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domingo, 28 de outubro de 2018

WRITOBER 2018 | 28 | O Discurso


Diogo
Mariana 
???? 
Almoço 

“Uma semana!” Berrou a Mariana quando deu com o Diogo a dar de comer aos porcos. Ao lado, as mãos da velha agarravam num balde invisível que despejava nos comedouros. 
Bom dia, menina! 
“Vi nas notícias...” espalhou a mistura de ração e de restos, e afastou-se dos roncos que se atropelavam para chegarem à comida. Encaixou o balde nas mãos da senhora e sacudiu as calças.
“Mete-te já no carro!” Apontou para a rua.  
O avô tinha ficado para trás, admirado e confuso com a existência daquela aldeia. Era bem provável ter passado por lá sem ter dado conta, mas... como? Espreitou, falou e cutucou as pessoas sem terem reacção. Os habitantes da aldeia eram altamente funcionais, autónomos, resistentes e duradouros, mas limitados a nível de fala. Tinham umas quantas frases gravadas e pouco mais; o básico para orientar alguém perdido dali para fora. Eram os NPC perfeitos. Sentou-se no café à espera dos outros dois, mas mais aliviado pelo rapaz estar bem. Aliás, mais do que bem, melhor do que muitos! 
“Faz isto. Faz aquilo. Anda aqui, vai ali!” Zombou da miúda. “Desde a pedrada que não tenho tido descanso e nem a porra de uma opinião!” 
“Desculpa?” Ela cruzou os braços. “Quem é que quis saber do meu pai?” 
“Tu! Tu querias, mas precisavas de um alibi-” 
“Oh, obrigado! ‘Tadinha da muda. O que faria sem ti?” 
“Olha, não me chateies e vai-te embora.” 
A Mariana virou-se para ir, mas voltou atrás. 
“És igualzinho àquelas coisas” disse num tom frio. 
“Aceito como um elogio...” 
... Mas não era.” Afastou-se. “Então, ficamos assim?” 
Yeap.” Encolheu os ombros, mãos no bolso. A velha já ida dali. 
“Sabes quando nos rimos quando alguém cai?” Começou o Diogo a ditar: “É porque o nosso cérebro está programado para ver pessoas a andar – uma linha recta sem alterações. Quando alguém cai porque tropeçou, está a fugir da sua programação e o nosso cérebro acaba por não saber lidar e regista aquilo como uma irregularidade ou anomalia. Rimos ou entramos em pânico.” 
O som das galinhas a serem alimentadas no outro lado preencheu o silêncio entre as duas pessoas. Continuou: 
“Nesse aspecto, eles são melhores do que nós. Não reagem a nada. Não se preocupam com nada. Apenas continuam, Mariana.” 
“Mas também não vivem e não sentem...” 
“Parecem-te mal?” 
“Não me parecem nada, Diogo...” Aproximou-se do rapaz que olhou para cima e depois para a rapariga. Cruzou os braços em jeito de defesa. 

“É tão cansativo.” Inspirou e engoliu o ar que conseguiu. “É tão cansativo sentir coisas e... E... Ou ser a personagem principal. Ter os olhos em nós, à espera que tropecemos para se rirem.” E aqui a voz tremeu como se estivesse numa linha alta e quase a perder o pé. 

Ela aproximou-se mais um bocadinho do rapaz e desta vez foi ela a falar: 
“Não há problema em sermos personagens secundárias. O mundo também precisa de pessoas que segurem o escadote.” E então sorriu. 
“OK! Arrastei-te e usei-te como desculpa para esta aventura, mas na verdade... estava cagada de medo e agia sem pensar, mas tu? Mantinhas-me na terra... e esta semana foi horrível, estúpido.” 
Sorry...” 
Estamos todos indecisos. Temos todos uma caixa. Pensa no que quiseres, mas pensa, age, ri-te quando alguém cai – ou melhor: ajuda a pessoa.” 
Yeah...” 
“Vamos?” Perguntou uma voz atrás deles. 
“Bora” insistiu a neta do António que já estava cansado. 
“Sim, mas volto quando acabarmos.” 
“És livre.” 
“E onde vamos?” Parou a meio do caminho. 
“À minha avó. Algo se passa em Lisboa.” 
A simples menção da casa da avó Quicas deu-lhe mola aos sapatos e um brilho nos olhos. Podiam ter passado o discurso e saltado para a casa da avó que o efeito era o mesmo. 
“Bora, bora!” Chamou-a. Cumprimentou o avô e seguiram para arrumarem as coisas. 

Nisto, em Lisboa. 

