo comeu e bebeu sem se preocupar com o fundo do barril porque a aldeia continuava a ser abastecida por uma carrinha que chegava e sumia sem um logo ou identificação. E como ninguém se preocupava, não era ele a começar. A meio da semana veio outra carrinha com homens de fato-macaco que passaram as mãos pelos velhos e partiram umas horas depois. Passou esse dia escondido em casa, mas nos outros passeava, dormia e bebia. E quando se fartou, tirou uma resma de papel e começou a escrever. 
Noutro dia, assim para o final da semana, viu no rodapé das notícias que tinha desaparecido... eh, alguém andava à sua procura... 

Cátia 
Montijo 
Almoço 

A miúda com uma missão. Apanhou o barco, outro barco e um autocarro e chegou ao destino: um restaurante com pinta de snack bar que também servia bitoques; entrou e pediu o habitual e sentou-se na rua para não ouvir os donos a discutir. 
Se pensasse bem no assunto, isto de andar de cidade em cidade, de restaurante em restaurante, até era porreiro e uma óptima desculpa para conhecer o país, mas a saudade de casa já batia sorrateiramente no coração. Talvez devesse ligar aos pais, decidiu. E dar-lhes a boa notícia. A mesa tinha duas cadeiras e a da frente, uma cadeira de plástico, estava saída como se alguém se tivesse levantado para ir à casa de banho. Imediatamente lembrou-se do Augusto e das lições de bitoques, das histórias da tropa ou das cidades onde tinha saído. Ele era tão rabiscado quanto o seu bloco e havia sempre mais uma coisa para escrever. Falando nisso, tirou-o para cima da mesa e quando ia começar a escrever, reparou no rodapé das notícias e de um desaparecido em Tomar. 

Leandro 
Jordão
Lisboa
Almoço

Um dos trajados entrou com sacos de plástico cheios de comida e outro entrou com dois jerricãs, com um líquido que não devia ser água. 
Os dois irmãos estavam à porta e nenhum podia entrar, mas da janela viam o Leandro sentado na mesma mesa da última vez. Ora afundava-se nos braços e berrava aos tunos, ora enfrascava-se em litrosas e cantava com os restantes. E ali, bem no meio das duas personas, estava o irmão que o Guilherme não via há anos, mas era muito rápido. 

Eles faziam lá ideia do que o Leandro estava a passar ou a ver ou a ouvir. Num lado tinha o pai a mandar o restaurante à merda e para botar fogo a tudo; que o restaurante lhe comeu o corpo e a cabeça. No outro tinha o Augusto saudosista, a amar estar ali e a querer continuar. E quando uma voz falava mais alto, a mente inclinava-se como uma balança. Às tantas pediu ao pessoal para lhe trazer ingredientes para cozinhar e gasolina para queimar O Tropa. Independente de quem ganhasse, ele iria perder. Ou perder-se.

sábado, 27 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 26 | Uma Semana na Vida

Leandro
Jordão
Lisboa
Uma semana depois

Quem diria. Passou uma semana desde a batalha em Tomar, e cá estamos: 
O Diogo desapareceu sem rasto; a Mariana esperou pelo Leandro que não apareceu e foi ter com o avô, esperar o amigo; o Jordão continuou por Lisboa e decidiu ficar com o restaurante, com a Celeste a matar saudades daquela cozinha e de preparar umas boas papas; o Augusto faleceu nos braços do filho do melhor amigo que, por ironia do destino, acabou por abraçar dois cadáveres em poucos dias; a Cátia continuou na casa da Quicas, a convite da matriarca e passeou por Setúbal, a experimentar restaurantes e a escrever poesia. O Leandro não se encontrou com a Mariana porque levou o Augusto ao hospital, e como nenhum familiar quis reclamar o corpo, autorizou a cremação e regressou a Lisboa com as cinzas. 
E é em Lisboa que o encontramos, fechado n’O Tropa com o Guilherme e o Jordão. O Guilherme apresentou-os e o ambiente estava mais tenso que uma gelatina esquecida no fundo do frigorífico e que nem uma faca de serrilha conseguia cortar. 

O dux estava escondido na mesa do canto, com a escuridão a cobrir-lhe metade do corpo e com o vaso de cinzas em cima da mesa. Parecia perdido na sua cabeça e falava em frente, sozinho, ou talvez com o vaso e com o velho. Quem o ouvisse, também não entendia nada; a boca mexia-se mas só se ouviam bichanices. Não deu pelos irmãos entrarem no restaurante. Teve de ser um dos companheiros da tuna a puxá-lo para o mundo real, mas quando reparou no Guilherme já parecia outro e sorriu. 
Uma semana até pode parecer pouco tempo, mas demasiado quando a cabeça bate mal. Quando o Guilherme viu o irmão desde o funeral achou-o distante e difuso como se estivesse preso entre o desaparecer e o aparecer, como se fosse fumo indeciso; trocou a postura altiva e energética por uma mais curvada como se carregasse o peso dos dois corpos. 
A verdade é que quando olhava para um lado e para o outro via o pai e o Augusto, mas estes espíritos ou memórias não o assombravam nem nada do género, apenas estavam ali como sempre estiveram em vida sem prestar atenção ao pequeno Leandro. 
E estava chateado - não, fodido da vida. Se havia coisa que odiava era ser ignorado: o pai, a Mariana, agora o Augusto e aquelas cinzas ali pareciam rir-se dele. 
Portanto, quando conheceu o novo irmão, o estado mental dele não era dos melhores. O que até ajudou porque ele nem quis saber se tinha um ou cem irmãos, se eram pretos ou amarelos, cangurus ou jacarés. Na verdade, ele só queria saber de uma coisa: do restaurante. Quando soube do testamento e por ser o mais velho, achou que tinha prioridade sobre O Tropa e o plano dele era... Mudar-lhe as fechaduras e deixá-lo ali a apodrecer. 
Sim, isso mesmo, deixar aquela merda a apodrecer a um canto como o seu pai na terra e aquele jarro. Que se fodam todos, até os irmãos. 
Mas o Jordão tinha planos: ele queria ficar com o restaurante e dar parte dos lucros ao Guilherme que também teria direito a pratos grátis. Era um plano sólido, e quanto mais pensava nisso, mais parvo o achou. Com uma varredela da mão, dispensou-os e voltou a atenção para o vaso. Encolheu-se na cadeira e sentiu-se sozinho, uma sensação que lembrava tomar banho de água gelada. 

