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| Lorenz Hideyoshi Ruwwe |
Seis meses passaram desde que Gilass se tinha demitido.
Acordou às cinco de uma manhã digital e sentou-se na ponta do beliche. Estava escuro em todo o lado: na camarata, nos corredores, lá fora em qualquer direcção no espaço. Não havia noção de dia e de noite, apenas um sistema horário que fazia menos sentido quanto mais longe estivessem da Terra.
Alongou os braços um de cada vez, o pescoço e estalou. Enfiou as calças, uma perna de cada vez. As botas, um pé de cada vez. Vestiu a camisa azul que meteu metade nas calças e o resto de fora. O revólver na mesa de cabeceira voltou ao coldre na cintura.
Antes de sair recuperou o casaco de cabedal castanho e parou no espelho. Esfregou os dedos pelo cabelo curto com restos de cera para o ajeitar. Bonna já a esperava lá fora, caminharam as duas em conversa rotineira e desceram até ao hangar. Momoa também lá estava sentado na naveta meio a dormir, meio a meditar. O Capitão abusava disso para passar um ar de superioridade contemplativa. Persimon estava com ele e deu-lhe um murro no braço quando as viu chegar. Suzako entrou na cabina e começou a preparar para sair.
Embarcaram e abandonaram a Centaur. Saltaram e navegaram até à colónia mais próxima. Suzako, o piloto, iniciou o protocolo de autorização para se aproximar. O capitão começou:
"Já sabem. Uma hora: entrar, sair, não dar nas vistas. Suzako, ficas a aquecer o banco. Persimon, sobes e ficas à coca. Milano, caminhas comigo. Bonna, vinte passos atrás - faz a tua cena."
Saltaram para a plataforma e desapareceram nas suas posições. Momoa liderou Gilass pelo mercado até se tornaram homogéneos com os locais. Às tantas, o conhecido deixou de fazer sentido e sentiu-se perdida, novamente pequena num novo mundo. Pessoas de vários tamanhos e feitios passavam por ela, uns deitavam olhares e outros atiravam frases em dialectos estranhos que o tradutor convertia com lag. Um braço tatuado puxou-a para um banco e fê-la sentar-se. Momoa tinha a mesma cara de frete. Odiava desperdiçar tempo e aquilo era mais do mesmo. Levantou dois dedos e dois copos fumegantes foram servidos.
"Bebe." Ponderou... "Ou finge. Tanto me faz."
"O que estamos a fazer?"
"A caçar." Levou o copo à boca. A mulher reparou nos olhos duros do capitão. Havia um misto de tristeza e raiva naquele tremer rápido que assistiu. Também muito atentos ao mundo. Baixou a cabeça e agarrou na bebida. No reflexo do copo, continuou a ver a multidão a escorrer. O Capitão espreguiçou-se e levou a palma ao ouvido e fingiu confidenciar à parceira do lado: Então?... Boa... Não, vamos esperar...
"O que estamos a caçar?"
"Ratos, Milano. Não mexas na arma e porta-te bem."
Seis meses passaram desde que Gilass tinha embarcado na Centaur. E todos os dias havia um teste novo.
Acordou às cinco de uma manhã digital; estava sentada a beber um copo no que passava por um meio-dia artificial e agora caçava ratos. Atrás dela a corrente de pessoas alterou.