Leandro 
Jordão 
Lisboa 
Tarde 

As portadas das janelas atiraram-se contra as paredes da rua e os vidros foram levantados, trancados e as cortinas arrancadas. Lá dentro, o Leandro e os tunos mudavam as mesas, as cadeiras e arrastaram-nas em U; puxaram dos quadros e das fotos das paredes e esticaram as bandeiras da tuna. 
A porta escancarada berrava a música da folia e os vizinhos mostravam o descontentamento com fronhas aborrecidas. Conheciam o Leandro, conheciam o Guilherme, alguns sabiam da morte do pai. Toleravam, mas... 
O Jordão desapareceu para uma marcação, mas voltou logo para encontrar o Guilherme com uma mini na mão e um tom de aflição. 
“Estão a destruir o restaurante!” Atirou-se ao irmão que apontou para a garrafa. O Guilherme bebeu o resto e limpou os lábios. “Vai ver!” 
“Eu não quero ter nada a ver com isto!” O Jordão teve de falar por cima da festa. 
“Mas é o teu restaurante!” 
“Não! Ele é louco! Tenho de bazar, desculpa.” 
Hei, maninhos, onde pensam que vão? A voz veio de dentro, manipulada pela frequência do megafone, mas sabiam quem era. Venham para cá. Comam e bebam! Convidou-os. 
Xau!” Despediu-se do Guilherme e tomou a rua de onde veio. 
Ó, macaco, disse-te que podias ir? O megafone deixou escapar um feedback que interrompeu a música e degolou o ambiente. Quando repararam, o Leandro estava à janela, megafone ao peito e corvos a encurralarem os irmãos. Se vissem a cena ou o filme Pássaros, era quase igual, só que estes carregavam pandeiretas, guitarras e paus cuja única música que produziam era a da pele a estalar e do osso a partir.

WRITOBER 2018 | 27 | Linhas Paralelas


Mariana 
Tomar 
Manhã

Ela e o avô arrancavam todas as manhãs para procurar o Diogo. Saíam de carro, com o telemóvel dele e um power bank, e iam pelas estações de serviço e aldeias com fotos. Ninguém o tinha visto e aquele medo automático de que pudesse estar caído no mato aumentava. 
Uma após a outra, café após outro e não atrás de não. A polícia acabou por ser notificada e as buscas começaram, mas com as esperanças reduzidas. Entretanto, ela e o avô varriam mapas e contrariavam o GPS; deixavam o carro na berma e enfiaram-se nos matos com varas e berreiros. E um dia e, por exclusão de partes, tropeçaram num sítio que não constava dos mapas e era apenas um borrão no Google Maps... 

Diogo 
??? 
Manhã 

Bom dia, menino! 
Mesmo que a educação fosse robótica, era tão bom ouvi-lo pela manhã, ao entrar no café. O velhote da parede lá estava, o empregado também e os cafés despejados eram outra constante, mas com a chegada do rapaz houve uma ligeira alteração à programação e à rotina dos habitantes de Andros. 
Durante uma semana, o Diogo comeu e bebeu sem se preocupar com o fundo do barril porque a aldeia continuava a ser abastecida por uma carrinha que chegava e sumia sem um logo ou identificação. E como ninguém se preocupava, não era ele a começar. A meio da semana veio outra carrinha com homens de fato-macaco que passaram as mãos pelos velhos e partiram umas horas depois. Passou esse dia escondido em casa, mas nos outros passeava, dormia e bebia. E quando se fartou, tirou uma resma de papel e começou a escrever. 
Noutro dia, assim para o final da semana, viu no rodapé das notícias que tinha desaparecido... eh, alguém andava à sua procura... 

Cátia 
Montijo 
Almoço 

A miúda com uma missão. Apanhou o barco, outro barco e um autocarro e chegou ao destino: um restaurante com pinta de snack bar que também servia bitoques; entrou e pediu o habitual e sentou-se na rua para não ouvir os donos a discutir. 
Se pensasse bem no assunto, isto de andar de cidade em cidade, de restaurante em restaurante, até era porreiro e uma óptima desculpa para conhecer o país, mas a saudade de casa já batia sorrateiramente no coração. Talvez devesse ligar aos pais, decidiu. E dar-lhes a boa notícia. A mesa tinha duas cadeiras e a da frente, uma cadeira de plástico, estava saída como se alguém se tivesse levantado para ir à casa de banho. Imediatamente lembrou-se do Augusto e das lições de bitoques, das histórias da tropa ou das cidades onde tinha saído. Ele era tão rabiscado quanto o seu bloco e havia sempre mais uma coisa para escrever. Falando nisso, tirou-o para cima da mesa e quando ia começar a escrever, reparou no rodapé das notícias e de um desaparecido em Tomar. 

Leandro 
Jordão
Lisboa
Almoço

Um dos trajados entrou com sacos de plástico cheios de comida e outro entrou com dois jerricãs, com um líquido que não devia ser água. 
Os dois irmãos estavam à porta e nenhum podia entrar, mas da janela viam o Leandro sentado na mesma mesa da última vez. Ora afundava-se nos braços e berrava aos tunos, ora enfrascava-se em litrosas e cantava com os restantes. E ali, bem no meio das duas personas, estava o irmão que o Guilherme não via há anos, mas era muito rápido. 

Eles faziam lá ideia do que o Leandro estava a passar ou a ver ou a ouvir. Num lado tinha o pai a mandar o restaurante à merda e para botar fogo a tudo; que o restaurante lhe comeu o corpo e a cabeça. No outro tinha o Augusto saudosista, a amar estar ali e a querer continuar. E quando uma voz falava mais alto, a mente inclinava-se como uma balança. Às tantas pediu ao pessoal para lhe trazer ingredientes para cozinhar e gasolina para queimar O Tropa. Independente de quem ganhasse, ele iria perder. Ou perder-se.

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