Encostou-se mais para o canto e desapareceu na escuridão do restaurante.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 25 | NPC

Diogo
Noite e manhã
???

À segunda cerveja começamos a discutir se Portugal tem alguma Área 51. Não tem, mas é porreiro imaginar o que se faria lá. O que temos é um excelente plano e investimento na robótica e um desinteresse pelas aldeias do interior. Uma mente brilhante, que prefere ficar anónima, propôs um plano com partes de brilhante, de ficção científica e com possibilidades de retorno a longo prazo: povoar uma aldeia com androides. Sim, altamente arriscado, mas dado o isolamento da aldeia, seria fácil controlar o teste de uma possível introdução dos androides no mercado global. 
Portugal seria pioneiro! À terceira cerveja isto foi de génio... 

Correu porque foi mandado; porque foi seguido e correu o resto para se afastar. 
Parou quando se esgotou a adrenalina, o fôlego e o mundo. Esbarrou numa parede de negro e não havia nada depois do nariz – nem o castelo ou as luzes da cidade. Soube das árvores pelo vento que correu por elas, pelos ramos a dobrar e as folhas a sussurrar. Um hoot voou algures e um bater de asas deixou-o para trás. 

Correu por susto, os passos a bater na manta morta do mato, a estalar a sua presença, e sempre em frente. Até que que reparou nos pontos amarelos, luzes. Civilização à vista. Correu por esperança e lançou-se pelos ramos invisíveis que arranhavam a cara, mas dona sorte não o acompanhou e uma pancada em cheio na testa roubou-lhe o chão dos pés. Um flash branco inundou as luzes... e mais negro. 

Foi tudo muito rápido e quando acordou já era de manhã. Bem, afinal ainda passou muito tempo estendido na mata, mas ao acordar o céu ainda estava coberto de um azul madrugador e o resto da realidade ganhava forma. Antes de ver o tronco que lhe saltou para a frente, sentiu-o na testa – um alto e um fiozito de sangue. E muita fome. A última refeição tinha sido há horas – dias? A noção de tempo era estranha ali, num momento estava a segui-lo com um fio de costura, mas do nada tinha nós em cima de nós e estava preso. Foi então que reparou que não estava sozinho. Olhos atrás de bicos olhavam para baixo a arrulhar, flap flap flap saltavam e desapareciam para serem o pássaro madrugador. 

Desta vez não correu, mas seguiu devagar, com a mão nas árvores, na direcção de onde julgava ter visto as luzes. Uns minutos frios mais tarde viu as primeiras casas. Não tanto uma casa, mas um curral aberto com bácaros a fuçar no chão e umas galinhas no canto. A luz veio de uma lâmpada pendurada. Alguém que estava a dar comida aos bichos. Depois do curral viu umas poucas casitas de pedra, portadas de metal e muros com videiras a espreitar. 

Tirando os bichos, não havia vivalma ali. Mais à frente ouviu o raspar e o cair de pedritas em plástico. Aproximou-se da casa e encontrou uma velhota nos degraus a debulhar feijão verde e a deitá-lo para um balde. Vestia uma peça negra e uns tamancos de borracha, na cabeça tinha enfiado um chapéu cinzento e na cara um sorriso gasto. Toda ela era rugas e trabalho. 

“Desculpe?” Cumprimentou. 
A velhota moveu a cabeça do balde para o Diogo sem mudar de expressão. 
“Bom dia, menino” cumprimentou de volta e regressou a atenção para a tarefa. 
“Sabe-me dizer onde estamos?” 
Repetiu o gesto ensaiado, a olhar para lá do rapaz. 
“Aldeia dos Andros.” Voltou ao feijão. 
“OK... acha que posso fazer uma chamada?” Perguntou quando reparou, ainda no mato, que o tinha deixado no carro. 
Da mesma maneira, a velha passou do balde para ele, mas desta vez apontou para a direita, para um pelourinho ao fundo. 
“Na praça.” Continuou. 
“Obrigado...” 
Havia algo de estranho naquela senhora e correu várias desculpas para o comportamento irregular, talvez não gostasse de estranhos ou de pessoas pela manhã, mas... Não. Pelo caminho, reparou nas cabeças a espreitar pelas cortinas de rendas: todas velhas e um arrepio puxou-lhe os pêlos dos braços. Uma porta abriu e um velho desceu o degrau, seguiu em frente com a expressão que jurou ser igual à da velha e foi de encontro à parede. 
O Diogo apressou-se para ajudar, mas o velho continuou a andar contra a parede até virar de direcção e seguir para o pelourinho. 
“Bom dia, menino” saudou o velhote sem danos visíveis na cara, apenas com a boina torta. 
“Bom... dia...” repetiu estúpido. Seguiu-o à distância até chegarem ao pelourinho e ver o homem a desaparecer num barracão aberto, com mesas na rua e outros velhos semelhantes sentados. 
Bom dia, menino! Bom dia, menino! Bom dia, menino! Bom dia, menino! Repetiram um atrás do outro. Mesmo tom de voz, entoação, mesmo principio e fim. 
As mesas vermelhas da Super Bock tinham cinzeiros, mas vazios; copos de bagaço, mas vazios; jornais, mas por ler. E, no escuro do interior, a televisão falava, mas para ninguém...? 

Apenas o velho da parede e o dono estavam lá dentro. 
Bom dia, menino! Bom dia, menino! Ouviu quando entrou. 
O empregado estava ao balcão e tirava cafés que despejava no lava-louças; o velho estava sentado a olhar em frente, na direcção da colecção de garrafas expostas. 
“Queria usar o telefone, se faz favor” pediu a alguém. 
“Queria. Já não quer?” Respondeu o empregado num tom monocórdico que não mostrava gozo nem chico-espertismo. Nem o outro reagiu. 
Encontrou o telefone e tirou-o do descanso, mas quando ouviu o som da linha telefónica teve uma ideia... 
“Bom dia!” Berrou do telefone. 
Bom dia, menino! Bom dia, menino! Repetiram. 
“Boa tarde?” 
Bom tarde, menino! Bom tarde, menino! 
Meu deus, pensou. Que raio se passa aqui? Deixou o telefone, foi ao balcão e tirou um pacote de batatas fritas que abriu à patrão e comeu uma. Nada. Comeu outra e outra e acabou com elas. Nada de nada. Serviu-se de um café. Nada.
“Ora, bons dias, gente!” 
Bom dia, menino! Bom dia, menino! 
Riu-se baixinho. Riu-se quando se sentou e riu-se que nem perdido quando o empregado lhe tirou outro café. 
“Obrigado e bom dia!” 
Bom dia, menino! 

O Diogo podia não saber onde estar, quando estava e porque estava, mas há muito que não sentia aquela validação dentro de si: a monotonia da rotina que adorava, a repetição de pensamentos, diálogos, acções. Sentiu-se validado e nada ansioso. Estava em casa... 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 24 | Apeadeiro

Cátia
Augusto
???
???

Nem estava muito frio à noite, apenas uma temperatura normal de fim de verão e ainda não era para dormir de meias ou com calças de pijama, mas a Cátia estava a gelar debaixo da parede de lençóis, a bater o dente e a tremer como se tivesse febre. 
Chegou-se mesmo a pensar que fosse isso quando também se queixou das articulações e dos músculos dos braços e das pernas de perros que estavam. 
A Laurinda, ou a Bonna, encostou a palma à testa da miúda e não lhe viu sinais de febre, mas estava fria como mármore. Meteu-a na cama com todas as mantas e a roupa térmica que tinha e voltou mais tarde com um caldo feito pela dona Francisca, a Quicas. Veio a fumegar da panela, para a tigela e para a colher, mas o apetite era zero naquele momento. Engoliu duas colheres a custo e duas lágrimas nasceram no canto dos olhos de tão boa que estava; sorveu mais duas, demorou-se com o calor do caldo na boca até o transportar garganta abaixo até ao estômago. 
Sorriu à Laurinda e agradeceu; pediu desculpas pelas figuras e que podia dormir noutro sítio para a outra se deitar. A Laurinda, que naquela noite já não ia ser a Bonna, e a Francisca sacudiram-lhe aquelas ideias tontas e obrigaram-na a descansar e a dormir. Deixaram um griponal na mesa e um copo de água e saíram do quarto uma e depois da outra. A porta ficou fechada para a separar dos risos e das conversas do lado de fora, a única luz de presença vinha da Lua que entrava ao serviço. 

A Cátia acompanhou o rasto da Lua que cortava o quarto ao meio e pensou na distância que a dividia do Augusto, no que ele andaria a fazer ou se estava bem. Perdida em ses, acabou por perder a luta contra o cansaço e ferrou em posição fetal, com os braços a puxar os joelhos contra o peito para não deixar o calor escapar. 



Um velho surgiu à porta da carruagem e desceu ao apeadeiro. 
Passou a mão por cima do sobretudo e sentiu o volume num dos bolsos, tirou-o e de dentro tirou um cigarro direito; a própria caixa estava novinha em folha e não se lembrava da última vez que fumou de um cigarro novinho em folha. Raspou o fósforo de madeira e com a chama a resistir à brisa, acendeu o cigarro; sacudiu o pauzinho e enfiou-o no bolso esquerdo; inspirou o cigarro de olhos fechados e todos os stresses do mundo eram insignificantes naquele momento; um efeito temporário e falso que lhe dava uma pausa momentânea à cabeça. Expulsou o fumo para o ar e ficou a vê-lo a seguir em frente, a dissipar-se no apeadeiro. O fumo revelou um banco de pedra e uma miúda sentada à ponta, com a cara enfiada num rectângulo e auriculares a isolá-la do mundo. 
Sentou os ossos na outra ponta, a fumar na sua quando a Cátia o cumprimentou com o sorriso dela: 
“Então?” 
“Olá” saudou-a. 
“Encontraste o que procuravas?” 
Ele matutou um bocado naquilo. O que procurava ele? O que procurava... Ele? O melhor bitoque? Encher o caderninho com a melhor poesia de tasco? O perdão do melhor amigo? Esquecê-lo? Redenção? Ele era velho e nem sempre os velhos têm mais experiência ou planos delineados; às vezes andam perdidos em apeadeiros no meio de nenhures até ao próximo comboio. 
“Acho que não.” 
“Pena...” 
“E tu?” Devolveu o Augusto. 
“Acho que estou mais perto, mas bem, desde que nos separámos: tive um ataque de filosofia no meio do Tejo, uma quebra de tensão e conheci gente nova e vim à casa delas. É incrível! Homens e mulheres que fazem o que bem entenderem com o corpo - e com a cabeça.” Respirou com a excitação. “Algumas fugiram de casa e andaram perdidas sem saber para que margem nadar. Na casa da Quicas podem ser o que quiserem!” 
“Espera... na casa da Quicas? Ó moça!” Virou-se meio chocado e embaraçado, a parir uma gargalhada. 
“Ei, não sou uma tapadinha e sem bem o que se passa. E mesmo que o fizesse, ninguém tinha nada com isso! Podemos fazer o que quisermos e cheguei à conclusão que não posso seguir o que o meu pai e a mãe querem. Então... vou para cinema.” 
“Cinema? Interessante...” 
“É, não é? Era quase óbvio. Ou cinema ou literatura. Ou um bocadinho dos dois.” 
“Parece que ainda estás confusa” troçou o velho. 
“Pois... posso sempre escrever para cinema.” 
“E porque não?” 
Deixaram o silêncio do apeadeiro preencher os espaços entre os dois. Ele a terminar o cigarro, a mastigar o ar, e ela voltada para o seu ecrã e para as suas histórias. 
“Comi um bom bitoque há dias” comentou. 
“O melhor?” 
“A carne tinha um sanguito e o molho estava no ponto; arrozinho solto e um o ovo estrelado no tempo certo.” De olhos fechados, parecia que estava a tentar invocar a imagem do prato. 
O Augusto hesitou e respondeu com um sorriso. 
“Muito bem, ficou tudo bem entregue” 
“Mas a busca continua!” 
“Linda menina.” Esfregou o maxilar, por cima da barba aparada e suspirou. “E tens escrito no bloco?” 
“Não te preocupes.” 
“Então posso ir em paz. A minha missão está segura contigo.” 
“A viver pelos outros, han? Acabo de dizer que não quero seguir os meus pais e deixas-me isto.” 
"Então deita tudo fora. Bota-lhes fogo!” Riram-se. As imagens do filme a passarem sem ninguém as ver; o poste com o relógio no apeadeiro a passar horas infinitas e os esboços de pássaros bem no alto a desaparecerem de vista. 
“Onde estamos?” Perguntou o velho a olhar em volta. Por todo o lado, campo prolongava-se até o perderem de vista; fardos de palha estavam amontados aqui e ali e a relva amarelava do Sol que nunca se punha. A Cátia levantou a cabeça e olhou na direcção da cabeça do amigo; mordeu a bochecha por dentro, a pensar em algo profundo para responder até que se fez luz. 
“Estamos naquele momento antes de um filme carregar. Quando o ecrã está escuro e vemos o nosso reflexo no ecrã a pensar na vida.” 
Aquilo gerou uma certa confusão no Augusto, mas se pensasse muito nisso até fazia algum sentido. Estamos sempre à espera que as coisas comecem... 

“Olha, vem aí o teu.” O pouca terra pouca terra ouviu-se ao longe, bem baixinho e veio a correr como uma chaleira a ferver água. A carruagem materializou-se no horizonte e deslizou pela linha até abrandar e abrir a quarta carruagem à frente do banco. 
“Então adeus” despediu-se a Cátia. 
Levantou-se do banco como uma mola. 
“Upa! Dás-me um abraço?” 
“Claro!” Saltou do banco e para a frente do velho; envolveu-o num aperto de polvo e apertou mais um bocadinho para ele o levar consigo. O Augusto cheirava a tabaco, mas sem chegar a ser desagradável, a água de colónia e a memórias de muitas vidas. Afastaram-se com um sorriso e o Augusto subiu para a carruagem. A Cátia ficou a vê-lo a atravessar o corredor e a sentar-se à janela. Acenaram e a carruagem tremeu, afastando-se do apeadeiro, sempre em frente até desaparecer de vista e do sonho. 
Voltou ao banco, ajustou os auriculares e continuo o filme. 

Ainda em posição fetal, com o calor a abraçá-la em concha, sorriu. Um fio de lágrimas partiu da estação e seguiu a linha da face até à almoçada. 

A vida são dois dias / E se amanhã for feriado / Temos apenas um de trabalho / Depois é para beber / E amanhã morrer

terça-feira, 23 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 23 | Fim da Tarde

Mariana 
Leandro 
Augusto 
Tomar
Fim da tarde


O dux não estava propriamente feliz por ter deixado o rapaz fugir, mas agora os adultos podiam conversar. 
Apenas achava que podiam ter evitado toda aquela cena para ela mudar de ideias, mas... Como era uma pessoa magnânima fez a vontade à Mariana e, com um assobio, os tunos interromperam o ataque. 
Sorriu-lhe um sorriso que pedia um soco nas trombas e convidou-a a começar, mas o estalo que ela lhe pregou vinha com outras intenções. É esse o problema das pessoas com grandes egos, ficam sempre à espera dos yes men e que cultivem as suas terras do eu, eu, eu que quando lhes cospem ficam muito admiradas – e chocadas. 

Os tunos entreolharam-se e hesitaram em avançar, mas o dux desarmou a situação. Estava tudo bem, acalmou-os. 
A mão que esfregou a cara dorida devolveu o carinho que a Mariana recebeu e absorveu à campeã. Também os templários hesitaram, mas ela não precisava que viessem defender a sua honra. 
“Podemos falar quando estiveres mais calma?” Troçou o ex-namorado que parecia que estava numa discussão entre casais e não numa batalha campal. 
“Vá, vá, vamos falar.” 
“Agora que tens voz, tás ca pica toda.” 
Cheirava a, hum, a um engonhanço da parte dela, até porque queria dar tempo ao Diogo de fugir e à polícia para chegar. 
“Não, não, não...” Afastou-se confuso e a falar sozinho. “Já sei, falamos na pensão!” 
“Desculpa?” 
"Tens carro?” 
“Se pensas que me vou enfiar num carro conti-” 
“Vocês os dois” chamou duas caras conhecidas que estavam para ali sentadas.“Pssst!” Chamou-os novamente como se fossem dois canitos para brincar. 
“Conduzem?” Um deles, o Zeca, acenou que sim. O outro, o Mário, não respondeu. Ambas as figuras estavam marcadas, batidas e com olhos negros. Ao contrário dos outros trajados, não estavam muito felizes por estar ali. “Mariana, este moço vai conduzir o teu carro até ao meu hotel. Sabes onde é?” Voltou-se para o Zeca que acenou de novo. “Perfeito. Eu vou lá ter.” 
Tirou a carteira de dentro do casaco e atirou-lhe mais vinte euros. E para a Mariana: 
“Não vais comigo num carro e vamos falar num sítio mais ou menos público. Tenho de orientar aqui as coisas e vou ter contigo.” 
A rapariga esticou o indicador na direcção da cara do Leandro. 
“Não” cortou logo o dux. “O teu amigo safa-se. Nós falamos.” 

Ela estava que nem estátua, congelada no momento com o dedo no ar, a boca contorcida numa reclamação e a vontade engatilhada para o esmurrar de novo. Um acordo é um acordo, remoeu. Negociou consigo e aceitou. Recolheu as armas e marchou pelos caloiros que a seguiram. As engrenagens mentais giravam à volta da ideia que não podia pensar só em si, mas naquela caderneta de cromos que estavam com ela e que dependiam de um bom julgamento: o Diogo que devia estar à coca em algum lugar, o avôzinho, o Augusto e aqueles pseudo templários de part-time. Ah, o amigo do avô que chorava aos céus e segurava o castelo com os braços para não cair. Até mesmo alguns tunos com caras de quem preferiam fazer outra coisa que não fosse comer bordoadas longe de casa. 

Deixou o avô para trás com um até já e para não se preocupar; e o Augusto que estava sentado no chão e contra uma sebe, com uma capa atirada para cima. 
O velho tinha a cabeça para baixo, queixo encostado ao peito e uma mão no pescoço. O sobretudo estava enrodilhado no chão, à distância de um pontapé. Eis uma pessoa que merecia um cigarrito, mas ninguém sem um para oferecer. A Mariana acenou quando saiu, mas o velho quando viu em frente, não estava a olhar para ela, mas para o espaço que ela estava a preencher e para os espíritos que passeavam por ali. 
Junto ao carro, atirou as chaves ao Zeca e entrou no banco de trás. Os três saíram da área do castelo e a parte dela na batalha terminou. 

Não houve vencedores nem vencidos, apenas gente dorida e com sede. Partilhou-se o resto das cervejas e ajudou-se os tunos a carregarem as tralhas para as carrinhas. A Mulher Gorda foi recolhida e o portão foi deficientemente colocado no sítio. Não podiam dizer que não havia fair play e um pedaço de cabeça. 
Quando o líder dos templários ofereceu uma lata ao Augusto, este bebeu-a como se não bebesse água desde que nascera. Engasgou-se e babou-se, mas tinha-lhe caído como ambrósia. 
O Leandro sentou-se junto ao amigo do pai, mas não trocaram palavras. Um rato na cabeça roía-lhe as ideias: manter a promessa e ir-se embora ou ignorar a promessa e apanhar o rapaz? 
O céu vermelho-alaranjado parecia uma réplica de um quadro que compramos nos chineses; uma aldeia ao longe ou um castelo neste caso e figuras esbatidas a passarem na mesma posição eternamente. 
Encostou dois dedos aos lábios e assobiou a dois trajados que correram para o servir. 
“Cinco pessoas, OK? Vejam se alguém viu alguma coisa, mas não se afastem.” 
“Certo!” E espalharam-se para fora do castelo. 
“Porquê?” Coaxou o Augusto. 
Sacudiu o pó da careca. 
“Não ia dormir bem à noite com ele perdido por aí” zombou. 
“Bandalho...” 
O Leandro riu-se. 
“Desculpa o que disse há umas horas...” empunhava outro tom de voz, uma amostra de humildade estranha que lhe assentava como calças de ganga lavadas de fresco. 
Quando se preparou para responder, o velho foi acometido por uma tosse. 
“Eu abandonei o teu pai. O teu pai abandonou-te...” 
Inspirou a custo. Ouvia-se uma pieira ao fundo. 
“Não só a ti. Aos teus irmãos.” 
Falava devagar, cada palavra arrastada a um fôlego cansado. Ao outro custava ouvir do irmão, mesmo sabendo há muito da sua existência. 
“Só tenho o Guilherme” respondeu seco. 
Inspirou. 
“Não. E tens o Jordão...” 
O Leandro cravou a mão direita nas pedras até ao chão e puxou-a para trás, raspando a pele dos dedos. 
O velho sacudiu o braço esquerdo e bufou com um esgar sofrido; depois inspirou bem fundo para preencher todo o vazio do corpo com o ar da noite que nascia em Tomar. Cheirava a pó e à sebe onde estava encostado, e também à história do castelo, onde dezenas de soldados e mouros verteram sangue e lágrimas. A ideia de ficar já ali nem lhe era desagradável de todo, ao menos ia não como soldado, mas num campo de batalha. E a sua vida não havia sido uma batalha? A partir do momento em que se conheceu como Augusto e percebeu que era diferente; ou quando conheceu aquele que viria a ser o seu melhor amigo? Ter alguém ao seu lado era o que mais desejava e enquanto teve, foi invencível. Depois perdeu quando o outro se perdeu. Bateu em retirada, deixou o restaurante e fechou-se. Só em velho é que decidiu retomar a missão, senão por ele, pelos dois. 
“Vamos? Ajuda-me aqui...” Pediu ao rapaz que era a cara chapada do pai e os braços do Leandro à sua volta foram a última coisa que sentiu quando partiu.

domingo, 21 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 21 | Coragem Líquida

Diogo
Mariana
Augusto
Leandro
Tomar
Tarde


“António, o que raio se está a passar?” Perguntou o Zézé aflito. 
"Olha, se queres que te diga, nem sei.” Aproximou-se devagar das grades. Do outro lado, o mar de trajados ondeava de um lado para o outro a murmurar cantilenas. Ninguém apanhava a letra, mas o efeito fazia mesmo lembrar um mar à noite a ganhar as primeiras ondas antes de uma tempestade. 
O Leandro continuava à cabeça do pessoal e sorria com a barra de ferro apoiada no ombro. A Mariana olhava-o de volta, conversavam mentalmente e picavam-se. 
“Vou chamar a polícia!” 
“É melhor...” O Zézé afastou-se a apalpar a roupa. “Diogo, chama o pessoal lá atrás.” 
“O que está a pensar?” O Augusto aproximou-se do outro velho. Apesar da idade, o António era daquelas pessoas que consumia jogos e filmes épicos e, por dentro, ansiava por uma batalha de iguais proporções. A cabeça pensava em nomes para o inimigo, nomes para os bons e estratégias. A vida real era mais simples: bastava ligar à polícia e o Zézé já estava nisso. No entanto, se estalasse a batalha, seriam os corvos contra os templários. Porquê os corvos? Olhem para os trajes e para as capas abertas, não parecem asas da noite? E o que vinham eles fazer se não roubar tempo e paciência. 
Acabou um e tirou outro cigarro. Fumava mais quando estava nervoso e há anos que se enervava tanto, mas aqueles últimos dias puxado por si. Tudo doía: o corpo, a alma, a consciência e nem o tabaco anestesiava. Ainda assim, dava uma passa atrás da outra; aquecia a boca, a língua e expelia imagens do futuro para o ar. Nessas imagens viu parte da muralha do castelo a ceder, a desabar em areia e pó quando a onda quebrou. Não eram boas imagens e acabaram com o cigarro. Só mais dois cigarros. 

O Diogo correu a bracejar na direcção dos templários. Parece que o treino tinha terminado e a fase de hidratação tinha começado. Por outras palavras, acabar com as cervejas na arca. 
Repararam no rapaz que se aproximou e saudaram-no com uma antiga reverência. 
“Salve, jovem!” 
“Precisamos da vossa ajuda!” Bufou o jovem esbaforido. 
“Dizei, dizei!” O Diogo torceu o nariz, mas não teve tempo de ficar confuso e tentou passar a mensagem o melhor que pôde. 
“Viram os tipos que passaram por nós? 
“Esses cavaleiros negros?” 
“Han? Pois, sim. Trancaram-nos no castelo e não nos deixam sair!” 
O que aparentava ser o líder dos templários levantou-se do chão e afastou-se do Diogo para ver melhor o portão. 
“Quem querem eles? 
“A mim... e à minha amiga!” A menção da amiga agitou o grupo que se levantou numa voz de protesto. O líder passou a mão no ar para os acalmar. 
“Já vimos as bestas pela cidade. Por onde passam só fica a miséria” comentou um com voz de oração. 
“Jovem, bebeis connosco?” O líder tirou uma lata da arca e ergueu-a ao Diogo. 
“Agora?” Perguntou incrédulo? Voltou-se para os companheiros ao portão e para os templários; uns acariciam as espadas de madeira e outros despejam latas de cerveja do Lidl garganta abaixo. “Uma.” 
Bebeu-a o mais rápido que pôde e o resto deixou para a roupa. Os outros tipos e reparou em mulheres com elmos, riam-se, mas não dele – com ele. Qualquer desculpa era boa para beber, em tempo de paz ou de guerra. Podia ser a última e só por isso sabia pela vida. A cerveja nem era grande coisa, mas caraças, se não precisava daquela coragem líquida. 
“Outra!” Mão no ar para se abastecer. 
“Irmão, partilhámos álcool... Agora partilhamos destinos!” Acenou para os camaradas para se juntarem. “Treinamos o ano todo para uma batalha a fingir e agora uma bem real bate à nossa porta.” Pousou as mãos nos ombros do Diogo. “Deixa-nos viver a nossa fantasia só por um bocado ou até a bebedeira durar.” 
Os que não estavam armados pegaram nas espadas do chão e arrumaram-nas na bainha. Recuperaram as lanças do chão e enfiaram os escudos nos braços. Depois encaixaram os elmos nas cabeças e formaram três filas de quatro. 
“Toma conta da cerveja!” E ordenou os templários contra o portão que marcharam em canção e álcool. 

O Diogo estava ali, mas não estava. Toda aquela situação deixara de roçar o ridículo para o penetrar com toda a força. A cerveja tinha caído que nem ginja e como encarregue das arcas, serviu-se de outra antes de se apressar atrás dos templários, mas não conseguiu sacudir aquela sensação de ouvir algo conhecido, mas não saber de onde; uma daquelas músicas que todos ouvimos nas festas saloias, mas que ninguém consegue apontar o cantor. Uma música básica, que ficava na cabeça, mas que ofendia a cada verso. E foi por isso que a reconheceu, pela mulher gorda, ai a mim não me convém... 

Eu não quero andar na rua com as banhas de ninguém! Porque se tinha lembrado da música agora?!

WRITOBER 2018 | 20 | Batalha por Tomar

Leandro 
Augusto 
Mariana 
Diogo 
Tomar
Tarde



“Mas tu falas?” O dux avançou para a rapariga. “Estavas a gozar comigo durante aquele tempo todo ou...?” De braços abertos, com aquele sorriso de quem precisa de ser esmurrado e a balançar num passo de cada vez. O muro de tunos por trás, tesos e sem expressão, imitava as muralhas gigantes do castelo. 
Os «templários» ainda a lutar mais lá atrás, poc poc numa dança em câmara lenta. O António e o Diogo observavam curiosos o cenário, suspeitando que nada de bom iria sair dali. O Augusto vinha na sombra do Leandro por uma razão que nem ele sabia, talvez porque o filho do melhor amigo tinha razão e estavam ali por causa dele ou por algum desígnio sádico da vida. 
“Podemos falar?” Continuou. 
“S-hum-sobre?” Soou rouca. Era estranho ouvir-se passados anos, mas era como andar de bicicleta que não se esquecia. Engoliu várias vezes e pigarreou depois de falar para ajustar o volume e a firmeza da voz. “Sobre?” 
“Que estás aqui a fazer? E quem o rapaz?” Apontou num tom de gozo. 
“Diogo!” Saudou o rapaz. 
“Olá, Diogo! Mariana, podemos falar?” 
“O que queres?” 
“Quero saber de ti, só isso. Tentei ligar várias vezes e nada.” 
“Eu sei, mas se não atendi foi porque não quis.” 
“Tá.” Olhou em volta para a sua trupe estática e depois para os templários. Esfregou a careca suada por causa da muita roupa em cima. Fitou a rapariga com uma expressão indecisa, passou de gozona para triste, para normal até se decidir pela triste. “O meu pai morreu.” 
Bolas, também ela ficou confusa. Se por um lado ficou triste, por outro não se queria envolver - não podia! E ela sabia muito bem que aquilo era engodo para a pena. 
“Lamento. Como estás?” 
“Como vês?” 
“E a tua família?” 
“Ficaram lá.” 
“E vieste à minha procura para me dizeres isso?” Ao qual ele acenou ludibriado pela simpatia dela. Meteu o braço à volta dela e começou a virá-la para o portão. A Mariana tentou sacudi-lo, mas os dedos estavam cravados no braço. 
"Ei!” O Diogo correu para eles, mas ao segundo passo, o punho do Leandro estava a empurrar o peito do rapaz que cambaleou para trás. O António segurou-o e avançou, mas a Mariana já estava a empurrá-lo. 
“Que caralho foi isso?” 
“Ele é que veio!” O Augusto apareceu por trás e puxou-lhe pelo casaco para se irem embora, apontando para o portão com a cabeça grisalha. Poc poc e gargalhas ébrias vindas do grupo medieval. “Só quando ela falar com-” 
Nesse momento e a meia frase, o corpo do Diogo arremessou-se como uma lança, apanhando o dux de lado. Caíram os dois no chão, o Diogo em cima do Leandro. Saltou para trás e fugiu do adversário, atirando terra na fuga. O muro de tunos avançou para o dux e ergueram-no. A capa bem dobradinha estava agora cheia de poeira e pedrinhas que os outros sacudiam. 
“Oh.” O Leandro olhou para a roupa suja, olhou para a Mariana, o Diogo e para o avô. Ignorou o Augusto e os tunos, mas não o grupo que treinava no jardim. “Se vamos ser assim, então vamos embora.” 
Virou-lhe as costas e caminhou com o rabo entre as pernas e com a careca a reluzir ao sol do fim da tarde. A cauda de estudantes trajados caminhava por trás sem se anunciar ou ter alguma presença. O Augusto não os acompanhou e ficou por ali a sacudir o sobretudo como se tivesse perdido alguma coisa de importante. Ainda se virou para o Leandro e depois para os que ficaram. Ficou também e lá acho o que procurava: o maço de tabaco. Raspou um fósforo e roçou-o no cigarro que lhe acendeu a vida. 
Quando os tunos e o dux desapareceram de vista, falou: 
“Não há outra porta? Não aconselho a mesma.” 
“Porquê?” Perguntou o António. 
“Ele não está bem...” e respondeu para a Mariana que concordou. Aliás, deve ter sido por isso que se separaram. Ele... tinha fases e a soma de todas não compensava um investimento na relação. 
“Aberta só há aquela” respondeu o António. 
“E agora?” Perguntou o Diogo.
“Vamos ver?” O Diogo concordou e foram para o portão.
O Augusto esperou um bocado com a Mariana enquanto partilhavam uma nuvem de pensamento, mas lá foram atrás dos dois homens. 

Quando chegaram ao portão de grades altas, o cenário no exterior era algo que só havia visto em festas de queimas ou praxes: um mar negro de tunos e estudantes trajados que cobria a entrada e um grande bocado do parque de estacionamento. 
“Agora falas comigo?” Perguntou o dux careca que já tinha uma capa negra e limpa. Ela levantou-lhe o dedo do meio. 
“Vais deixar-nos passar?” Perguntou. 
“Só ao teu amigo. Isto... se ele quiser, claro.” 
“Desculpa?” 
“Está desculpada. Não peço mais nada: tu vens falar comigo e ele passa na boa. Palavra de honra!” 
“Zézé, que raio se passa aqui?” O António virou-se para o funcionário do castelo que estava junto aos portões e sem telemóvel. 
“Chegaram depois de entrarem.” 
“Chamaste a polícia?” 
“Não estão a fazer nada de mal...” 
“Fecha o portão.” 
“Como?” 
“Fecha-o, se faz favor.” 
“Eu não posso fazer uma coisa dessas!” 

E quando acabou de responder, uma garrafa veio a girar no ar contra as pedras da muralha. Crás. E depois outra, todas ao lado. Crás
“Já!” O homenzinho correu atrapalhado e empurrou as grades, trancando-as. Os outros podiam correr, podiam impedir e podiam abrir, mas ficaram a ver e a sorrir. A sorrir porque o Leandro, o dux e o gajo da malta, também se ria. E do casaco comprido fez aparecer uma barra de ferro. E os outros repetiram o gesto com todo o tipo de varas ou tacos. 
E antes de marcharem, o Leandro invocou um dos colegas que tinha vindo de Évora. 
“Trás a Mulher Gorda.”

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 18 | Flutuar

Cátia
Lisboa
Almoço

Coisas más acontecem a pessoas boas sem razão aparente; serem violadas, torturadas ou mortas. Quando acontece em ficção, não tem de avançar um enredo ou fazer sentido. As pessoas são más e são. 
Quando os japoneses invadiram Nanquim, não estavam preocupados em desenvolver as narrativas pessoais de cada pessoa morta ou violada. Eram pessoas más, doentes – fodidas da cabeça e do coração - que fizeram coisas más a outros. Nos dias de hoje, o japonês é visto como paciente, educado, rígido e dono de uma paz oriental. Mas... 
As nossas personagens movem-se num tabuleiro de xadrez e o jogo começa a sufocar, portanto sugiro aproveitarmos esta calma antes da tempestade. 

A Cátia mal meteu os pés no Cais do Sodré e arrependeu-se logo. O cais estava mais concorrido do que um queijo da serra ao sol, de uma tarde quente de julho; mais barulho que um jardim de infância em dias de aniversário e não havia um espaço livre sem turistas a arrastarem malas cheias de autocolantes. 
Três terminais e uma confusão sem fim: Montijo – Seixal – Cacilhas. De acordo com o bloco do Augusto, o próximo restaurante ficava para os lados de Almada, então... Cacilhas. Ela já tinha andado de barco entre as ilhas, mas aquela experiência era completamente nova e não tinha a certeza se estava a gostar. 
Demorou meia hora para comprar um bilhete de ida e volta; dois barcos vieram e foram sem ela e a hora de almoço seguia o mesmo trajecto. Quando finalmente meteu os pés num daqueles barcos laranjas, velhos que gemiam e tremiam antes de se afastarem do cais, teve um mau pressentimento. Um arrepio que correu por ela como um gato vadio que não se deixa apanhar: iam parar a meio do Tejo e ficar encurralados entre as duas margens. A única solução era saltar ao rio e nadar – mas para onde? Qual era a melhor margem? Deveria nadar para Cacilhas ou para Lisboa? Seguir a carreira do pai ou a da mãe? Afogar seria uma hipótese? 

A Cátia que parecia a Kate Bush, e que já não dançava há semanas, sentia-se leve no barco que flutuava na espuma do Tejo; a concentração fugia-lhe das fantasias e das responsabilidades e as imagens sumiam-se da vista; pérolas de água nasciam nas rugas confusas e tomavam o seu tempo cara abaixo. Encostou-se ao assento duro do barco e sentiu a agulha a descer ao coração: entrou num piscar e saiu com uma cócega metálica. 
Quando o chão lhe fugiu dos pés, a bailarina reparou que estava a levitar. Não, estava a ser erguida pelos outros bailarinos, e ela era a estrela, o centro das atenções. As cabeças surgiam e desapareciam e cantavam desafinadas, mas o vulto negro ficou e sentiu-lhe a carícia, a mão na face e a separar-lhe os lábios. Depois o líquido quente. E saltou para a vida real. 
“Upa, miúda!” confessou a negra com o copo de café numa mão e a cabeça da Cátia na outra. “Pregaste-me um cagaço...” 
“O que aconteceu?” Perguntou desnorteada quando reparou que já estava fora do barco. 
“Tiveste uma quebra de tensão. Tens comido?” 
“S-sim, mas... “Coçou o vestido por cima do peito. As pessoas passavam para ver e afastavam-se saciadas de acidentes. Aceitou as mãos da outra mulher e acabou com o resto do café. Lavou os lábios com a ponta da língua e a primeira coisa que fez foi pedir desculpas pela chatice. 
“Tens tempo?” Perguntou a outra depois de ter recusado as desculpas. 
“Ia almoçar.” 
“Perfeito, vamos as duas aqui perto.” Levantou-se e esticou-lhe a mão aberta. “Laurinda” apresentou-se. Mão direita para a frente, braço esquerdo apoiado na cintura e atitude para dar e vender qual Pam Grier no seu auge. 
“Cátia” ofereceu de volta e aceitou a mão.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 15 | Boa Boca

Leandro
Lisboa
Almoço
Dia seguinte

“Porra, esta massa está brutal!” Comentou o Guilherme.
“É, a cozinheira é boa.” Respondeu o Jordão.
“Acho que não fui a tempo de provar os cozinhados da dona Celeste...” lamentou.
“Mas alguém sabe que estás aqui?” Comentou a meio garfada.
Os dois rapazes ocupavam uma mesa no fundo do estúdio, algures no Bairro. O Guilherme apareceu antes do almoço e fez questão de esperar pelo outro. Sem outras alternativas, o Jordão convidou-o a entrar e acabou por perguntar se ele era servido. Quando deu por si, estavam a partilhar a marmita. 

“Sim, sem stress.” Despreocupou-o. “Vim em trabalho. Eh. Mais ou menos.”
Uma cena que ainda ruminava: almoçar com os irmãos.
“Diz-me.” Mastigou uma garfada e esperou que o outro engolisse.
Sculpa.” Engoliu. “Sem tretas: o pai deixou-nos o restaurante.”
Tanta coisa má naquela frase: «o pai» e não «o meu pai» e DEIXOU-NOS O RESTAURANTE! Parte do que arrancou do garfo foi ao goto e engasgou-se. Cuspiu-se entre tosses e limpou a baba do canto da boca. O irmão comia sem ligar como se já esperasse a reacção.
“Han?!”
“O restaurante do pai, o Tropa.”
“Sei, mas porquê?!” Estava incrédulo e o outro encolheu os ombros. Se havia razões, não estava muito preocupado.
“O pai” o pai... “contou-me que existias há uns meses e, bem, não foi fácil...” enfiou a ponta do garfo na boca. A cara do Jordão perdeu o foco e os olhos percorreram as paredes e os quadros e as fotos à procura de algo ou alguém que conseguisse fazer sentido daquele circo.
Ele nem gostava do homem. Ele nem conhecera o homem...
“Ah, não, não!” Sacudiu os braços no ar. "Não fiques assim. Na boa, mas imagina que vives a pensar uma coisa e depois, pimba!, tens um irmão. Outro irmão! É brutal!”
“E o que o teu pai fez não te chateia?” A ele sim.
“Foi uma merda para a minha mãe, mas cenas...”
“O teu irmão sabe?”
“Nah.” Mirou os atacadores dos ténis. “Ele nunca se deu bem com o pai e isto ia comer-lhe a cabeça.”
“Fodido...”
A Celeste fez questão de contar tudo ao filho tipo penso rápido. Até pode nem ter sido a melhor decisão, mas fê-lo e ficou feito. Ainda puto, fez imensas perguntas e se podia conhecer o irmão isto e aquilo. Mais velho, a curiosidade tornou-se em indiferença e acabou por desprezar o homem, mas ele sabia quem eram todos. E a mãe apontou-os assim que chegaram ao velório. Se essa mulher não gostasse das suas novelas, então não sei…
"Nem veio a casa quando ele adoeceu. Só via a merda da tuna à frente e as festas.”
“Vi-o a bazar ontem com o pessoal dele.”
“Oh, tinha assuntos importantes a tratar, vê só.”
“E o senhor Augusto também foi com ele.”
“Conhecem-se?” Acenou.
No meio daquela novela mexicana, o senhor Augusto era das únicas pessoas que a mãe não tinha nada de mal a dizer. Foi a casa algumas vezes, comeu da comida da Celeste e elogiou-a daqui até à Lua. Não fossem as curvas da vida, e ele podia ser o pai dele.
No fim, esvaziaram a marmita numa questão de garfadas, empurraram com água e limparam-se satisfeitos.
“Nunca pedi nada ao teu pai. Nunca quis nada. Não quero o restaurante dele para nada.”
“Nem eu. Para que quero um restaurante se nem sei cozinhar? Falta-me falar com o Leandro e se ele não quiser, vende-se, dividimos o guito.”
“Não mesmo, meu.”
“Depois vemos.” Levantou-se. “Posso só lavar as mãos?”
Quando o Guilherme saiu do cubículo, o colega do Jordão já tinha regressado e preparavam-se para abrir o estúdio para a tarde.
“Vou indo. Deixa as cenas acalmarem e começo a mexer-me.” Esticou o braço e apanhou-lhe a mão num aperto fraternal, mas com pinta.
“E trato do outro também.”

Saltou o degrau e desceu a rua velha, desaparecendo nos turistas que subiam. Ao fim ao cabo, no meio daquela revolta, alguma dor e confusão, o facto de ter irmãos nem era mau de todo e aquele, apesar de ser um branco a tentar demasiado ser fixe, conseguia-o ser um bocadinho. Tinha uma boca do caraças; a mãe iria adorá-lo.

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